Jovens agricultoras perderam quase tudo no incêndio de Monchique

Não tardou até ao incêndio chegar à porta de Ana Rita Simões e Fátima Baiona, jovens agriculturas e sócias da «Pé de Salsa», pequena empresa que explora um terreno de três hectares na Senhora do Verde, entre os concelhos de Portimão e Monchique, uma das zonas mais fustigadas pelas chamas, na passada semana.

«Tínhamos tudo limpo e plantado e uma parte estava lavrada. Como fazemos agricultura biológica precisamos de ter alguma vegetação natural, porque aloja muitos bichinhos que nos vão ajudar a combater pragas. Mas estava tudo no limite», contou Ana Rita Simões. A estufa só não ardeu toda devido à pronta intervenção do comandante José Carlos, de Alfragide, e dos bombeiros daquela corporação.

«Conseguiram controlar o fogo. Depois, durante a noite, reacendeu numa zona onde temos tomilho. O marido da minha sócia também foi um herói, pois ficou lá, apagou os rastilhos e não deixou as chamas chegarem ao plástico. Senão tinha ardido tudo».

estufa

Ainda assim, «perdemos 85 por cento do que tínhamos», contabiliza. «Todas as tubagens de rega, a instalação das eletroválvulas, a produção que ainda íamos tirar para vender, ficou tudo destruído. Estimo o prejuízo em cerca de 30 mil euros». O projeto iniciado em 2013, estava em plena produção de hortícolas e aromáticas, com as agricultoras prestes a plantarem o início da campanha de outono e inverno.

E agora? «Vamos ter de recuperar aos poucos. Darei conhecimento ao Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP) que nos aconteceu esta desgraça. Terei que esperar por medidas de ajuda. Ainda assim, terei que avançar com a compra dos materiais e mão de obra, com dinheiro meu. O problema é que nós estamos em início de atividade, mal conseguimos pagar os nossos ordenados e contamos com a ajuda da família».

Ainda assim, até ao incêndio lhe ter destruído o projeto, Ana Rita Simões estava confiante e satisfeita. «Temos vindo a crescer cada vez», com as encomendas de cabazes a aumentar de dia para dia. «Trabalhamos também com outros produtores que não conseguem fazer o escoamento. Como temos uma parte comercial organizada, damos-lhes apoio». Com o negócio prestes a consolidar-se, «foi um golpe muito duro».

Que fazer para evitar que a catástrofe se repita? «Muito do que aconteceu tem causa humana. Quem possui explorações agrícolas tem mesmo que ter tudo limpo. É preciso ter acessos desimpedidos, tem que haver mais limpeza e organização dos espaços. Tem que haver mais fiscalização».

700 bombeiros combateram incêndio de Monchique

No auge do incêndio de Monchique, na semana passada, que se estendeu ao concelho vizinho de Portimão, através da freguesia rural da Mexilhoeira Grande, estiveram quase 700 bombeiros, 200 viaturas, 13 máquinas de rasto e nove meios aéreos. Um rasto de labaredas que se estendeu por quase vinte quilómetros entre Portimão e Monchique e que levou à evacuação de habitações em localidades como o Rasmalho, Senhora do Verde, Montes de Cimas e Casais. Foram 55 pessoas, as retiradas da suas casas devido ao perigo das chamas.

Também o Autódromo Internacional do Algarve teve o fogo à porta. Na tarde de dia 8, Paulo Pinheiro, o administrador, contava ao «barlavento» que tudo estava a ser feito para tentar apagar o fogo no perímetro do complexo motorizado, com a ajuda «de funcionários e bombeiros». Ainda assim, as chamas apenas consumiram vegetação rasteira e árvores, não havendo perigo, segundo Paulo Pinheiro, de chegar a algum tipo de produto inflamável.

Junto ao mesmo espaço, o Hotel Pestana Race, aberto a 1 de agosto, teve de ser evacuado, mas apenas para proteger os clientes do intenso fumo, entretanto realojados noutras unidades do grupo.

A vinte quilómetros, Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, percorria a serra de jipe, coordenando os passos dos bombeiros, identificando alguns dos locais de maior perigo e enviando meios, como máquinas de rasto, para as zonas mais complicadas. Ao «barlavento» contou que, naquela tarde, o que mais o afligia era a frente de fogo que corria na zona da Ribeira das Canas, nos montes por detrás do restaurante Maximino. Já na noite anterior, a localidade dos Casais tinha ficado rodeada pelas chamas, deixando apenas o rasto preto, de cinza e destruição.

Na noite de 8 de setembro, também um novo incêndio a norte da cidade de Silves, dividiu o dispositivo, desmobilizando os bombeiros para esse concelho. Acabou por ser dominado na manhã seguinte.

O vento não deu tréguas na noite de 7 e 8 de setembro e só na sexta-feira, ao final da tarde, o incêndio foi dado como dominado. No entanto, a vigilância continuou até segunda–feira, com um dispositivo de mais de uma centena de bombeiros. No total, arderam mais de 3700 hectares. Ou seja, dez vezes mais área ardida no reacendimento, na semana passada, do que no incêndio que deflagrou no dia 3 de setembro na encosta sul da Fóia. Aliás, na quarta-feira, já tinha havido uma sessão do Conselho Municipal de Proteção Civil, onde tinha sido adiantado que o dispositivo seria desmobilizado às 20 horas desse dia. Às 19h57, chegou, porém, um novo alerta ao Comando Distrital de Operações de Socorro de Faro de que o incêndio estaria reativo, com duas frentes de fogo nos Casais.

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