Festas da Culatra serão Património Cultural Imaterial

Uma surpresa entre os resultados do Orçamento Participativo Portugal (OPP), divulgados na quinta-feira, 14 de setembro, é a aprovação do projeto «Festa da Nossa Senhora dos Navegantes: quando imagens e gentes fazem uma romaria sobre as águas», proposto por Carla Almeida, que arrecadou 150 votos e um apoio de 50 mil euros. «Se tivesse ganho uma bolsa da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia não estaria tão contente», confidenciou ao «barlavento» a autora da proposta, docente e investigadora da Universidade do Algarve (UAlg). E explica porquê: «quando cheguei à região, há 30 anos, na primeira vez que lecionei, dei aulas na telescola, na Culatra. Nessa altura, não havia água, nem luz, nem coisa alguma. Era uma vida bem dura. Lembro-me da primeira greve dos culatrenses às eleições, nos anos 1980. Desde então, sempre fiquei com vontade de, um dia, fazer alguma coisa por esta comunidade que me ficou cá dentro», contou ao «barlavento».

A candidatura ao OPP surgiu por sugestão da Direção Regional de Cultura do Algarve «que está muito interessada em que haja novos registos de Património Cultural Imaterial (PCI) da região». Aliás, inscrever as festas religiosas dos pescadores da Culatra na Direção-Geral do Património Cultural, segundo as normas da UNESCO, é um dos principais objetivos a realizar.

Para isso, Carla Almeida quer envolver a população local em iniciativas participadas de recolha oral das memórias do núcleo. Outro elemento-chave será a organização de uma grande exposição de fotografia e vídeo, a apresentar em Faro e Olhão. Está também pensada uma divulgação bilingue das festividades, enquanto evento de interesse local e turístico. «É um momento de grande capacidade plástica, etnográfica e paisagística, já que se trata de uma romaria feita em barcos através da Ria Formosa», explicou. A nível académico, a professora pretende consultar os arquivos episcopais e fazer toda uma investigação acerca da origem desta manifestação de fé. «Eu pensei que só existia desde os tempos da construção da capela, nos anos 1950, mas é anterior. A pessoas juntavam-se na areia para fazer a festa».

A problemática das demolições não terá sido alheia à origem do projeto, ainda antes de o núcleo ter conquistado algumas vitórias recentes, como a visita da ministra do Mar, e a aprovação do Plano de Intervenção e Requalificação (PIR). «Quando uma comunidade é considerada património, ninguém lhe pode tocar. Os planos de gestão do território têm sensibilidade zero para a cultura. O meu objetivo era dar a esta comunidade um instrumento de salvaguarda», sublinhou.

Por outro lado, «o Algarve tem muito pouco no registo nacional de PCI, sobretudo no que toca às tradições das comunidades piscatórias, que não podemos deixar que morram. Só há a Dieta Mediterrânica, de Tavira, e agora a Festa da Mãe Soberana, de Loulé. Temos tanto mar, e tanto nada», lamentou.

Apesar de ter o prazo de execução de um ano, o projeto pretende plantar uma marca de futuro. «Falta um acervo organizado no núcleo da Culatra. Gostaria de deixar a ideia de arranjar um espaço permanente» para exposições, e para albergar um pequeno museu «das artes de pesca».

Ouvida pelo «barlavento», Sílvia Padinha, presidente da Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC), acarinha o projeto e reitera a confiança na autora. «Ao longo dos últimos anos temos vindo a trabalhar sobre as condições básicas de sobrevivência, essenciais à população. A área cultural tem ficado sucessivamente para segundo plano. Acredito que este projeto trará muitas outras ideias por arrasto, e podemos contar com o carinho e a experiência da professora Carla Almeida», disse.

Padinha garante que «vamos fazer todo o esforço, com a mesma força, determinação e união que dedicámos à causa da água, da eletricidade, do PIR. Isto vem cimentar tudo o que temos vindo a dizer, que a Culatra tem a sua identidade cultural própria enquanto comunidade piscatória que precisa de ser defendida e preservada».

Curso de valorização do PIC algarvio em Outubro

Segundo Carla Almeida, professora assistente na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo (ESGHT) e na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Ualg, «há quem considere as candidaturas de Património Cultural Imaterial (PCI) processos muito burocráticos e institucionais». Para contrariar este preconceito, a Direção Regional de Cultura do Algarve vai organizar, em outubro, um curso aberto a todos os interessados em apresentar propostas à tutela. «Vai ser divulgado nas autarquias e associações locais. Vamos falar sobre a etnografia do Algarve e convidar pessoas que estão a realizar estudos ou projetos com sucesso. A segunda parte será mais prática, e abordaremos a legislação e a forma de se preparar uma candidatura PCI», revelou.

Alexandra Gonçalves congratula-se com projetos para o Algarve

A criação da Hemeroteca Digital do Algarve é o grande vencedor do Orçamento Participativo Portugal (OPP). Recolheu 703 votos e resulta de uma proposta do falecido presidente da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, Luís Guerreiro. Pretende «digitalizar todos os jornais e revistas que o Algarve produziu de 1833 até aos nossos dias, em formato digital e de fácil consulta pública». A tarefa contará com um orçamento de 200 mil euros e tem um prazo de execução de 24 meses. A região viu ainda aprovados os projetos «Guia do Parque» (117 votos), «Ecoscience» (137 votos) e «A Minha Praia» (220 votos).

Ouvida pelo «barlavento», Alexandra Gonçalves, diretora regional de Cultura do Algarve, congratula-se com estes resultados. «A natureza cultural, patrimonial, mas também de índole científica associada a estes projetos demonstram-nos que a sociedade civil quer participar e contribuir, pelo que a nossa palavra principal é de agradecimento e de apoio. Os próximos dois anos serão assim de viabilização e de concretização destas ideias no Algarve, às quais se somam outras de âmbito nacional que também terão reflexo regional».

«No caso dos dois projetos diretamente relacionados com a Cultura na região tivemos de facto o privilégio de conhecer antes da sua candidatura ao Orçamento Participativo a ideia e contribuir nas sessões organizadas para a sua melhor estruturação para apresentação. Outros também foram por nós acompanhados e acarinhados. Gostava de dar os parabéns aos cinco projetos vencedores para a região, pois resultaram da escolha da sociedade civil e de propostas individuais que tiveram o mérito de conseguir mobilizar por si só as populações e comunidades onde esperam vir a ser desenvolvidos», sublinhou.

Alexandra Gonçalves destacou ainda que «enquadram-se em eixos estratégicos que consideramos fundamentais ao desenvolvimento cultural sustentado das comunidades. O projeto da Culatra assume uma importância fundamental na afirmação do Património Cultural Imaterial e da identidade da região, que contribui para a valorização de tradições enraizadas e vivas que desejamos preservar e salvaguardar. Por sua vez, o projeto da Hemeroteca Digital é uma ambição com alguns anos que vê desta forma a sua possibilidade de concretização, pois requer equipamento e software específico que tornarão acessível à distância de documentação (jornais e revistas) relevante para o estudo do Algarve desde o século XIX até aos nossos dias».

O «Guia do Parque», proposto por Sofia Vieira, consiste em dar formação a adultos desempregados, para que possam exercer a atividade de guia locais, em Vila do Bispo e Aljezur (Costa Vicentina)». Terá um apoio de 60 mil euros e a duração de seis meses, iniciando-se em maio de 2018.

«A minha Praia», projeto avançado por Carla Lourenço, terá como objetivo combater o «flagelo» do lixo marinho nas praias, envolvendo escolas e o reaproveitamento de plásticos. Contará com 39 mil euros, terá uma duração de 12 meses. Por fim, o projeto «Ecoscience», de Dulcineia Fernandes, pretende democratizar a literacia das ciências, aproveitando o conhecimento de «biólogos, químicos, físicos, engenheiros e todos aqueles ligados à ciência, ambiente e sustentabilidade». Arrancará com 36 mil euros. Se resultar, poderá dar origem a «um núcleo móvel que leve às populações o conhecimento através de atividades técnico – práticas, pequenos congressos e até passeios».

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