Hospital de Loulé investe 4 milhões em unidade de alta tecnologia

Antigo Convento da Graça vai albergar uma unidade clínica de ponta. Traça arquitetónica é para manter intacta. Objetivo é ajudar a atrair e fixar profissionais de saúde na região.
Filipe Vieira, administrador executivo do Hospital de Loulé.

Apesar de ter apenas seis anos de existência, «começámos a perceber que precisávamos de mais espaço», explica Filipe Vieira, administrador executivo do Hospital de Loulé, em entrevista ao «barlavento». «Vamos aprofundar áreas que já temos em funcionamento e consolidar algumas valências técnico-científicas premium, topo de gama, como a oncologia, a cirurgia de ambulatório, cirurgia minimamente invasiva, serviços muito diferenciados na área da cardiologia, da reabilitação cardíaca, tudo isto com alta tecnologia», explica. Para isso, adquiriu o antigo Convento da Graça, nas traseiras do edifício principal, também ele um património histórico e afetivo da cidade.

«É um edifício enorme, com 2500 metros quadrados de área coberta. Vai ser um desafio muito interessante, conseguir cabimentar e criar um polo tecnológico muito diferenciado e, ao mesmo tempo, tentar preservar a beleza deste monumento. Teremos a fachada do século XVII no exterior e um programa funcional do século XXI no interior», descreve. Atualmente, «o edifício está muito degradado. Sofreu uma destruição quase total no terramoto de 1755. Passou por várias mãos, e ultimamente pertencia a uma família a quem não era útil, de todo. Achámos que para nós era estratégico e fomos também sensíveis à beleza histórica e à representatividade que este edifício tem na cidade», sublinha.

«Há um ponto assente na administração do Hospital de Loulé que é a manutenção do património edificado e a matriz social, quer do antigo Hospital da Misericórdia, quer do Convento da Graça. Temos um grande orgulho nessa matriz e todo o programa funcional que vier a ser desenvolvido irá respeitar ambas», garante o gestor. Entre equipamento e a aquisição do imóvel, o orçamento ronda os 4 milhões de euros e a unidade deverá estar pronta a funcionar daqui por dois anos. Para já, é um «investimento puro e duro» do Hospital de Loulé.

Hoje, entre profissionais de saúde e colaboradores, emprega 350 pessoas. A nova unidade terá que contratar entre 100 a 150 profissionais de saúde. A fixação de médicos tem sido o calcanhar de Aquiles da região, problema sobre o qual Filipe Vieira tem uma opinião. «Acho que o Algarve tem tido sempre dificuldades em fixar elites. As elites fixam-se quando sentem que têm capacidade de produzir o seu trabalho e quando se sentem acolhidas. Uma elite quer praticar a sua arte, quer desempenhar as suas tarefas e tem que ter condições. Neste momento, o Algarve que era muito, muito periférico, tem vindo a fazer um esforço. Temos fatores que nos ajudam – a qualidade de vida, o clima, a beleza natural – e agora temos de encontrar desafios para que as elites se fixem, desenvolvam aqui o seu trabalho e investigação. E que, no futuro, possamos estar ao nível de outras regiões como Coimbra ou Porto. Temos potencial para isso e é esse desafio que colocámos com esta nova unidade», conclui.

Acessibilidades são o grande desafio

«A mobilidade diária de mais de 500 utentes que carecem de cuidados de saúde tem que ser muito acautelada e os fluxos têm que estar bem verificados e conferirem segurança às pessoas que nos visitam para receberem tratamentos. Esta zona obriga a uma reformulação dos fluxos de pessoas e de viaturas. Nós, de facto, juntamente com a autarquia e com as entidades oficiais, temos aqui uma equação que tem de ser resolvida, que é conseguir alocar toda esta gente no centro da cidade. Penso que a criação desta nova unidade não só traz muita gente para habitar aqui em Loulé, mas também traz uma vivência fantástica. Consigamos todos re-equacionar uma solução integrada» de forma eficiente e descomplicada. «As acessibilidades são fundamentais e a Câmara Municipal de Loulé tem sido sensível», considera Filipe Vieira, administrador executivo do Hospital de Loulé.

«Público e o privado não devem estar de costas voltadas»

A funcionar há seis anos, o Hospital de Loulé dá hoje cerca de 350 a 400 consultas diárias, entre as programadas que envolvem uma equipa de 100 especialistas, e o atendimento permanente, disponível 24 horas, cuja afluência «depende um pouco da altura do ano ou das epidemias». «Temos muita atenção aos tempos médios de espera, porque isso faz a diferença. Além disso, fazemos cerca de 250 cirurgias por mês», revela Filipe Vieira. «Nós gostávamos de ter mais relação com o sector público do que temos. Sou da opinião que deveríamos ser complementares. Ou seja, o público e o privado não devem estar de costas voltadas. O próprio Estatuto do Serviço Nacional de Saúde prevê que haja uma complementaridade, e é esse desiderato que nos leva a desenvolver a nossa atividade. Devem ser desfeitos alguns dogmas. Público e privado têm que trabalhar de frente uns para os outros, cooperar com regras transparentes. Temos algumas convenções com o sector público e é assim que olhamos para a saúde nesta que é uma região bastante carenciada. Essa complementaridade é absolutamente necessária e de salutar», sublinha.

Autarquia de Loulé acarinha o projeto

A futura unidade de saúde de alta tecnologia «obteve o carinho e o empenho da Câmara Municipal de Loulé, que tem sido, desde o momento da aquisição do convento, um parceiro estratégico. Tem-se mostrado disponível para ajudar no processo, porque rapidamente percebeu que é uma mais-valia muito grande para cidade», diz Filipe Vieira, administrador executivo do Hospital de Loulé. Na visita efetuada às obras mais emblemáticas de reabilitação do património histórico-cultural em curso em Loulé, na quarta-feira, 1 de fevereiro, os responsáveis da autarquia, acompanhados pelos técnicos municipais passaram pelo Largo Tenente Cabeçadas, onde se encontra o Convento da Graça, classificado como Monumento Nacional. A intervenção municipal neste espaço, «que constitui um testemunho raro da arquitetura medieval medicante no Algarve», passou pela recuperação do Portal e requalificação do espaço interior da antiga igreja. Os trabalhos tiveram um custo de 70 mil euros.

Hospital Universitário no Algarve é «bem-vindo»

«Só encontro vantagens» na criação de um Hospital Universitário no Algarve, garante Filipe Vieira, administrador executivo do Hospital de Loulé. «Achamos uma ótima ideia, porque isso traz know-how, traz profissionais para a região e nós estamos muito focados em tentar encontrar parcerias, laços comunicantes com a Universidade. Queremos ser parceiros na investigação e no desenvolvimento de boas práticas clínicas. Olhamos com muito agrado para a criação de uma unidade que seja de referência na região, como um hospital universitário».

Hospitais privados trouxeram «mais segurança» à região

«A razão do nosso sucesso também tem a ver com a forma como nos implementámos junto da comunidade estrangeira residente. Esta foi a primeira a descobrir o nosso hospital, terá sido bem tratada e fidelizou-se. Sentem-se como se estivessem em casa. Sem querer puxar a brasa à nossa sardinha, tenho a certeza que os hospitais privados contribuíram muito para a fixação de estrangeiros no Algarve, numa determinada altura da vida em que estas pessoas sentiam alguma insegurança. Hoje têm cá os seus médicos, os seus especialistas nas diversas áreas. Porque temos um ambiente clínico de segurança que antes não existia», conclui Filipe Vieira.

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