Joaquim Peres, 66 anos, é o novo presidente da Águas do Algarve, cargo que assumiu no passado dia 24 de fevereiro. Em entrevista exclusiva ao «barlavento» revela a sua visão pessoal sobre a empresa e os projetos que ambiciona concluir.
barlavento: O seu antecessor, Carlos Martins, que é hoje secretário de Estado do Ambiente, fez-lhe algumas recomendações ou apontou-lhe algum caminho a seguir?
Joaquim Peres: Apontar rumos não é a situação mais correta, porque esta empresa vivia e vive uma forma mais colegial de gestão. Não há uma indicação de uma pessoa para um determinado rumo. A empresa tem objetivos que são coletivos e partilhados. Tive conhecimento prévio e assumi-os. Passam pelo início da construção da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) da Companheira, em Portimão, e pelo assinar do contrato da ETAR de Faro-Olhão, duas infraestruturas muito importantes.
Este é um momento desafiante, já que a empresa lançou a construção destas novas ETAR. No entanto uma delas é já alvo de críticas. Fala-se, por exemplo, que os bivalves da Ria Formosa são sensíveis às descargas de água doce, o que no futuro poderá ser um problema. No presente, há quem reclame que as ETAR obsoletas desta zona não cumprem as normas em vigor. Qual é o seu comentário?
É evidente que as ETAR existentes têm problemas. Se não tivessem, não seria necessário substituí-las. No caso da futura ETAR de Faro-Olhão, atendendo à necessidade de reaproveitar a água que venha a ser rejeitada como afluente final, estamos em conversações com as Câmaras Municipais, com vista à sua reutilização. Em vez de ser lançada de imediato na Ria Formosa, não o vai ser. Será lançada num ribeiro (Rio Seco) que hoje está seco, cumprindo dois objetivos fundamentais. O primeiro é a recarga dos aquíferos, para garantir um fluxo de água que dificulte a intrusão salina. Essa água poderá também servir para fins múltiplos, como rega de jardins municipais ou outras situações de lavagem de ruas, de contentores, entre outras. Toda a situação fundamental para a zona, que é a exploração comercial de bivalves, vai ficar melhorada. Por outro lado, também a flora desta zona lagunar, que não resiste, não reage muito bem ao afluente lançado diretamente, vai ficar em melhores condições, porque deixará de receber todo o caudal rejeitado pela ETAR. Penso que vamos conseguir dar várias respostas a estas questões.
Outra crítica tem a ver com o facto de se trazer os esgotos de São Brás de Alportel para Faro. Faz sentido essa opção?
Foi a decisão tomada, e, uma vez encarada, faz sentido que assim seja. Estas questões podem ser encaradas de duas formas distintas. Uma é a tentativa de centralizar os pontos de tratamento. Isto pode trazer ganhos de eficácia, porque conseguimos mais eficazmente tratar todo o conjunto. Há situações em que isto não se torna financeiramente viável, porque estas tentativas de centralização acabam por ter um custo acrescido na construção das infraestruturas necessárias para o transporte, ou, eventualmente, para a elevação. Não há nenhuma solução que seja a panaceia para todos os males. Face às várias questões que se vão colocando, quer de origem geográfica, como a proximidade, os declives, quer até pelo facto de certo tipo de contaminações poderem ser tratadas em conjunto, através de tratamentos biológicos que permitem uma melhor eficácia, assim se vão tomando as várias alternativas. Neste caso, foi tido em consideração que seria bastante mais económico fazer o transporte de São Brás de Alportel para Faro, de forma a termos um tratamento mais homogéneo nas novas instalações.
Que vai acontecer à ETAR poente de Olhão?
Vai ser desativada. Aí vai aparecer uma estrutura diferente, isto é, uma estação elevatória que vai transportar os afluentes para a nova ETAR. Há a necessidade de criar um projeto inclusivo, que envolva a empresa Águas do Algarve, as Câmaras de Faro e Olhão e alguns privados que queiram associar-se, para tornar aquela uma zona de fruição. Poderia ser uma situação de parque ribeirinho. Neste momento, estou aberto a todo o tipo de ideias. Aquilo que se pretende é que venha a ser uma mais-valia para a região. Que seja mais um contributo que traga um rapport económico que possa vir a ser considerado.
O que nos pode dizer sobre a ETAR da Companheira,em Portimão? Também vai ter um procedimento semelhante?
Sim. A ETAR antiga tem todos aqueles processos de lagunagem que vão permitir, tal como em Olhão, um estudo para o aproveitamento daquela área e a instalação de alguma mais-valia. Esta zona é mais densamente povoada. Nas proximidades tem empreendimentos imobiliários e outros, como a questão das sardinhas que são típicas e convivem paredes-meias com toda aquela situação. Portanto, há que dotar tudo com soluções de convívio saudável e aceitável por todos.
Estamos a falar de um novo plano de pormenor?
Não. Estamos a falar de considerar na nova ETAR as instalações necessárias para que ela deixe de provocar as questões de má vizinhança que hoje provoca. Ou seja, os cheiros. Aquele terreno de implantação das lagoas pertence à Câmara Municipal de Portimão. Há-de haver um projeto, eventualmente com alguns operadores privados e connosco no sentido de tratarmos disto. Do ponto de vista paisagístico são fundamentais as desodorizações para deixar de emitir todos aqueles cheiros. É verdade que sendo instalações mecânicas, por um motivo qualquer, podem ter um período de menor eficácia. Pode acontecer. Não se pode dizer que se erradicam de todo os odores. Mas vamos dotar a infraestrutura com os equipamentos necessários para que a má vizinhança não se repita. Quanto ao plano para aquela zona, sei que está feito, que há algumas alterações que estão em vigor no Plano Diretor Municipal, mas não tenho que conhecimento que tenha havido alguma mexida por causa disso.
E em relação à reutilização da água?
A água que venha a ser rejeitada no rio Arade, não tem as mesmas particularidades que tem a zona de Olhão. Aqui o que pesa mais são as situações do turismo. Não podemos deixar que venham a haver problemas com praias ou outros quaisquer. Por outro lado, a infraestrutura necessária para a reutilização tem um peso financeiro. Pode não ser viável, uma expansão ou a criação de uma rede de distribuição dessa água industrial, que poderá não competir, em termos de preço, com a água que se vai fornecendo. Ainda não estamos numa situação de escassez de água que nos obrigue à reutilização total, como noutros países já acontece.
Esse tema foi discutido em 2005 durante um grande período de seca. Já não faz sentido?
Isso foi visto e por isso todas as infraestruturas de ligação entre barragens amenizaram muitíssimo a questão. Hoje, o Algarve não tem problemas de abastecimento de água, nem no inverno, nem período máximo de consumo no verão. Foi uma situação de gestão de barragens e da sua interligação entre Sotavento e Barlavento. É quase só mudar o ponto de uma estação elevatória que está a meio do sistema, e bombear para um lado ou para o outro.
Que é a a situação hídrica atual das barragens?
A barragem de Odelouca subiu seis centímetros com as últimas chuvadas, o que para o volume, ou seja, para a área daquela bacia, são um contributo importante. Este verão não vamos ter problemas.
O «barlavento» tem acompanhado a situação dos regantes de Lagoa. Há novidades?
A questão prende-se com o seguinte. A barragem de Odelouca teve grandes questões iniciais. A Liga para a Proteção da Natureza esteve contra e só foi possível a sua construção quando se colocou que a água era para abastecimento humano. Só para isso. A barragem não teve comparticipação comunitária, foi financiada pela Águas do Algarve. Os regantes de Lagoa, Silves e Portimão fizeram um projeto para alargarem o perímetro de rega, mas têm ao seu dispor a barragem do Funcho, a montante do Arade. Portanto aí têm água disponível para a rega. A ligação à barragem do Funcho, para nós, não tem problema nenhum. Podem-no fazer quando quiserem. O problema aqui está noutra situação. É que querem ter água em pressão sem construir uma estação elevatória. Queriam ir buscar água ao adutor que vem de Odelouca. Não é possível fazer utilização da água de Odelouca para rega por imposições comunitárias. Ou seja, podem ter de construir mais um troço para irem abastecer ao Funcho. Não sei qual será a solução. Estão várias em estudo. Houve há pouco tempo uma reunião com o secretário de Estado e foi dito que, o Governo estava disponível para junto de Bruxelas tentar uma solução. Contudo, era preciso ver primeiro que custos envolve ir buscar água a Odelouca. É preciso garantir comparticipação no estado do adutor, na barragem, mas também nas medidas compensatórias que a Águas do Algarve teve que assumir. A saber: a situação do lince, não só do espaço criado, mas da sua manutenção e da alimentação, isto é a criação de coelho; mas também da águia-de-bonelli e das espécies piscícolas que também lá existem. Tem que haver uma comparticipação em tudo isto. Além de se perceber que a água que vem do Funcho e de Odelouca tem características diferentes. A ETA que as trata em Alcantarilha iria ter um acréscimo de custo superior na produção de energia para tratar as águas e as lamas. Todos esses custos estão a ser analisados. Terão que ser apresentados numa próxima reunião.
Os regantes defendem que o Funcho está livre para a rega. Mas ainda assim não conseguiram a ligação…
É verdade. Porque o projeto que materializaram previa que a ligação fosse a Odelouca.
Esta rede de rega seria um fator de contaminação para Odelouca?
A rede em si, não. Mas há a necessidade de vir a compensar os volumes de água gastos a partir de Odelouca com a água vinda do Funcho. Basicamente, eles iram gastar a água de Odelouca e depois compensavam com a água vinda do Funcho, mas esta não tem as mesmas características. Portanto, estaríamos aqui a incorrer em duas situações. Primeira, a água de Odelouca, que foi absolutamente estabelecido que seria para consumo humano, passaria a ser também para rega. Para compensar os volumes, iria-se buscar água ao Funcho, que tem características diferentes e daria problemas acrescidos na situação do tratamento. Os regantes têm ou não têm apetência para continuar com esta solução? Se sim, vai-se verificar junto da comunidade. Se não, vamos arranjar outra solução e o assunto ficará resolvido. Estão a dar-se passos nesse sentido.
Num futuro próximo, a água poderá vir a ser privatizada?
A questão da privatização da água, não é uma situação que julgue que se coloque neste momento. Têm sido muito claras as posições governamentais. Não está em cima da mesa a questão da privatização deste recurso fundamental. É a resposta mais direta que lhe posso dar.
Tem alguns planos enquanto presidente da Águas do Algarve?
Por um lado, dar continuidade e finalizar aquilo que estava a ser feito. Por outro lado, aproveitar mais as energias alternativas. Do ponto de vista técnico, temos o problema das lamas que é grande e temos de equacionar. Estamos a pensar seriamente na questão da secagem solar, dado estarmos numa zona com tantas horas de insolação. As lamas secas, além de fertilizante, podem servir de combustível nas cimenteiras. E podem as várias universidades com quem vamos conversando, encontrar também valor acrescentado nesse produto. Ser assim for é bom para todos, porque este é um dos grandes custos que temos. Se o reduzirmos, temos possibilidade de fazer variar a tarifa. É extraordinariamente importante que isto se desenvolva.
Já que falamos de projetos experimentais, podemos falar na deteção de fármacos nas ETAR do Algarve…
É um projeto que está a ser feito com outras instituições do país e com utilização de alguns materiais autóctones que nos poderá dar uma projeção bastante interessante. A empresa tem que ter sempre em linha de conta o sector da investigação e desenvolvimento. Aquilo que se deseja é estar mais à frente que estamos. Tivemos dois projetos pioneiros. Nas duas ETA (Alcantarilha e Tavira) instalámos painéis fotovoltaicos. Permitem que estas instalações praticamente não necessitem de mais nenhuma fonte de energia. Esta situação teve uma inauguração a 4 de março, e é um objetivo importante. Não é uma situação para ficar por aqui. Nas instalações que estamos a construir como a que está projetada para a ETAR Faro/Olhão, está prevista a instalação de um conjunto de painéis fotovoltaicos para fornecer energia alternativa.
Um novo centro de dados à prova de catástrofes
Segundo Joaquim Peres, presidente da Águas do Algarve, a empresa vai aproveitar um espaço disponível na ETAR de Faro noroeste, para criar um novo centro de informática. Aí serão serão alojados os servidores da empresa já existentes e, futuramente, «toda a telegestão que existe para a área do fornecimento, mas que ainda não existe para a área do saneamento. É um projeto que estamos a desenvolver. Vamos centralizar todas essas infraestruturas nas instalações existentes e, por razões de segurança, replicá-las na ETA de Tavira. Uma situação quase de back-up», explicou ao «barlavento». Assim, «em caso de catástrofe , que poderá acontecer, a empresa poderá recuperar os seus dados. Aquela zona estando próxima para que o intercâmbio se possa fazer, está suficientemente longe para que não haja uma contaminação direta, em caso de desastre natural. Isto é possível, porque anteriormente já se desenvolveu um projeto de ligação entre infraestruturas através de fibra. Neste momento vamos verificar o seu estado de conservação, a capacidade de largura de banda e avançar» com o projeto que considera «estruturante».
Águas do Algarve de boa saúde
Apesar de estar há apenas dois meses à frente da Águas do Algarve, o novo presidente tem uma noção clara das contas da empresa que lidera. «Neste momento, a saúde financeira é boa. Tínhamos algumas situações de prazos de pagamento que tinham sido ultrapassados, mas devido ao mérito também dos meus antecessores, grande parte desses prazos foram superados», explicou Joaquim Peres. «Alguns municípios não tiveram ainda condições para resolver todas as pendências. Temos que perceber também as dificuldades que atravessam. Há-de haver, com certeza, em base de negociação, um entendimento de modo a que as partes vejam resolvidas as suas necessidades». Peres elogiou ainda os recursos humanos. «A Águas do Algarve tem quase todo o ciclo da água, desde o abastecimento até ao tratamento. Vim encontrar gente com muita competência nestas duas áreas», considerou.
Uma vida ligada à engenharia
Joaquim Peres, 66 anos, desenvolveu a sua vida profissional no sector da engenharia. Começou nos transportes, esteve ligado ao metropolitano de Lisboa, acompanhou as últimas ampliações da rede, e depois focou-se no ambiente. Tem trabalhado em empresas como a SIMTEJO que presta o serviço de recolha, tratamento e rejeição de águas residuais nos municípios de Amadora, Lisboa, Loures, Mafra, Odivelas e Vila Franca de Xira e a EPAL – Empresa Portuguesa das Águas Livres, responsável pelo abastecimento de água à cidade de Lisboa. Além disso, dá aulas no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, onde é professor adjunto-convidado. O novo presidente da Águas do Algarve tem raízes algarvias, é filho de mãe silvense e pai tavirense. Atualmente reside em Tavira.
Manvia ganha contrato das Águas do Algarve
A Manvia, empresa de manutenção do Grupo Mota Engil, ganhou um contrato para prestação de serviços de Operação e Manutenção do sistema multimunicipal de saneamento de 21 localidades da Região do Algarve. O contrato, adjudicado em consórcio e após concurso público das Águas do Algarve, tem a duração de cinco anos. Para responder a esta nova adjudicação, a Manvia contratou 135 colaboradores.