IKEA: de uma caixa de fósforos a líder do mobiliário para casa

O «barlavento» visitou o recém inaugurado Museu Ikea, na Suécia, e partilha a história do percurso do império sueco.

Ingvag Kamprad tinha apenas 17 anos quando fundou a IKEA. A visão, conceito de negócios, valores, forma de pensar e origem tornam a empresa um verdadeiro fenómeno e caso de estudo único.

A região de Småland, no sul da Suécia, sempre foi uma das mais pobres no país. Para criarem solos aráveis, os agricultores locais tiver de desenterrar grandes quantidades de pedra com os quais construíram muros. «Tornar problemas em oportunidades» é uma das realidades que há muito fazem parte da filosofia IKEA. Ingvar começou por comprar e vender fósforos, uma biografia que quase faz lembrar o conto clássico de Hans Cristian Andersen. Mais tarde aventurou-se noutros pequenos outros artigos.

E embora a região fosse relativamente pequena, os clientes estavam muito separados entre si e a bicicleta que usava como meio de transporte e entrega, revelava-se um método inviável para fazer crescer o negócio. Ingvar decidiu então apostar em publicidade em jornais.

A fachada do atual Museu IKEA, aberto em junho de 2016 e atualmente situado na original localização da primeira loja da cadeia sueca.

Esta decisão fê-lo aumentar consideravelmente a sua carteira de clientes, para a qual, preparou um folheto apresentando todos os materiais que possuía para venda. De vendedor itinerante passou a empresário de vendas à distância. A gama de produtos incluía desde as canetas, a isqueiros, carteiras, relógios, molduras, meias, toalhas, cachimbos, entre outros. Os artigos eram depois recolhidos pela carrinha do leite na quinta onde vivia, e seguiam por comboio ou correio, até à casa dos clientes.

Ingvar interessou-se depois pelas pequenas empresas que fabricavam mobiliário nas proximidades da quinta onde vivia. Começou por comprar peças de mobiliário aumentando assim a gama no catálogo da IKEA a «preços de fábrica». Para sua surpresa, o mobiliário foi rapidamente o produto mais vendido do portfólio, por isso, decidiu apostar neste segmento de negócio. Adquiriu uma antiga carpintaria abandonada e aí instalou a sua primeira exposição permanente e mobiliário. Além do catálogo, os clientes poderiam ver e experimentar a mobília no salão de exposições com a possibilidade de receber os produtos em casa.

Frederico Arouca é o único português a trabalhar no Museu IKEA. É colaborador da empresa desde 2012.

Ingvar começa depois a desenvolver e produzir a sua própria mobília criando um portefólio com produtos exclusivos. Na mesma época, a IKEA decide fabricar o mobiliário em peças, prontas a montar. Dado o já grande volume de vendas, a produção era distribuída em partes por diferentes fábricas por forma a otimizar e aumentar o volume de produtos. Parte da produção já não era feita em Småland mas sim por todo o mundo. Tal como acontece até hoje! Através da utilização das «embalagens planas» de montagem fácil permitiu poupança com os custos de envio assim como evitava danos durante o transporte.

A primeira loja abriu em 1958, em Älmhult, no distrito de Småland. A loja atraia clientes que viajavam grandes distâncias, até desde a capital, Estocolmo. Uma visita à loja de Älmhult representava um dia inteiro passado fora com a família. De forma, a receber bem os visitantes, Ingvar introduziu um restaurante, salas de estar e mais tarde espaços infantis, pois percebeu que, se as pessoas ficassem mais tempo também comprariam mais.

O logotipo original da IKEA.

Os preços baixos com que os artigos eram e ainda são vendidos, têm origem na poupança e recurso inteligente dos recursos de produção. O princípio da montagem simples reduziu os custos de manuseamento, armazenamento, transporte e embalagem. Comprar em todo o mundo permitiu uma redução dos preços e mais capacidade. Fazer as coisas de forma não convencional também deu frutos.
A segunda loja IKEA abriu em Oslo, na Noruega e a terceira em Estocolmo, na Suécia. Com montras atrativas, preços baixos, tornaram-se locais de excursões e as vendas subiram, até que surgiu a ideia de lançarem também pequenos acessórios para a casa dentro da loja.

Ingvar tinha apenas 5 anos quando começou a vender caixas de fósforos.

Depois de várias lojas na Suécia, Dinamarca e Noruega, Ingvar tentou a sorte em Zurique, na Suíça. Foi uma vez mais bem-sucedido. Hoje existem lojas IKEA espalhadas por todo o mundo.
Ingvar Kamprad vive atualmente em Älmhult, onde regressou há cerca de quatro anos depois de ter vivido durante alguns anos na Suíça. A filosofia IKEA mantem-se desde o inicio até hoje: «proporcionar uma vida melhor para o maior número possível de pessoas».

Museu IKEA: uma viagem no tempo num espaço pouco convencional

O museu IKEA abriu há apenas 8 meses no espaço onde surgiu originalmente a primeira loja IKEA do mundo. No seu interior, faz-se uma retrosespectiva desde a infância do fundador Ingvar Kamprad até à atualidade. Desde a sua abertura, o museu já recebeu mais de 135 mil visitas.

Per-Olof Svensson um dos atuais responsáveis pelo Museu IKEA.

O responsável pela coordenação do museu é Per-Olef, colaborador do IKEA desde 1987. Começou na IKEA a na distribuição como na loja, recursos humanos, vendas e serviço ao cliente. Tudo isto porque sou extremamente curioso e quis conhecer as diferentes secções dentro da empresa. Questionava-me como poderia tanta gente contribuir para o mesmo objetivo? Essa foi uma resposta que fui recebendo ao longo dos anos», recorda. Licenciou-se em História e Economia no final dos anos 90 e decidiu dedicar-se a tempo inteiro à IKEA. Atualmente é «team manager» e organiza «as coleções e materiais históricos em exibição no museu».

Algumas das peças em exibição foram doadas por antigos colaboradores ou clientes, outras mantidas pela IKEA ou encontradas em feiras de antiguidades. «Temos por exemplo uma cadeira dos anos 60 que na época não teve grande sucesso mas que hoje parece estar muito na moda. O conceito de beleza muda muito ao longo do tempo», refere.

Garante que o museu tem muito potencial pois «temos muito a aprender com a história. Alguns dos problemas de hoje são novos mas muitas das respostas podem ser aqui encontrados». Sublinha que um dos maiores atrativos do museu é «o efeito nostálgico que exerce sobre os visitantes. Muitos recordam como eram as coisas nas décadas de 60, 70, 80 ou 90. É uma autêntica viagem no tempo. Além disso possuímos ainda uma exposição temporária, um restaurante e loja, o que tornam a visita ainda mais interessante», revela. A atual exposição temporária «Como nos sentimos em casa?» foi inaugurada em fevereiro e estará em exibição até junho, época em que lançarão uma nova exposição. «Desta forma teremos sempre novidades para quem nos visita».

Sobre o fundador do IKEA diz ser «famoso na Suécia e muito admirado pelo seu fascinante percurso. Afinal, a IKEA é uma empresa construída ao longo de uma única vida e à semelhança de um só homem».

Paralelamente, o único português a trabalhar no museu é Frederico Arouca, 44 anos, natural de Lisboa. Chegou à IKEA em 2012 e colaborou com a «ICOM IKEA Communications» e no «IKEA Learning and Culture Centre». Desde junho 2016 é o visual communicator do museu, isto é, o responsável por toda a imagem e comunicação externa e interna. Um trabalho «muito desafiante» onde não existem dois dias iguais. Considera que trabalhar na IKEA é «diferente de todas as outras empresas. Aqui dão-me responsabilidade mas também boas condições para a realização do trabalho. Valorizam-nos e sinto que sou respeitado pela minha experiência. Os suecos são muito unidos, e isso, é evidente no espírito IKEA de entreajuda, em que todos juntos fazemos a diferença e somos mais fortes», confidencia.

Garante que viver na Suécia é «bom». «Gosto do ar puro, da neve, natureza, dos lagos e da pureza da água que bebemos. Das condições que dão à terceira idade, às nossas crianças, ao nível da saúde e aprendizagem, e o nível financeiro é melhor do que o que temos em Portugal». Arouca vive em Älmhult, e o seu dia a dia é simples: «demoro dois minutos de casa ao trabalho e cinco minutos para deixar os meus filhos na escola Internacional. Tudo muito perto. Aos fins de semana por vezes vou até às cidades Malmö, Växjo ou Lund. No inverno passo mais tempo em casa com os meus filhos e com os meus gatos, que também vieram para um país novo e adoram esta floresta! Aqui também faz muito frio.

Já presenciei 22 graus negativos e anoitece por volta das 15 horas. No verão é o oposto: fica dia até 23h00 e é aproveitar ao máximo a natureza. De Portugal sente apenas saudades do «sol, da comida e do mar», mas todos os anos viaja para matar saudades.

O museu está aberto sete dias por semana, entre as 10 e as 18 horas. A entrada tem um custo de 60 coroas suecas (aproximadamente seis euros).

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