Filosofia para crianças conquista escolas algarvias

É uma disciplina que educa para aprender a ouvir, pensar, questionar e argumentar. O «barlavento» acompanhou duas aulas de Filosofia para crianças, lecionadas pela professora Laurinda Silva, uma no ensino público e outra no privado. Apesar das diferenças entre instituições, o resultado é, em ambas, surpreendente: alunos mais participativos, comunicativos e críticos.

A qualidade da formação que os alunos mais pequenos recebem nos estabelecimentos escolares é uma das maiores preocupações para os pais e encarregados de educação. Em Portugal, ainda são poucas as escolas que oferecem Filosofia para crianças nos seus currículos. No entanto, essa realidade já está presente no Algarve.

Visitámos duas escolas que, à primeira vista, aparentam ter muito pouco em comum. O Colégio Internacional de Vilamoura (CIV) situa-se numa zona considerada de luxo. A escola da Abelheira fica entre dois bairros sociais, em Quarteira.

No caso pioneiro do CIV, a disciplina de Filosofia para crianças há muito que faz parte do currículo de estudos (há 19 anos). Na Abelheira, é uma novidade. Está disponível enquanto Atividade Extra Curricular (AEC) há três anos letivos. Há ainda que ter em conta o facto desta escola de Quarteira ser considerada TEIP (Território de Intervenção Prioritária) por estar inserida num ambiente socioeconómico desfavorecido. Dois cenários muito diferentes, portanto, mas com resultados idênticos.

«Estimulamos a capacidade de fazer perguntas. Não castramos a curiosidade das crianças, nem a sua capacidade de expansão. É um treino de competências e de busca de significados», explica a professora Laurinda Silva, 35 anos, natural de Oliveira de Azeméis.

Silva formou-se nesta vertente pedagógica no Instituto de Prática Filosófica em Paris e em Montclair, nos Estados Unidos da América, país pioneiro. Desde 2007 que dinamiza Filosofia prática para crianças e é atualmente responsável por 180 alunos, em ambas as referidas escolas, no concelho de Loulé.

As suas aulas são um «laboratório de ideias». «Queremos espicaçar o raciocínio, o questionar, argumentar e o saber escutar. Em Portugal, ainda temos uma escola que treina para a resposta, e não para a pergunta. Isso é um perigo, pois fomenta a apatia pelos assuntos ao não serem refletidos, ou então permanecerem sem significado para as crianças», explica.

«Coisas aparentemente simples como aprender a esperar pela sua vez de falar, exprimir uma ideia perante a turma, escutar a ideia do outro, corrigir-se a si próprio depois de ouvir argumentos diferentes, transformam as crianças. A longo prazo, admitem a diferença, dão espaço a outros argumentos. São capazes de discussões ordeiras e entendem crítica, dúvida, erro como algo positivo e que permite melhorá-las. Passam a ter a possibilidade, mais consciente, de usar a palavra como meio para resolver conflitos e ganham a noção de intervenção – cidadania e democracia em exercício – pela investigação em comunidade. Nota-se uma grande diferença na produção de perguntas entre quem está, ou não, treinado para fazer perguntas», evidencia esta professora.

A turma da Abelheira, em Quarteira, conta com uma dezena de alunos do quarto ano. A média de idades ronda os nove anos. A disposição das mesas em formato de «U» convida ao diálogo e partilha de ideias, um sistema que é frequentemente usado em contexto de formação de adultos, mas não no ensino básico tradicional.

A aula inicia-se a partir do poema «O aviador interior», de Manuel António Pina. Fala-se do ar, corpo, e da cabeça. Tudo o que a professora faz é lançar perguntas que incendeiam o pensamento da turma. Surgem novas e surpreendentes interpretações, hipóteses e explicações. Não há matéria debitada, nem um treino para «a resposta certa». Há liberdade para expor diferentes pontos de vista, estruturar ideias e aprender a construir uma argumentação.

«Agora vamos pensar diretamente para a caneta», pede a professora. «Quero que cada um de vocês escreva uma pergunta relacionada com o poema». Surgem questões como: «temos um campo de aviação dentro da cabeça ou não?» ou «o texto é sobre o ar?». Os alunos são estimulados a fazer perguntas e todos as querem partilhar.

Cerca de 50 minutos depois e sem se aperceber, a turma discute temas como a mente, o corpo e o cérebro: «a nossa mente somos nós?», «somos apenas o nosso corpo?», «de onde vêm as ideias?», «cérebro e cabeça são a mesma coisa?». A campainha toca, as interrogações coletivas continuam a fluir. Questionados sobre o que mais gostam nesta aula, um aluno responde: «de tudo porque posso dizer o que acho».

Laurinda Silva explica que as temáticas exploradas com mais frequência e que mais interesse despertam estão diretamente relacionadas com a origem do universo, a morte e «o que acontece depois», Deus, e a questão do infinito. Discute-se «corpo-alma», «bom-mau», «certo-errado», «amor», «felicidade», paradoxos e dilemas.

Mas os temas em análise podem ser ajustados à atualidade. Foi o caso do atentado no jornal «Charlie Ebdo». «Entendi por bem explorá-lo com todos os grupos que tinha na altura. De facto, desde o 3º ao 9º ano, ninguém falava noutra coisa. O professor pode esclarecer questões de facto – o que aconteceu, o relato, as informações de base – mas, sobretudo, importa definir com os alunos termos como «terrorista» e «islâmico», para que não se tornem pré-conceitos. É preciso encontrar pontos de vista, esclarecer o que é liberdade de imprensa, entre outras coisas» que normalmente estão fora dos programas.

Troquemos então a escola pública pelo ensino privado. No Colégio Internacional de Vilamoura encontramos fardas azuis e brancas, meninos de calções e meninas de saia. Aqui a disciplina de Filosofia para crianças faz parte dos currículos desde o jardim-de-infância ao 9.º ano.

Na multicultural turma do 6º ano, com 29 alunos, cuja média etária ronda os 11 anos de idade, a aula inicia-se com a visualização da curta-metragem de animação «Alma» do espanhol Rodrigo Blass. O filme não tem diálogos. No final, a professora pergunta: «quem é capaz de o explicar?».

Primeiro, relatos. Depois, a interpretação. Todos querem participar. Laurinda Silva anota o brainstorming no quadro. Os alunos falam ordeiramente. Explicam entusiasticamente os seus pontos de vista.

No meio da discussão, alguns mudam de ideias, fruto da partilha intensa de novas opiniões e interpretações. Os dedos estão constantemente no ar. É difícil manter a ordem, quando todos estão tão interessados em participar.

A professora lança perguntas e media a discussão de forma neutra. Gustavo queixa-se: «há meia hora que tenho o dedo no ar professora!». Já passaram 45 minutos e o debate continua: «estamos presos no nosso corpo?»; «a alma precisa de um corpo?». Não há certos nem errados. Há pontos de vista e argumentos que os suportam.

Questionados sobre «porque é que esta disciplina é diferente das outras», respondem: «porque nas outras o professor é que fala e aqui nós é que explicamos, como se fossemos professores e a professora uma aluna». E querem continuar a estudar Filosofia no futuro? A resposta é um alto e unanime «sim!».

Cidália Bicho, 39 anos, diretora do CIV, faz um balanço da importância, impacto e sucesso sobre o ensino pioneiro desta disciplina em Portugal: «em 19 anos vimos as crianças tornarem-se mais autónomas no pensamento, mais respeitosas perante pensamentos diferentes do seu. É visível a percepção ética aguçada, a capacidade de autoavaliação e a capacidade de argumentação. Procuramos que a inquietação que conduz ao questionamento seja uma prática transversal ao currículo e acreditamos que um dos grandes desafios da educação do século XXI é formar crianças e jovens com competências cognitivas e socioafetivas necessárias para transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em ações».

A origem da Filosofia para Crianças

O professor norte-americano Matthew Lipman foi o filósofo e educador responsável pelo programa de filosofia para crianças no final da década de 1960, embora ainda seja um conceito que só agora esteja a chegar às escolas portuguesas. Lipmann foi pioneiro ao pensar a contribuição da filosofia para a formação das crianças, enfatizando a necessidade de aprender a pensar e a questionar ao invés de apenas memorizar conteúdos. Lipman lançou o que alguns consideram já um autêntico movimento educacional, com a publicação de uma novela filosófica para crianças, Harry Stottlemeier’s Discovery, adoptado num grupo de escolas públicas de Jersey nos EUA, desde o início dos anos 1970. A principal tarefa do professor é criar condições para que a crianças aprendam conceitos de forma reflexiva e não mecânica. Criar uma prática de pensar que questiona conceitos e problemáticas comuns que possam ser investigadas e discutidas pelas crianças em vez de respondidas enquanto verdades absolutas ditadas pelos adultos.

Segundo Vera Varjota Rodrigues, investigadora algarvia e especialista de Filosofia Medieval na Universidade do Porto, «a Filosofia com Crianças foi recomendada pela UNESCO a partir do pré-escolar (5 anos de idade), com base nos benefícios, comprovados, no que diz respeito ao desenvolvimento de aspectos quer intelectuais e cognitivos, quer humanos e cívicos (desenvolvimento do pensamento crítico, capacidade de análise, argumentação, sentido de alteridade e respeito do outro, entre outros)».

«Dentro da Filosofia com crianças (FcC), hoje, há já inúmeras correntes. Uma delas distinguindo-se justamente pela própria denominação: Filosofia com Crianças versus Filosofia para Crianças. A primeira pretende distinguir-se explicitamente da filosofia tal como é tradicional e institucionalmente cultivada, quer em termos de conteúdos, quer em termos de métodos», compara Vera Varjota, pós-graduada em Filosofia com crianças (FcC) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

«No que diz respeito aos conteúdos, estes não existem, propriamente falando: não há transmissão, há reflexão e discussão de ideias, conceitos, problemas; assim também no que respeita ao método: rigorosamente dialéctico, na Filosofia com Crianças, podendo partir dos mais variados objectos, acontecimentos, termos (notícia da actualidade, poemas, imagens, experiência pessoal, entre muitas outras possibilidades). Assim, também, o professor não é um ‘professor’, é um ‘moderador’ ou um ‘facilitador’. Trata-se, no fundo, de uma concepção eminentemente socrática da experiência filosófica», acrescenta Vera Varjota.

«Pela minha parte, julgo importante sublinhar o imenso potencial da Filosofia com crianças – a partir do ensino básico – no combate às desigualdades de origem com que uma parte importante das crianças chega já à escola. É muito mais importante, a meu ver, e terá um papel muito mais decisivo nas crianças da Abelheira do que nas do Colégio Internacional de Vilamoura. Isto, a começar pela mais básica de todas as formas e ferramentas do pensamento – a linguagem, suas significações e utilizações (pragmática), encadeamentos e ordenação (argumentação e coerência) – e a terminar noutro alicerce entre os mais fundamentais da existência e da relação com o mundo e com os outros: a auto-estima», conclui.

Categorias
Destaque


Relacionado com: