Há escassez de polvo na costa algarvia

A situação é tal que pescadores e associações do sector reclamam que sejam tomadas medidas de proteção do recurso com urgência.

«O mar nunca esteve assim», garante Humberto Gomes, presidente da Associação de Armadores de Pesca da Fuzeta. Aliás, basta ver a concentração de embarcações ancoradas junto à sede. Cerca de metade da frota está parada. «Nem os mais antigos têm memória de uma escassez assim».

Para se perceber melhor, nesta lota, em setembro de 2016 foram vendidas 42 toneladas de polvo. Este ano, no mesmo mês, a contagem ficou pelas duas toneladas. As contas são da bióloga Sónia Olim, funcionária da associação. «Desde há três anos que andamos a tentar que seja imposto um defeso. O assunto tem estado sempre em cima da mesa. Há dois anos foi enviada uma proposta à Direção Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e até veio cá a diretora para ouvir o sector. Nessa altura, foi consensual que havia necessidade de implementar medidas», acrescentou. «Ainda estamos à espera. O que acontece é que o polvo não tem nenhuma medida de gestão, a não ser o tamanho mínimo dos 750 gramas. Mais nada».

Dada a escassez que graça no mar algarvio, nem estes juvenis estão a ser poupados. Com o preço médio a rondar os nove euros por quilo, as embarcações mais pequenas continuam a ir à faina, porque mesmo com quantidades pequenas, conseguem alguma rentabilidade. «Claro que isso agrava o problema, até porque o polvo pequeno está agora ovado. Ou seja, está-se a matar já a próxima geração. Mas é uma questão de sobrevivência dos pescadores», explicou.

Na opinião de Sónia Olim, as causas do problema estão identificadas. «Há um excesso de artes no mar. Cada embarcação tem um limite, mas não há maneira de se fiscalizar se o cumprem no mar», lamentou. «Percebemos que é muito complicado fazer um controlo. Mas têm de haver outras medidas. É preciso implementar uma gestão mais coerente deste recurso. Há quem vá ao mar 24 sobre 24 horas. Um horário de trabalho iria limitar quem tem excesso de artes no mar», sugeriu.

Em relação ao problema que tem em mãos, «este ano já não há muito que se possa fazer. É preciso criar medidas que efetivamente protejam a espécie, até porque o sector depende muito deste recurso», apontou.
A bióloga relembra que «em 2003 aconteceu uma situação semelhante. Aliás, têm-se verificado picos de captura inferiores ao longo da história da pesca do polvo. É um animal complicado de gerir, pois a postura que varia muito de ano para ano. A reprodução depende de fatores como a salinidade da água, a disponibilidade de alimento. O facto de não chover e não entrarem nutrientes no mar também pode influenciar» o problema.

Na Fuzeta, a procura de polvo é «sobretudo de empresas de transformação, para exportação». Por fim, Humberto diz que na vizinha Espanha há dois períodos de defeso por ano, decretados pela Junta de Andalucía, que tem autonomia em relação ao poder Central para implementar este tipo de medidas. «A gente aqui não tem ninguém para ajudar», lamentou o dirigente.

Ouvido pelo «barlavento», José Agostinho, presidente da Associação dos Armadores da Pesca do Polvo do Algarve, com sede em Quarteira, confirmou que no princípio deste verão, falou com o secretário de Estado das Pescas José Apolinário sobre eventuais medidas a implementar. «Era para fazer o defeso 45 dias», entre agosto e setembro, o que acabou por não acontecer.

Agora, «o Barlavento algarvio está numa situação que nunca aconteceu igual. Não há polvo de Quarteira até Sagres. Está tudo preocupado com esta situação», afirmou Na opinião deste dirigente associativo, os pescadores também tem a sua quota-parte de responsabilidade.

«Quando há uma matança muito grande, e uma captura intensa de juvenis, isso atrasa o desenvolvimento do polvo. Na minha opinião, o problema tem a ver com a captura, mas noutras espécies, o ciclo de reprodução também atrasou». Agostinho partilha a opinião de que «tem de haver mais organização na captura. Acho que a tutela devia arranjar uma forma, como acontece na pesca do cerco, uma paragem biológica para renovação do stock».

Já Miguel Cardoso, da Olhãopesca, considera que «acabámos de passar por um período anual, que ocorre entre agosto e outubro, que corresponde à desova do polvo. Os progenitores morrem e há uma maior abundância de polvo sem vida, e de polvo abaixo do limite legal dos 750 gramas, sem interesse comercial. Este período de escassez é normal, resulta da desova», disse ao «barlavento».

«Já há uns anos o sector propôs um defeso neste período. Isto foi proposto por nós, e como é óbvio, a administração central ouve toda a gente antes de tomar medidas. Consulta também o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) que é a entidade que investiga os recursos pesqueiros», esclareceu.

Neste caso, «o IPMA considera que a espécie polvo é muito resiliente, tem um período de vida curto, que se reproduz e se desenvolve muito rápido, e portanto, não vê vantagens em implementar um defeso». Uma posição que foi contesta. «Além deste parecer que não nos acompanha, de todo, também se verifica alguma ausência de vontade política para implementar medidas», sublinha. «Também somos da opinião que a pesca com armadilhas de gaiolas massificou-se, houve muitos licenciamento e muita reconversão. Está aí o resultado»…

José Apolinário «preocupado»

Questionado sobre este problema, o secretário de Estado das Pescas José Apolinário garantiu já ter dado «orientação à Direção Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) para reunir com as associações com urgência e para apresentar possíveis propostas». «Naturalmente estou preocupado com esta situação. O que está a acontecer é que há um exagerado aumento do esforço de pesca que o sector tem de ponderar, pois quanto maior for, mais difícil vai ser a sua recuperação», disse ao «barlavento». O governante fez questão de reforçar que «que há excesso de covos, são mais do que aquilo que está regulamentado e permitido. E é preciso respeitar os tamanhos mínimos do polvo. Isto não é apenas um problema de fiscalização. O pescador é o primeiro interessado em respeitar o tamanho mínimo. Tem de ser uma matéria de consciencialização para haver futuro».

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