Fonte da Malhada Quente terá termas e fábrica de água

Projeto em Monchique conjuga saúde termal, turismo e unidade de engarrafamento de água mineral. Deverá avançar ainda este ano.

Desde o início de 2016 que Carlos Martins Mendes, 47 anos, arquiteto e empreendedor de Coimbra, está a desenvolver um projeto ambicioso no coração de Monchique. O plano prevê a criação de um complexo turístico-termal de baixa densidade, investimento estimado em três milhões de euros, que deverá criar cerca de 20 postos de trabalho, na Fonte da Malhada Quente, freguesia de Alferce.

Em paralelo, segundo o empresário, será implementada uma unidade de enchimento de água mineral, com laboratório próprio e linha de produção com tecnologia de ponta. Para maximizar o potencial da nascente, será necessário um valor estimado em cerca de sete milhões de euros. Na vertente industrial serão criados mais 25 postos de trabalho.

«Penso que esta é uma iniciativa importante. Poderá ser uma mais-valia para a promoção turística e económica local, através de sinergias na divulgação e promoção do património cultural e natural de Monchique», explica Carlos Martins Mendes ao «barlavento».

No Algarve existem cinco estâncias termais identificadas pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), sendo três no concelho de Monchique. Do ponto de vista urbanístico, a propriedade da Fonte da Malhada Quente está classificada em «Espaços Industriais e de Serviços», como «Nascentes de Águas Minerais Naturais», o que viabiliza a intenção e todo o enquadramento no Plano Diretor Municipal (PDM) de Monchique e também na estratégia de desenvolvimento sustentável definido na Agenda 21 local. «Este é dos poucos municípios do país que tem este documento de planeamento», elogia.

O financiamento passará por «investidores e parcerias», sendo que há vários interessados e propostas em cima da mesa. «Neste momento, essa questão poderia já estar resolvida. No entanto, eu quero ser parte interveniente. Os parceiros terão de beber das minhas ideias e terá que haver um equilíbrio nos objetivos. Isso carece de muita reflexão e análise, porque não estamos a falar de um investimento qualquer. Não há aqui qualquer interesse em massificar, do ponto de vista económico, mas de encontrar uma solução integrada e enquadrada no meio paisagístico e natural», sublinha.

«A base é esta água, este tesouro que existe na propriedade. Não é para fazer um spa. É para fazer termas, que é diferente. Interessados há, quer no complexo termal, quer na parte do engarrafamento. São entidades diferentes. Mas, uma vez mais, não existem parceiros interessados do Algarve. São maioritariamente contactos de fora (do país). Ou seja, a importância que o estrangeiro dá a um recurso como este é superior à sensibilidade dos empresários» locais.

Carlos Martins Mendes está a avançar com os procedimentos legais necessários para a qualificação da água mineral natural existente (ver caixa). Também já criou e registou novas marcas «distintivas», com nome e identidade gráfica para a futura água engarrafada. Além do produto em si, que será para um nicho gourmet, servirá para divulgar Monchique e o Algarve no mercado interno e internacional.

Dos contactos até agora estabelecidos com a tutela – Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) e Direção Geral da Saúde (DGS) – o empreendedor diz haver «abertura total» e que «a administração central reconhece o potencial» desta iniciativa.

Para já, o projeto avança «em nome individual, mas no futuro, há-de ser constituída uma empresa, ou um conjunto de empresas», ou uma sociedade anónima, para ambas as vertentes.
«Cada vez que um eventual parceiro vem ter comigo, eu disponibilizo a informação necessária para que possa fazer os seus estudos de viabilidade económica e também analisar as condições do negócio. Quando todo este processo estiver concluído, teremos que definir o modelo institucional. Então, os procedimentos em curso poderão facilmente ser transferidas para essa futura organização. Só depois de formalizada é que poderemos instruir e apresentar o projeto junto da Câmara Municipal de Monchique», o que segundo Carlos Martins Mendes, poderá acontecer ainda este ano.

«De acordo com os pressupostos dos indicadores favoráveis que tenho, vou continuar analisar as propostas que já recebi, e sobretudo as que ainda possam surgir. Estou a aprofundar os estudos económicos para a intervenção no complexo termal, independente da unidade de enchimento, que poderá ser um investimento conjunto ou faseado», detalha. O arquiteto está ainda a perspetivar diferentes tipos e condições de financiamento e não descarta uma candidatura a incentivos de apoio na qualidade de Projeto de Interesse Regional (PIR).

Tudo começou há dois anos com a aquisição da Fonte da Malhada Quente através de uma venda judicial, em hasta pública. Mas a ligação ao concelho serrano do Algarve é, contudo, anterior. «Eu pretendia recuperar a aldeia do Selão Branco. A ideia era, a pouco e pouco, fazer uma unidade de alojamento local. Não mora lá ninguém, e adquiri a única casa ainda habitável. Mas tudo divergiu e o projeto não avançou. Já não sou proprietário, mas mantenho interesse nessa localidade através duma empresa que é titular de parte de um terreno e ruína», explica.

«A montanha sagrada de Monchique é algo que me apaixona. Tive a sorte de poder adquirir uma propriedade com esta beleza natural e com estas características únicas. Agora, temos de saber preservar este recurso», conclui.

Água alcalina indicada para reumatismos, doenças de pele e do aparelho digestivo

Um facto curioso é que as análises feitas às águas da Fonte Santa da Malhada Quente, em 1950, pelo laboratório do Instituto Superior Técnico de Lisboa são praticamente idênticas, nos principais valores de referências, aos resultados de 2016, validadas pela mesma entidade. E o que tem de especial? É uma água hipossalina, bicarbonatada sódica, alcalino-sódica, mesotermal, semelhante à das Caldas de Monchique e conhecida, pelo menos, desde o século XIX. Tem fama de ser indicada para reumatismos, doenças de pele e problemas do aparelho digestivo.

Para lá chegar, basta seguir pela estrada para Alferce, a cerca de quatro quilómetros de Monchique. Depois, há uma estrada municipal à esquerda, assinalada com a placa Fonte Santa. A partir desse ponto segue-se por um carreiro (200 metros) que desce até ao pequeno vale onde se encontra a nascente. A fonte termal da Malhada Quente situa-se no maciço eruptivo sub-vulcânico sienítico de Monchique, na mancha sienítica de Fóia. Emerge através de diaclases, nas proximidades do Ribeiro de Fóia. A nascente emerge à temperatura de 23,2ºC, e à cota de 270 metros, com um caudal de 1286 litros/hora, segundo arquivos da Direção Geral de Energia e Geologia que datam de 1954.

Proprietário quer preservar a memória e manter o uso popular da fonte

O projeto de recuperação das Termas da Malhada Quente que o proprietário Carlos Mendes Martins idealiza, valoriza a memória e a identidade do local. «Pretendo criar um legado que persistirá por muitas gerações. De modo a que não se percam as memórias de Manuel da Silva Martins, de Rosa Silva e Maria Amélia nos diferentes tempos em que fizeram a exploração termal deste local; de António José Guerreiro que nasceu em 1951 nesta propriedade continuado regularmente a visitá-la; de Domingos e o filho Mário que vivem aqui; entre muitos outros. É também, por eles, este projeto, para que todos possam fruir este espaço com melhores condições num futuro próximo». Apesar da unidade turística que deverá nascer nas ruínas da propriedade, e da unidade de engarrafamento, o arquiteto quer melhorar os balneários rudimentares que existem hoje junto à fonte e manter o acesso livre ao local. «Quando reabilitado poderá ser denominado de Balneário Termal Maria Amélia. Serão, também, preservados os sobreiros centenários e o troço do antigo caminho romano» entre a fonte e as ruínas do antigo albergue. Segundo o arquiteto «este edifício, antigamente, dava abrigo às pessoas que vinham de longe para desfrutar das águas termais «milagrosas». O edificado será objeto de reconstrução, e naquele espaço funcionará a receção, e um espaço museu. Assim, será valorizado e reabilitado o património existente com uma estruturação otimizada do seu carácter funcional enquanto espaço turístico e de fruição pública», conclui.

Licenciamento é processo moroso e longo

Contactado pelo «barlavento», Augusto Costa, consultor independente e gerente da «Geodiscover», empresa sediada em Alcochete, especializada em hidrogeologia e geotermia, não tem dúvidas que «a promoção de um desenvolvimento sustentável e ambientalmente equilibrado da região da serra de Monchique», passa por projetos ligados ao termalismo. «Neste sentido, os recursos hidrominerais podem e devem ter um papel importante, especialmente em zonas remotas, frequentemente esquecidas. De facto, a ocorrência em análise, sobre a qual eu já tinha feito pesquisas em 1992, tem potencial para vir a ser qualificada como água mineral natural, embora tal exija estudos, pesquisas e trabalhos de monta, que estão neste momento numa fase inicial», explicou.

De acordo com a legislação portuguesa, que segue a regulamentação comunitária, são considerados recursos hidrominerais, as águas que têm interesse económico devido às suas características e particularidades físico-químicas, das quais resultam propriedades terapêuticas ou simplesmente efeitos benéficos à saúde.
O enquadramento jurídico que regulamenta a revelação e aproveitamento dos recursos geológicos e hidrominerais, é a lei nº 54/2015 de 22 de junho, sendo a regulação legislada pelo Decreto-Lei 86/90, de 16 de março (que aguarda substituição).

Carlos Martins Mendes terá que apresentar 12 análises químicas e bacteriológicas com periodicidade mensal para que o aquífero da Malhada Quente possa vir a ser seja considerado de água mineral natural. São ainda necessários vários documentos como plantas topográficas, um estudo radioativo; projetos das captações definitivas e pareceres de várias entidades como a Direção-Geral da Saúde, REN e RAN, entre outros. «É todo um trabalho que não se vê e um investimento significativo», considerou o proprietário. «Mas sou persistente e estou preparado enfrentar as dificuldades, uma de cada vez».

Rui André satisfeito

Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique conhece o local «que tem muito interesse em termos históricos pela utilização das águas para fins terapêuticos. Em Portugal este tipo de processos são bastante burocráticos. A intenção de investimento turístico em si, com a utilização das águas associado a uma unidade turística de bem-estar simplesmente, acho que poderá ser mais fácil de resolver. Já a certificação da água para engarrafamento é um processo bem mais complexo. Mas estamos dispostos a ouvir o empreendedor, a colaborar e a ser parte ativa, porque acreditamos que este tipo de projetos, acima de tudo, criam valor no território, geram emprego e riqueza. A concretizar-se, a ideia é excelente». Segundo o autarca, «estamos na fase final do processo de adesão à Rede Europeia de Cidades Termais, a ultimar um pormenor final, que é a classificação do edificado e do património material associado às termas». Além disso, «defendo que o Estado, através do Ministério da Saúde, financie ou possibilite que os tratamentos termais sejam prescritos pelos médicos».

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