Hospital de Faro pioneiro no uso de cães de terapia

Unidade de Faro do Centro Hospitalar do Algarve (CHA) inicia hoje, 7 de abril, um projeto pioneiro em Portugal na área da neuropediatria com recurso a terapias assistidas com animais.
Equipa do CHA (da esquerda para a direita): Daiana Ferreira, Carla Mendonça, Carla Joaquim, Conceição Silva, Kátia Ferreira e Sueca.

A partir de sexta-feira, 7 de abril, o projeto piloto «Uma pegada na reabilitação pediátrica» arranca no CHA, durante os próximos seis meses, num total de 81 sessões. «Acredito que estamos a escrever história no contexto hospitalar em Portugal», refere Carla Mendonça, 55 anos, coordenadora do Centro de Neuropediatria e Desenvolvimento do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), em Faro.

«Quando a Sueca (cadela de terapia) aqui entra (no hospital) as pessoas ficam logo bem-dispostas! Quem é que consegue estar zangado perto de um cão assim?», questiona a médica, olhando para a cadela tranquilamente deitada no chão do consultório.

O projeto piloto destina-se para já, apenas a três bebés de dois anos, que sofrem de atrasos de desenvolvimento. Crianças que não falam, não se locomovem corretamente e não têm o comportamento expectável para a idade. «Toda esta intervenção precoce será muito importante. Definimos objetivos terapêuticos concretos para cada uma delas que deverão ser atingidos com a ajuda da cadela Sueca».

A equipa que irá dirigir o projeto será guiada pela médica Kátia Ferreira, responsável por orientar os objetivos terapêuticos do programa, por duas terapeutas, e por Daiana Ferreira, responsável pela associação KOKUA, que tem vindo a desenvolver no Algarve um importante trabalho na área das Intervenções Assistidas por Animais (IAA) e à qual pertence a cadela Sueca. «Neste momento, estamos a estruturar-nos da melhor maneira, e a avaliar as potencialidades de ter um cão na nossa equipa», explica Carla Mendonça.

A terapeuta ocupacional Conceição Silva integra a equipa que irá trabalhar com a cadela Sueca e evidencia que o projeto «é um trabalho muito sério que não pode ser levado de uma forma leviana. Vai trazer mais-valias para muitas famílias. Quando estamos a trabalhar com estas crianças sentimos o seu sofrimento e o cão, não só alivia como também potencia os bons resultados. Além do mais, sem dúvida que cria imediatamente um bom ambiente para a criança, a família e a equipa de profissionais de saúde», garante. Sublinha ainda que esta é «uma pegada pequenina porque apenas uma curta franja de miúdos vão ter este benefício. Mas provavelmente muitos outros pais também vão querer a ajuda da Sueca».

Ao fim do período experimental de seis meses, os resultados serão discutidos. «Pretendemos propor à administração do Hospital a continuação deste projeto. Esperamos que mais crianças possam ter acesso ao serviço e que outros hospitais do país possam replicá-lo. Quem sabe se no futuro, poderemos também apresentar os resultados desta iniciativa num congresso de neuropediatria?», avança Carla Mendonça, coordenadora do centro. E como podem os cães de terapia ajudar crianças com atraso de desenvolvimento?

As interações possíveis com a cadela são inúmeras, desde atividades de cooperação, imitação ou repetição, que podem ajudar os miúdos a superar obstáculos. «Crianças com doenças crónicas têm de vir semanalmente à terapia, o que representa uma rotina saturante. Quando lhes pedimos determinados exercícios, simplesmente não os querem fazer. No entanto, o cão cria um alto estímulo e motivação. É um enorme facilitador», explica Kátia Ferreira, fisiatra do centro e coordenadora da unidade de reabilitação pediátrica.

Muitas vezes as crianças sofrem também de falta de atenção e dispersam muito. Porém, «na presença do cão, focam-se. A Sueca e as crianças relacionam-se, interagem. A atenção e concentração durante a atividade é ótima e permite-nos trabalhar as áreas que queremos. Para a nossa equipa a decisão de avançar foi fácil e transversal», garante Carla Mendonça, coordenadora do Centro de Neuropediatria e desenvolvimento do CHA.

Nas últimas semanas, Daiana Ferreira tem feito o acompanhamento destes três casos, ainda sem cão, para entender como se dinamizam as sessões com as terapeutas e o tipo de exercícios que se realizam. Por exemplo, soprar uma pipoca até chegar à cadela e esta a comer, dar um objeto igual a ambas para segurarem, ou pedir a ambos que executem um exercício de equilíbrio com uma bola, são apenas alguns dos muitos exercícios possíveis.

Daiana Ferreira explica que com a cadela Sueca a «probabilidade de adesão a este tipo de brincadeiras e jogos é muito maior. Eu serei a ponte entre o que as terapeutas necessitam e a Sueca, tentando potenciar ao máximo a prestação das crianças em todos os exercícios, que são trabalhados em equipa».

Conceição Silva, sublinha que muitas vezes «as crianças estão doentes, têm medos e não colaboram mas quando o cão está presente é um facilitador. Desbloqueia uma série de curiosidades e estímulos que conseguimos aproveitar para a nossa organização terapêutica. Por exemplo, Sara, uma das crianças em reabilitação no centro, estava numa cadeira de rodas e tinha receio de sair dela. No entanto, na presença do cão quis ir brincar e fazer festinhas. Assim conseguiu superar essa barreira. Além disto, a Sara tinha defesa tátil, tudo em que tocada lhe fazia impressão, mas com o cão fez uma estimulação tátil incrível e muito importante para ela. Quero realmente aproveitar esta experiência com outros miúdos! Temos uma outra criança com um atraso global de desenvolvimento que não possui equilíbrio, mas com recurso à Sueca acredito que daqui a seis meses consiga gatinhar, andar e desenvolver um comportamento motor muito próximo do normal»,
confidencia.

KOKUA concretiza um sonho

Para Daiana Ferreira, psicóloga e especialista em cães de assistência e Intervenções Assistidas por Animais (IAA), este projeto pioneiro representa «a concretização de um sonho». «Toda a minha vida soube que seguiria esta área. Antes acompanhava a evolução da minha irmã que sofre da síndroma de Rett, uma doença rara, mas agora volto com uma visão diferente. Sei exatamente a frustração que as famílias sentem e aquilo por que estão a passar, mas desta vez, poder fazer a diferença e poder contribuir de alguma forma para ajudá-las potenciando o trabalho com as suas crianças. Na verdade, entendo ambos os lados: o das famílias e dos profissionais de saúde. Poder fazer esta ponte entre ambos é muito importante para mim», diz.

Crianças com doenças neurológicas e do desenvolvimento são prioridade

O Centro de Neuropediatria e Desenvolvimento do Centro Hospitalar do Algarve é o maior centro de referência na região. Conta com uma equipa multidisciplinar de médicos, enfermeiros, terapeutas, psicólogos que tratam crianças entre os zero e os 18 anos, com epilepsias, paralisias cerebrais, doenças neuromusculares, perturbações do espetro do autismo, dificuldades de aprendizagem, atrasos no desenvolvimento e linguagem. Realiza 6000 consultas para aproximadamente 700 crianças.

Como tudo começou

Há cerca de dois anos o Centro de Neuropediatria e Desenvolvimento do Centro Hospitalar do Algarve (CHA) de Faro tomou conhecimento do trabalho que a KOKUA desenvolve. «Avançamos com oito sessões voluntárias para as terapeutas terem contacto com a Daiana e a cadela de terapia Sueca», explica a coordenadora do centro do CHA. O trabalho foi avaliado, os objetivos atingidos e os ganhos com esta nova ferramenta foram inequívocos: «sentimos que houve um benefício claro do ponto de vista da motivação dos miúdos para a intervenção, com recurso ao uso do cão enquanto instrumento na reabilitação. Os resultados foram depois apresentados no auditório junto da administração do Hospital e conseguimos financiamento para este projeto piloto».

Categorias
Destaque


Relacionado com: