Faro segundo Afonso Cruz no festival «encontros do DeVIR»

Afonso Cruz, um dos nomes de referência da nova geração de autores portugueses, vai escrever um texto inédito sobre Faro, a apresentar durante a terceira edição do festival «encontros do DeVIR».

Poderá ser um ensaio, uma metáfora ou uma alegoria. Quem é o diz é Afonso Cruz, desafiado a abordar a descaraterização urbana. Um desafio lançado a propósito da terceira edição do festival «encontros do DeVIR», cujo tema de fundo é «cidades utópicas, cidades possíveis». Conhecido pela escrita permeável à reflexão filosófica, Afonso Cruz acha «muito interessante debater a ideia de identidade, pois muitas vezes, olhamos apenas para as desvantagens destes processos, a menos que estejamos a ganhar alguma coisa com isso, diretamente. Há sempre coisas que se vão perder, como em qualquer transformação. Mas sou otimista», explica ao «barlavento».

«O turismo traz, de certa forma, costumes diferentes. Às vezes são maus, são destruidores de culturas, tornam os locais cinzentos e anónimos, mas também trazem alguma evolução e perspetivas de negócio. Nunca nada é apenas errado e destruidor», considera. E exemplifica: «hoje lemos todos os dias discursos pessimistas nas redes sociais. É o fim do capitalismo. É o fim do planeta. É o fim do romance. Já foi decretada a morte de praticamente tudo», ironiza.

«O livro morreu no século XIX. Já não se faz boa música. Esta geração não presta, ouvimos dizer, tal como se dizia sobre a geração anterior e por aí fora, até desde sempre». E na verdade não é nada de novo. «Mário Sá Carneiro escreveu, aos 17 anos, um conto em que diz que já foi tudo descoberto. Ele não era um velho derrotista cansado ou desiludido com a vida. Era um miúdo que dizia que nada mais há para descobrir, sem ser a morte. E então, escreveu um conto amargo com esta premissa.

Curiosamente, li numa notícia que descobriram uma nova espécie de baleia. Não é um inseto na Amazónia, estamos a falar de uma baleia», brinca acerca da generalização negativa do mundo. «Parece-me que há sempre muita coisa por descobrir, muita coisa para inventar e para fazer. Há efetivamente um olhar muito negativo sobre tudo. É apenas a nossa perceção, que tem limites. E quando não conseguimos ver além dos nossos limites, porque isso é uma impossibilidade, temos que tentar chegar-nos para o lado. Ou um pouco mais para a frente. E fazer crescer esses limites, tentar ver mais além». Porque «é um pouco arrogante dizer que aquilo que eu não vejo, não existe. Aquilo que eu não consigo perceber, não existe», contrapõe.

Esta linha de pensamento, muito fértil aos paradoxos e contradições, deixa antever a metodologia com que o autor do best-seller «Jesus Cristo Bebia Cerveja» vai abordar a encomenda do festival «encontros do DeVIR». Durante a visita a Faro, em meados de janeiro, «tentei perceber o contexto histórico da cidade, de onde vem e, eventualmente, para onde vai». Foi ao Museu Municipal e também ao bairro degradado da Horta da Areia. «A visita turística tem esse lado superficial, só vê as partes mais agradáveis. O interessante num trabalho» como o que se propõe a fazer «é que haja alguma tensão. Ninguém conta uma história sem existir um incómodo, um desassossego. Se eu quiser narrar qualquer coisa, arranjo um protagonista, mas o que faz a história é a causa que o motiva a desejar algo», explica.

«As pessoas que habitam em determinado sítio, conhecem os problemas todos a fundo, porque os vivem no quotidiano. Mas depois não têm a capacidade de se maravilhar, como quem vem de fora. Ficam anestesiadas para as coisas boas, para a beleza», compara.

«Acontece isso também na nossa vida, como indivíduos. Criamos um arco. Além das músicas e dos filmes que nos marcaram na juventude, parece que não há mais nada. Decretamos a morte à nossa aprendizagem».

Afonso Cruz tem uma relação com o Algarve que começa na infância. Os pais tinham uma «casa pequenina de férias perto de Aljezur» e antes disso veraneava em Lagos. Olhão, Loulé e Silves fazem parte do itinerário recente do escritor, em visitas a escolas, feiras do livro e apresentações de livros.

O convite para esta abordagem literária a Faro foi lançado no seguimento da primeira edição do festival «Encontros do Devir» que abordou a problemática da desumanização da serra do Caldeirão, em 2012. «É um contexto muito parecido com o do espaço geográfico em que vivo», em Sousel, no Alto Alentejo. «Está a ficar deserto. As pessoas mais velhas há muito que saíram. As pessoas novas que voltam têm uma aprendizagem de vida diferente, académica. Aquele saber empírico que foi criado ao longo de gerações, quebrou-se. Esse hiato acabou, de certa maneira, por matar toda uma cultura». Pois «o que se aprende nas escolas sobre agricultura é homogéneo e universal. Não se ensina a apanhar tubras ou a reconhecer os cardinhos e as ervas selvagens. Nem as especificidades da região». O texto inédito de Afonso Cruz sobre a cidade de Faro será apresentado no dia 21 de abril, no Teatro das Figuras, em simultâneo com uma projeção de desenho digital em tempo real, criada para o efeito.

Festival «encontros do DeVIR» traz 39 criadores à região

Apoiada pelo «365 Algarve», a terceira edição do festival «encontros do DeVIR», a decorrer até maio em Faro, Loulé, Quarteira e São Brás de Alportel, tem como tema «cidades utópicas, cidades possíveis». Com direção artística de José Laginha, o evento apresenta 39 criações, ou seja, 39 olhares de criadores nacionais e internacionais nas áreas da dança, música, teatro, escrita, vídeo e fotografia. O programa inclui conversatórios sobre «falsas inevitabilidades», visitas guiadas, exposições de fotografia e vídeo, um ciclo de cinema documental sobre «territórios» e um workshop de fotografia em espaço urbano. «Este festival quer continuar a pensar o território, aliando o social ao cultural, o ecológico e político ao artístico. Pretende ser um desafio reflexivo sobre a nossa identidade territorial, um exercício de imaginação e análise crítica sobre o que somos, feita pelos de fora. Como nos damos a ver? Como nos vendemos? Que condiciona o desenvolvimento de uma região que vive quase exclusivamente de, e para o turismo? Queremos promover a criação de um pensamento alternativo que nos ajude a delinear o futuro», explica a organização a cargo da DeVIR/CAPa, Centro de Artes Performativas do Algarve. Um objetivo que envolve criadores nacionais e internacionais, em diálogo com as comunidades das quatro localidades algarvias, «convocando todos a refletir, a especular sobre o presente, tentando contribuir para a criação de olhares desafiadores sobre o que somos e o que ainda temos».

Das coisas que os leitores dizem…

A carreira literária de Afonso Cruz, 45 anos, teve «um começo tímido», em 2008. «Tem sido uma coisa paulatina», explica ao «barlavento», conquistando leitores a cada novo livro publicado. Foi, contudo, o oitavo romance, «Jesus Cristo Bebia Cerveja» (2012), que o catapultou para um lugar de destaque entre a nova geração de autores portugueses. Este ano, prepara-se para publicar um livro de não-ficção, «trabalhoso, com mini-ensaios apoiados na teoria da viagem». Uma recensão crítica feita por uma criança de 8 anos surpreendeu-o. O pequeno leitor disse-lhe que «Os livros que devoraram o meu pai» (2010) tem «um erro». Nessa altura, já este livro «tinha tido sete edições, sido publicado na Croácia, na Colômbia e no Brasil. Passou por vários tradutores e editores. Pode acontecer um erro, por exemplo, se for um nome trocado. Gralhas todos os livros têm e continuam a ter. O curioso é que nunca ninguém reparou», num pormenor muito simples. «O livro conta a história de uma criança cujo pai morre quando ainda estava na barriga da mãe. Quando nasceu, o pai já tinha morrido. No final deste livro, essa personagem diz que reencontrou o pai, não por ter lido os livros dele, mas por se ter tornado pai ele próprio. Ora, o meu pequeno leitor disse-me que a personagem não poderia ter reencontrado o pai, pois nunca o tinha encontrado antes. Sei que não é um erro que destrói um livro, mas é muito engraçado que um leitor tão jovem tenha reparado. É uma perspicácia impressionante».

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