O método é arcaico. Armados com forquilhas de pesca à fisga, os ladrões arremessam-nas com violência aos peixes indefesos nos tanques da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO). Foi o que aconteceu na madrugada de quarta-feira, 12 de outubro. As visitas dos amigos do alheio não são, contudo, uma novidade, o que obriga os técnicos e investigadores a contar os peixes no início de cada dia.

Desta vez, «este roubo não colocou nada em risco, mas, normalmente, os ladrões regressam para acabar o serviço e roubar tudo o resto», prevê o responsável. E justifica: «em fevereiro tivemos um grande furto de linguados e robalos. O alarme toca e eles correm, está a ver? Eles estudam-nos, sabem a que horas saímos, sabem que há um dia em que eu saio mais cedo e, enquanto o segurança não chega, atacam. Isto é tudo organizado, por gente que mora aqui perto, que sabe os nossos hábitos», reconhece Pedro Pousão Ferreira.
Mas se assim é, não deveriam saber também o que vêm roubar? «Sabem. Isto é uma terra pequena, muitas pessoas têm família e amigos que trabalham cá. Portanto, todos sabem para que serve o peixe, principalmente o que está nos tanques de cimento junto ao edifício», estruturas que concentram, regra geral, uma a duas dezenas de reprodutores. «Andam à procura de qualquer coisa para roubar. São aqueles ladrões que roubam uma torneira de cinco euros para vender ao sucateiro e que o deixam a si sem água em casa. A mentalidade é a mesma», compara.
Esta estrutura multidisciplinar, inaugurada em 2001, alberga no total 2300 metros quadrados de área coberta para peixes e laboratórios. São sete hectares contando com os tanques externos e estrutura offshore ao largo da ilha da Armona. Nos últimos quatro anos, contou com uma verba de três milhões de euros para investigação. Publica com frequência estudos e manuais técnicos, proporciona formação, organiza workshops, recebe visitas de estudo e é uma referência nacional e internacional.
Foi você que pediu… um peixe com chip?
Os linguados furtados «sabemos que os vão vender aos restaurantes», enfatiza o diretor Pedro Pousão Ferreira, que não se admira se, a continuarem estes assaltos, qualquer dia, seja servido à mesa numa qualquer esplanada próxima, um especimen científico de um projeto em curso. A cena não será muito diferente: ao dar uma garfada, a pessoa que se prepara para degustar um suposto peixe fresco de mar, dará por si a cuspir um objeto estranho. E não será uma espinha, mas um dos pequenos chips que marcam os peixes usados nas experiências da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão. «Os nossos reprodutores estão marcados com um chip que os identifica. Tem um centímetro de cumprimento e três milímetros de diâmetro. Está no lombo, logo a seguir à cabeça. Parece uma coisa de vidro. Aparece-lhe no prato, com certeza!» Para já, ainda não apareceu porque a equipa da EPPO não se conforma em ser vítima e segue todas as pistas para encontrar o paradeiro dos peixes roubados.
Ciência cortada à posta
Pedro Pousão Ferreira ainda hoje se mostra espantado por ter visto as suas preciosas corvinas reprodutoras serem cortadas às postas e vendidas ao consumidor no Mercado de Tavira. «Estamos a falar de bichos com 20 quilos cada. Identificámo-los, porque tinham chips. O homem da praça, por acaso, tinha fatura de compra. Ou seja, adquiriu-as de forma legal. Elas foram roubadas aqui e vendidas em Olhão por um alguém que se apresentou como pescador», diz. É assim que «vão também vender aos restaurantes. Dizem que os apanharam na pesca. Claro que isto coloca duas questões. O dono do restaurante está a cometer uma ilegalidade ao comprar algo fora do circuito normal de mercado. Não pode adivinhar a origem do peixe, mas compra na mesma. O tipo que vende, esse, sabe perfeitamente o que está em causa».
Justiça ineficaz
Este tipo de criminalidade, se chegar aos tribunais, na maioria dos casos sai impune. «Constituímo-nos como assistentes no processo judicial e, fazendo as contas aos valores em causa, tendo em conta que roubar reprodutores inviabiliza esta casa de poder trabalhar durante dois ou três anos e, por causa disso, deixamos de poder participar em projetos comunitários (financiamentos europeus para investigação), se calhar, tudo junto dá um valor muito grande. Mas para que serve apontar para um número enorme, se quem roubou é um pé-descalço que não tem dinheiro para nada?», questiona o diretor da EPPO. Por outro lado, fazendo as contas com base apenas em quanto vale o peixe a retalho, ao consumidor, este «valor é tão baixo que dá pena suspensa ou condenações simbólicas. Muitas vezes o Ministério Público acaba por arquivar os processos, porque não tem provas. É complicado. Dizer que os robalos valiam 30 mil euros ou 500, é igual», exemplifica Pedro Pousão Ferreira.
A solução é prevenir e não punir
Ao diretor do EPPO pouco lhe interessa ver os ladrões atrás das grades. «O que nós queremos é evitar, não é condenar», porque as consequências são «algo que não se repara. Mesmo que o culpado seja condenado à prisão, o que é que eu ganho com isso? Nada!», admite. Cada assalto suscita «uma grande frustração, não para mim, mas para os cidadãos que pagam impostos para financiar a investigação científica que Portugal faz. É frustrante sobretudo para o contribuinte. É uma frustração para os cientistas e para a toda a comunidade. Temos cá pessoas muito dedicadas e depois vem um anormal que dá cabo disto tudo durante muito tempo», sublinha. A 21 de fevereiro «roubaram-nos quatro robalos com três quilos cada. É claro que temos um stock de 30 animais. Mas o que é que aconteceu? Acabaram por morrer mais três dentro do tanque, feridos. Os que sobreviveram ficaram de tal modos assustados que não puseram ovos. Perdemos a época de postura. Não houve reprodução por causa do stress», lamenta Pedro Pousão Ferreira.
Impróprios para consumo
O peixe para a ciência é muitas vezes sujeito a tratamentos com antibióticos ou desparasitantes, e a dietas experimentais. No entanto, não é isso que os torna incomestíveis. São impróprios para consumo humano porque «não passaram pelos circuitos normais de mercado. Qualquer peixe roubado daqui não foi sujeito a boas práticas de morte, nem acondicionado para ser servido na restauração. Não vou dizer que está estragado e que a pessoa que o comer morrerá. Se tiver, porém, o azar de apanhar um peixe que foi anestesiado», vai apanhar diretamente com os restos desses químicos, sublinha Pedro Pousão Ferreira. Com frequência «tentam roubar-nos os peixes nos tanques de terra». Embora não seja tão grave para a ciência, como no caso dos reprodutores, nem por isso deixa de haver prejuízo. «Se os roubarem no meio de uma experiência, o que acontece é que vamos tirar informações erradas. Imagine que estou a monitorizar taxas de sobrevivência, ou de crescimento, e de repente os peixes não estão lá». Inviabiliza o projeto. O responsável sublinha também que estes animais, sempre que um ensaio termina, são abatidos em condições de segurança (depois de quarentena, são mortos em gelo e bem acondicionados) e doados ao Banco Alimentar contra a Fome. Pedro Ferreira diz, em jeito de brincadeira, preferir bifes, pois, enquanto responsável da EPPO, «seria o mesmo que comer o cão ou o gato lá de casa». E deixa um recado aos ladrões: «venham cá que eu ofereço-lhes 10 corvinas de dois quilos cada, mas, por favor, não me levem os reprodutores»…
Capitania de Olhão está «muito atenta»
Questionado pelo «barlavento», Rui Nunes Ferreira, capitão do porto de Olhão e comandante local da Polícia Marítima, diz que «existe um ligação muito estreita com a direção da EPPO e um procedimento adotado para que haja celeridade na comparência no local por parte do piquete» desta autoridade. Isto porque, os assaltantes muitas vezes acedem à EPPO pela Ria Formosa, chegando a provocar danos na vedação. «Temos alguns indivíduos referenciados, mas que a nível processual temos de os apanhar em flagrante delito. E, nesse aspeto, temos feito um grande esforço para os intercetar. Já temos uma situação dessas com sucesso» confirmou.
Preconceito contra a aquacultura
«Essa é uma questão para acabar. Hoje come um frango de aviário ou vai caçar pombos? O preconceito só existe em Portugal, porque nós temos a sorte imensa de ainda termos peixe do mar e podemos dar-nos ao luxo de falar assim. Daqui a poucos anos, só vai poder comprar peixe de aquacultura», garante Pedro Pousão Ferreira, diretor da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO). Questionado sobre o material que circula nas redes sociais, acusando o salmão de ser um veneno, o investigador não tem papas na língua. «Lembra-se do que circulava há uns anos sobre os hambúrgueres da McDonalds serem feitos de minhocas podres? Já acabou, já não se fala nisso. É claro que no caso do salmão é um disparate pegado», responde. «Os peixes de aquacultura têm melhor qualidade, porque, a qualquer momento, estão sujeitos a inspeções sanitárias por parte das autoridades. Os que estão no mar, você não sabe o que comem ou comeram. Sabe lá se vêm carregados de mercúrio, se comeram num esgoto, se comeram outros peixes que comeram num esgoto? O peixe de aquacultura é criado num ambiente controlado», contrapõe. Aliás, «daqui a uns anos, vai ter de ir a um oceanário ver o que é o peixe do mar, porque não há. Temos que cultivar as coisas para comer. Com o crescimento da população mundial, com o crescimento económico na Ásia e nos países emergentes que é tão ou mais importante do que o aumento da população, as pessoas deixam de comer apenas arroz e passam a comê-lo acompanhado de peixe», prevê.
«Nós em Portugal e na Europa importamos 75 por cento do peixe que consumimos. Importamos enquanto alguém nos vender. Enquanto os chineses e vietnamitas tiverem excesso, vendem, mas quando as suas populações crescerem economicamente, vão deixar de ter para vender ao estrangeiro. Ou começamos a pensar em produzir rapidamente peixe de aquacultura ou daqui a poucos anos não terá peixe para comer», garante. Um exemplo? «Vim agora de Edimburgo, onde a maioria dos restaurantes tem pangácios, peixe-galo vietnamita. Quando o Vietname deixar de exportar, vamos comer o quê na Europa? Nós não gostamos da aquacultura porque ainda temos a barriga cheia, mas isso é algo que está para acabar».



