Família inglesa investe 750 mil euros em fábrica de cerveja artesanal em Faro

Unidade de última geração é a maior do género Península Ibérica, capaz de produzir 90 mil litros de cerveja artesanal por mês. Marca «Algarve Rock» quer ser embaixadora da região no mercado nacional e em nichos de exportação.
Gary Hosmer, 60 anos, proprietário, e o genro Neil Conchie, cofundador e diretor de vendas protagonizam um gigante brinde (cheers) artístico pintado à entrada da fábrica.

Apesar de estar em funcionamento desde fevereiro, a Algarve Rock Brewery ainda é um segredo bem guardado, no armazém 2B do Parque Industrial de Vale da Venda, às portas de Faro. É um negócio de família, que junta Gary Hosmer, 60 anos, proprietário, e o genro Neil Conchie, cofundador e diretor de vendas. O par é, aliás, protagonista de um gigante brinde (cheers) artístico pintado à entrada da cervejeira.

O projeto remonta a 2016. «Uma das principais dificuldades foi encontrar o local certo para montar a fábrica, assim como conseguir completar todo o processo de licenciamento. Para ser honesto, foi um pouco mais complicado do que aquilo que antecipámos. Mas faz parte da experiência. Este é um negócio muito sério, estamos a fazer um produto de consumo. Por outro lado, estamos muito orgulhosos de estar baseados aqui no Algarve», explica Neil Conchie, ao «barlavento».

Sempre que vinha ao Algarve de férias, Gary Hosmer via o domínio das duas grandes marcas industriais de cerveja industrial e a relativa pouca expressão das alternativas. «No Reino Unido há hoje cerca de 1800 cervejas artesanais (craft beers), sendo que a maioria dos produtores são (muito) bem sucedidos. Vivi durante algum tempo em França, um país produtor de vinho, tal como Portugal e Espanha, mas que hoje já tem mais de 1000 cervejeiros. Vi também esta cultura a germinar aos poucos na Itália. Apenas Portugal estava a resistir e a ficar para trás. Claro que hoje em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país, já temos alguma oferta, muito boa até, mas ainda em pequena escala», compara o empresário londrino.

«Estudei o mercado britânico e muitos produtores apontam como principal erro não terem começado, logo no início, com uma operação maior. É por isso que estamos a apostar numa unidade tão grande. Temos uma capacidade instalada para produzir um máximo de 90 mil litros de cerveja por mês, o que não é nada mau, embora o confortável seja uma média de 60 a 65 mil litros», estima.
Claro, há o reverso da medalha. «Começar com esta dimensão significa que precisamos de mais espaço, o que aumenta os custos. Ou seja, teremos que vender bastante só para atingir o equilíbrio nas contas, antes mesmo de haver rentabilidade», admite o proprietário.

«Sabemos que é difícil ganhar a vida neste mercado. Somos uma empresa portuguesa, toda a minha família mudou-se para cá, investimos em Portugal, investimos na região. O nosso objetivo é fazer cervejas que o Algarve e o país se possam orgulhar», sublinha Gary Hosmer.
Em breve, a fábrica terá uma loja e poderá ser visitada pelo público, sendo até possível reservar uma experiência gastronómica de degustação de cerveja artesanal com comida.

Cerveja inglesa com um toque português

Para já, a Algarve Rock Brewery produz «cinco variedades de cerveja. Uma é um estilo checo que toda a gente conhece, uma pilsner (lager). As outras são Pale Ale, Red Ale, Stout e Indian Pale Ale (IPA). Queremos ter uma combinação de estilos ingleses, mas com um toque português, isto é cervejas de corpo leve e baixa graduação alcoólica», explica Angel Borges, 27 anos, o head brewer, formado em cervejaria na Venezuela. «Estamos a tentar desenvolver novos sabores, como a pislner que leva piri-piri na etapa de fervura» e estão na calha cervejas de ginginha e até de fruto de medronho. «Acho que esta marca surge no momento certo. Não é para as massas, mas as pessoas estão um pouco cansadas da cerveja industrial e procuram algo diferente, com mais qualidade. E neste momento há uma revolução da chamada craft beer a acontecer em todo o mundo».

Angel Borges, 27 anos, é o head brewer da casa.

O marketing está a ser dirigido a residentes estrangeiros (expats) e turistas, «mas queremos que os locais aceitem bem e se identifiquem com este produto», diz Neil Conchie. Nesse aspeto, até tem razões para estar otimista, a julgar pelo bom feedback que recebeu durante a segunda edição do Alameda Beer Fest, que decorreu no primeiro fim de semana de julho, em Faro. Para já, a empresa acaba de assinar um contrato com um distribuidor que a levará a toda a região. É o primeiro grande teste estratégico para o rótulo «Algarve Rock». «Antecipamos que a nossa cerveja esteja em breve disponível em bares, restaurantes e supermercados de todo o Algarve, em vários outlets, seja à pressão ou em garrafa». Na hotelaria e similares, os interessados terão todo o equipamento necessário disponível. Uma inovação é o barril de 20 litros, em plástico transparente, tipo bag in box. Já em relação ao retalho, que poderá estar mais interessado em comercializar as garrafas de 33 centilitros, «aconselhamos que o preço por unidade fique abaixo dos três euros», afirma o diretor comercial.

«Ao exemplo do que tem acontecido noutros países, penso que num prazo de três a cinco anos, a nossa marca poderá conseguir até três por cento do mercado nacional, que neste momento, vale cerca de um bilião de euros por ano. Penso que será mais difícil porque aqui temos uma espécie de duopólio», calcula. «Ainda assim, mesmo que estejamos a produzir ao máximo, e se conseguirmos essa taxa de mercado, penso que haverá ainda muito espaço para outros produtores», calcula o londrino Gary Hosmer.

Sazonalidade, importação, exportação e boa água da rede

A questão da sazonalidade algarvia não é estranha a Gary Hosmer, golfista experiente e de longa data, embora o arrefecimento do turismo no inverno possa abrir outros horizontes para a «Algarve Rock». Uma solução é exportar durante este período, e dar a conhecer a nova marca algarvia no resto da Europa. «Neste momento já estamos em contacto com vários distribuidores internacionais, com o objetivo de começar a colocar a cerveja artesanal portuguesa no mapa do Reino Unido. Apesar de já haver muita oferta, acredito que por causa da relação afetiva entre os dois países, e sobretudo da relação tão forte com o Algarve, não haverá qualquer dificuldade de aceitação. Há sempre curiosidade em relação a produtos novos e diferentes, e no que toca a Portugal, não há quaisquer sentimentos negativos. Por exemplo, a pilsner de piri-piri que estamos a preparar, será certamente muito apreciada e bem-vinda», aponta Gary Hosmer.

Antes de se mudar de vez para o Algarve, Gary trabalhava com equipamento industrial. Agora faz a manutenção de toda a linha de produção e também de engarrafamento, que é outro destaque da sua fábrica. Dada a escassa tradição cervejeira nacional, alguns ingredientes têm de ser importados. «As leveduras e a cevada vêm da Bélgica e Holanda, pois apesar de termos leveduras e trigo para pão em Portugal, não há historial, nem oferta para o fabrico de cerveja. Os lúpulos vêm Kent, de muito boa qualidade, mas também usamos alguns americanos e da Nova Zelândia», revela o empresário. Não há aditivos, nem conservantes. Outro facto que valoriza a «Algarve Rock» é a qualidade da água da rede. «É excelente e podemos consultar as análises da FAGAR online. Apenas temos que a suavizar um pouco, muito ligeiramente. É mesmo muito boa para fazer cerveja. Além disso, a qualidade é consistente, não varia ao longo do ano. Na verdade, não se consegue fazer boa cerveja sem boa água», conclui.

«Algarve Rock», a origem do nome

A marca «Algarve Rock» tem uma história curiosa. Gary Hosmer conheceu um investidor que pretendia reabrir um restaurante em Almancil (o Amadeus), há muito fechado, batizado com o nome do famoso compositor austríaco clássico. A ideia era chamar-lhe «Rock me, Amadeus», onde haveria um jardim seco, para o consumo de cerveja artesanal (craft beer). À partida, Hosmer não gostou muito do nome, mas como era suposto estar envolvido no projeto, decidiu que a sua cerveja se haveria de chamar «Rock». Mas à última da hora, o investidor desistiu. «Nessa altura, comecei a trabalhar na marca e queria muito que tivesse também a palavra Algarve, porque na verdade, desde o início, queríamos que fosse conhecida como uma cerveja local, algarvia, de Faro», diz. Sólido como uma rocha, o nome pegou, até porque o vocábulo «Rock» na língua inglesa permite fazer várias combinações de palavras, que servem para batizar as diferentes gamas de cerveja – Rock Session (IPA); Rock Sharp (Pilsner); Steady (Pale Ale); Rock Solid (Red Ale) e Rock Stout. A todas acresce a referência à origem «portuguesa» no rótulo.

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