Família sul-africana investe 3,5 milhões em cervejaria artesanal e adega em Lagoa

Ann, Greg e Eugene dos Santos.

Uma família sul-africana descendente de portugueses vai investir 3,5 milhões de euros numa nova adega, cervejaria artesanal e hotel rural, nas Sesmarias, em Lagoa. As obras já estão avançadas com a primeira fase do projeto concluída até ao verão.

Vai chamar-se «Quinta dos Arcos» e é um projeto familiar que juntará turismo, produção de cerveja artesanal e vinho numa propriedade de 8,1 hectares no coração do concelho de Lagoa. Está tudo a ser criado de raiz. A arquitetura não é contemporânea, mas de traça inspirada nos conventos algarvios, com claustros e grandes arcos luminosos.

«Queremos que o nosso projeto se identifique com o Algarve tradicional. Vamos fazer as paredes grossas à maneira antiga, tal como o reboco e a calçada portuguesa», explica o casal Eugene e Ann dos Santos, que em abril troca definitivamente a Cidade do Cabo pelo Algarve para se dedicar ao projeto.

O edifício principal, de 600 metros quadrados, vai albergar a cervejaria artesanal, uma pequena galeria onde os artistas e artesãos locais serão convidados a expor, uma loja e um bar de tapas com cozinha. Contando com a esplanada panorâmica no exterior, terá capacidade para 80 a 100 pessoas.

Em construção está também a casa principal, onde o casal vai residir e que terá quartos suficientes para funcionar como boutique hotel. «Aqui, os nossos futuros hóspedes poderão ter uma experiência completamente diferente» da hotelaria convencional, «pois ficarão alojados numa quinta funcional», que deverá estar a laborar em pleno até ao verão de 2018.

A propriedade tem ainda uma casa antiga que foi restaurada, e que será alugada para férias em regime de self-catering. A cave onde os vinhos irão estagiar está quase concluída.

Cerveja «dos Santos» e vinho «Tesouro»

«Quando comprámos este terreno, a nossa empresa ainda não tinha nome. Pensámos em várias possibilidades e achámos que Tesouro Rural seria o ideal. Na verdade, é o que isto é», diz Ann. Assim, o vinho será rotulado com o nome «Tesouro» e a cerveja artesanal mantém o apelido «Dos Santos».

O design destes produtos está a ser desenvolvida pela «Crochet», em Portimão. Para a vinha, que ocupa quase três hectares de área, «escolhemos apenas variedades portuguesas como a Touriga Nacional, Arinto, Verdelho, Sercial e a Negra Mole branca que será a nossa principal», devendo ser plantadas na primavera. A seleção está a cargo do enólogo Mário Andrade.

O casal estima produzir até 30 mil litros por ano (cerca de 35 mil garrafas). «Será uma experiência, as pessoas poderão ver o processo de fabrico da cerveja, participar em provas de degustação. Não queremos uma grande produção comercial, mas produtos artesanais com grande atenção ao detalhe e à qualidade», explica Ann dos Santos ao «barlavento».

Nos planos está também a produção de azeite gourmet a partir do olival. Na cervejaria, o casal contará com o ajuda do filho Greg, 23 anos, formado em gestão e que está prestes a acabar a sua formação como cervejeiro, com um mestre alemão na África do Sul. Será o responsável pela produção. «O equipamento que estamos a instalar é o topo de gama. Terá capacidade de produzir 1200 litros por dia. Só investimento na cervejaria ronda os 500 mil euros. Queremos mesmo elevar o standard ao máximo», acrescenta Eugene. No início haverá três variedades – pilsner, lager e amber ale.

«Regresso às origens»

O casal não esconde que gerir a «Quinta dos Arcos» será um grande desafio. Até aqui Ann trabalhava em imobiliária, na renovação e venda de edifícios, e Eugene fabrica(va) equipamento industrial em aço inox.

Questionados sobre a motivação de se mudarem para Portugal, respondem com uma pergunta: «e porque não? A África do Sul tem os seus problemas, não é segredo para ninguém. Este é um regresso às origens, já que o meu pai nasceu em Lisboa», diz o patriarca.

«No início, isto era apenas um pequeno projeto para um dia mais tarde, quando nos reformássemos», brinca Ann, já que o investimento de 3,5 milhões de euros vai reunir quase toda a família. Também o filho mais velho do casal, Kyle e a esposa Elayna vão juntar-se à equipa operacional.

«A nossa intenção é sermos um dos locais turísticos de topo nesta parte do Algarve, já a partir deste ano», confirmam. «O que nós gostamos em Portugal é a arquitetura, a comida, o vinho. Penso que é isso que quem visita este país quer experimentar. Para nós é muito importante. Não queremos palmeiras, queremos dar uma experiência genuína. Quem nos visitar vai saber e sentir que está no Algarve», concluem.

Terreno «destinado»

«Assinamos o contrato a 14 de julho de 2015, mas vimos o terreno pela primeira vez um ano antes. Pensámos que tínhamos perdido a oportunidade, pois foi adquirido por outras pessoas, que entretanto mudaram de ideias e desistiram. Pensamos que nos estava destinado», brinca Ann dos Santos.

«A localização é perfeita para um projeto deste tipo. Há vários empreendimentos turísticos e campos de golfe ao redor e está próximo das praias. Isso dá-nos uma grande capacidade de atração», diz Eugene. O terreno mantém as estruturas de drenagem originais, feitas há cerca de um século, que serão reaproveitadas. Há vários tipos de solo para a vinha e foram mantidas as espécies autóctones, como amendoeiras, figos, alfarrobeiras e oliveiras. Algumas das rochas sedimentares movidas durante a obra revelaram fósseis à superfície, o que cria mais um motivo de interesse. No inverno, corre um pequeno riacho. O casal dos Santos é um dos cinco novos produtores de Lagoa. Na verdade, esta família luso-descendente tem uma casa em Vale da Pinta desde 2010 e acredita que o timming é perfeito para investir, dados os recentes bons resultados do turismo algarvio.

A «Quinta dos Arcos» deverá abrir no verão, com uma festa ao pôr-do-sol para convidados e entidades oficiais, e um fim de semana aberto ao público.

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