Família Andrade oferece museu de fotografia a Tavira

O antigo espaço comercial de Damião Cândido de Andrade, recentemente falecido, e antigo proprietário da Foto «Andrade», na Rua da Liberdade, é agora um moderno museu dedicado à obra da família. Junta o olhar de quatro gerações e cruza a história de Tavira, do Algarve e da própria fotografia.

A ideia remonta aos tempos de juventude. «Começou quando eu era aluno do liceu. Na altura, esteve aqui em Tavira um arquiteto ligado às Belas-Artes, numa missão de inventariar todas as igrejas, tudo o que havia de obras de arte e de património, durante dois anos. Eu acompanhei-o várias vezes. Por isso, comecei a ter um gosto pela conservação. Também tive um pouco a influência da minha mulher, que é formada em História. Cedo percebi que este espólio merecia ser guardado. Levei uma vida a tentar organizar tudo», que, no total, deve rondar os dois milhões de imagens. «Só não o fiz mais cedo porque um dos meus tios, digamos, que foi o mentor disto tudo, o Damião Cândido de Andrade, tinha um feitio muito especial e não deixava que eu, já adulto, andasse a escarafunchar. Mas fui fazendo as coisas muito diplomaticamente e cheguei ao que aqui está hoje», descreveu ao «barlavento».

Fernando Severino, Jorge Botelho, Miguel Andrade e Luís Andrade na inauguração do novo museu.

«O arquivo do meu avô estava totalmente estragado. Consegui aproveitar um por cento do que poderia ter. Mas a partir dos anos 1940, já com o meu pai, está aqui tudo e bem documentado», acrescentou. A escolha das fotos para a abertura do museu «foi extremamente difícil, entre as 20 mil imagens digitalizadas», contabilizou.

Apesar de pequeno, o espaço está pensado para ser versátil. Há um laboratório de fotografia analógica funcional, pois «a ideia é dar formação» a uma técnica votada à obsolescência pelo advento do digital. Luís Andrade, aliás, frisa que a vertente pedagógica e educativa não foi descurada. «Hoje, os jovens não têm noção do que é fazer uma fotografia. O telemóvel é uma máquina que faz tudo, e quem for minimamente habilidoso a editar no computador, consegue uma imagem. Antigamente, era a pureza da fotografia», que ficará assim ao alcance de quem a quiser treinar. «Está a ver aquela peça que parece uma locomotiva? É um ampliador do final do século XIX. Em criança tenho ideia de ver o meu pai a trabalhar com isto. Pendurava uma folha de papel fotossensível de 30 por 40 cm na parede, apagava a luz e dava os segundos necessários de exposição. Isso não mudou, aliás, o princípio da fotografia é sempre o mesmo, não é?».

Questionado sobre o valor do investimento, Luís Andrade diz que «é difícil calcular. Mas é muito elevado». O museu será aberto ao público, a troco de uma «entrada simbólica». Por fazer, está ainda uma cafetaria e galeria de arte, no primeiro andar, cujo projeto já deu entrada na Câmara Municipal de Tavira.

Museologia moderna e versátil
São três salas, uma no piso térreo e duas no primeiro andar, e pouco mais de 300 m2 de área. Um pequeno paraíso para qualquer aficionado sério da fotografia. Há embalagens antigas de filme de vários formatos, cheira a sais de prata, fixadores e outros (al)químicos, e reluzem as objetivas e as câmaras antigas. Já tiveram vida e agora ganham uma nova. Na verdade, apesar do espaço ser relativamente reduzido, a solução de museologia foi cuidadosamente pensada pela equipa de Rui Gonçalves, da Nerve – Atelier de Design. Até porque já havia uma experiência anterior e um contacto com o espólio. «Nós já tínhamos feito uma outra exposição da família Andrade, a pedido da Câmara Municipal de Tavira», para o Palácio da Galeria, onde esteve patente em 2011/12. Quando terminou, ao fim de 18 meses, «a família pediu-nos para desenvolver um espaço onde o espólio pudesse ficar guardado e exposto para sempre, e que pudesse ser mostrado aos tavirenses e aos algarvios. O nosso desafio foi conceber uma exposição modelar, capaz de ser atualizada, sem grandes custos, sendo que isto é um museu privado, sem quaisquer apoios do Estado», explicou ao «barlavento».

Na prática, isso é possível de forma simples. «As molduras de parede são reutilizáveis. Temos também gavetas nos expositores que podem ser arrumadas. São o suporte ideal para tudo o que é original, mas que tem de ser protegido da luz artificial e da temperatura, mas permitindo às pessoas verem o conteúdo», explicou Rui Gonçalves. «Agora temos aqui todo o projeto base, que é a história dos 120 anos da fotografia. As gavetas podem ser alteradas de acordo o que se pretende mostrar. Por exemplo, numa futura mostra temática, digamos, sobre o urbanismo». A ideia é que quem visite o espaço, todos os verões, encontre algo diferente para ver e descobrir.

Segundo o designer, nesta primeira mostra permanente houve a preocupação em exibir um discurso narrativo, com as máquinas antigas e os equipamentos a representar várias épocas da história da fotografia, desde os primórdios. Uma linearidade que se cruza com as temáticas das imagens – a transformação urbana, as profissões, o comércio, as festividades e a cultura, o turismo, a fotografia de reportagem e os retratos do quotidiano.

Para que conste, Gonçalves deixou uma garantia: «já que esta família dá este contributo tão grande, eu como tavirense, apesar de ter a minha empresa em Lisboa, quero continuar a participar neste projeto».

«Desta vez tivemos acesso a quase 60 gigas de fotografias, e a todo um espólio que é enorme. Grande parte não está sequer ainda digitalizado. Todos os dias vão aparecendo novas fotografias, à medida que a família vai revelando ou mandando revelar os vidros. Ainda há muito para descobrir e para catalogar. E também para restaurar», sublinhou.

Uma mais-valia para o turismo cultural
Jorge Queiroz, diretor do Palácio da Galeria/ Museu Municipal de Tavira, reconhece o valor desta iniciativa. «Vejo-a com o maior interesse. É um caso raro, em que há várias gerações de fotógrafos, todos eles foram registando aspetos da vida social, e também as pessoas que fazem parte destes ciclos que são as nossas vidas. É de louvar o esforço desta família. Podiam não o ter feito, mas usaram os seus meios» para dar mais um ponto de interesse a Tavira.

«A fotografia é uma das artes, tal como a pintura, a arquitetura e a música que tem presença nas cidades. Há muitas coisas que as cidades têm, como coleções, histórias específicas de personalidades ou de situações que atravessaram, que podem ser valorizadas para se criarem polos» de interesse. «Isto também faz a vida de uma cidade que tem preocupações com um turismo cultural. Não basta apenas visitar as igrejas e os monumentos. É preciso polos recentes, que podem ser privados, também», sublinhou.

Queiroz disse ainda que a exposição «Fotografar. A família Andrade, olhares sobre Tavira» foi um pouco o despoletar para o processo de valorização de toda esta herança. Na altura, a mostra «interessou muito à população, que no fundo, se viu nela refletida. Estava muito bem estruturada, foi trabalhada com uma técnica do Museu, a historiadora Rita Manteigas, que fez o estudo da coleção no terreno e a organização temática. Publicámos um catálogo que esgotou logo, pois foram apenas 500 exemplares. Agora vamos fazer uma reedição porque continua a haver procura». Em relação à exposição que acabou por estar patente 18 meses, mais tempo que o previsto, «era uma pena não ter uma sequência».

Durante a inauguração, Jorge Botelho, presidente da Câmara Municipal de Tavira, reconheceu que o novo museu é uma mais-valia para a comunidade. «Não há muitas terras que se podem orgulhar de ter uma família com um repertório, uma quantidade arquivada de fotografias que podem ser expostas a qualquer momento, e que se motivam para fazer um museu privado, aberto ao público, que se enquadra perfeitamente na oferta cultural da cidade», disse.

«Todos nós, em miúdos, íamos ali tirar as fotos para a escola. As festas de família, as comunhões, tudo isso era feito pela família Andrade, que eram os fotógrafos da cidade. Hoje é engraçado ver, por exemplo, a minha mãe em algumas fotografias, ver pessoas antigas conhecidas, encaixadas noutro contexto, nas vivências de outras épocas», concluiu.

Ainda de acordo com o autarca, a «Casa Fotografia Andrade» será integrada na rede e na oferta cultural de Tavira. Para já, pode ser visitada durante a semana, no horário de expediente do comércio tradicional, na Rua da Liberdade, nº36. Para marcação de visitas guiadas e mais informações, está disponível o contacto 281 322 289.

O anão da Luz de Tavira e o falsificador de Santo Estêvão

Todas as fotografias têm uma história, embora por vezes, os nomes dos protagonistas tenham ficado perdidos nas malhas do tempo. Uns plebeus, outros ilustres, forçados ao anonimato do esquecimento. Luís Andrade aponta para uma imagem que encontrou há muito pouco tempo e que, sem este reparo, até passaria despercebida na exposição. «Para ser sincero, é uma das melhores. Mostra um retocador de cenários», isto é, os panos de fundo que os fotógrafos colocavam (e que ainda hoje colocam) por detrás das pessoas que iam fotografar. «Antigamente, havia quem fizesse réplicas deste tipo de cenários fotográficos a partir de catálogos que vinham de Paris». Basta abrir uma das gavetas para se ver um exemplar, que chegou aos dias de hoje. «Este rapaz era de Santo Estêvão. Não sabemos o nome. Sabemos que, em 1954, quando o meu pai e os meus tios se mudaram para o estabelecimento em frente à praça, ele veio repintar os cenários. Era um grande artista, de tal forma habilidoso que uma vez pintou uma nota de 500 escudos e foi preso por falsificação» de dinheiro. «Eu era garoto quando isto aconteceu. Diz-se que a nota estava uma maravilha», recorda Luís Andrade. Outra figura curiosa «era o anão da Luz de Tavira. Tenho muitas fotografias deste indivíduo. Ele era um pouco serviçal do meu avô. Ajudava-o, ia à praça, levava e trazia-lhes as compras. Como era uma figura caricata, o meu avô tirava-lhe muitas fotografias. E o que é que faziam? Ele vendia as imagens e repartiam o negócio entre os dois».

Um bombardeiro da RAF no Barril

Uma das muitas fotografias de reportagem em exposição mostra um bombardeiro britânico Vickers Wellington da Royal Air Force (RAF), que aterrou de emergência no dia 27 de agosto de 1942, na praia do Barril. Carlos Guerreiro, jornalista e investigador da história aeronáutica da Segunda Guerra Mundial, e autor do livro «Aterrem em Portugal», há muito que queria ver esta imagem. «Devido ao mau tempo, a tripulação não pode aterrar em Gibraltar. Voltaram para trás, mas acabaram por aterrar perto de Tavira. Destruíram documentação e equipamento secreto, mas não o aparelho, seguindo as ordens que haviam recebido antes de partir. Foram para Lisboa no dia 2 de setembro e pouco tempo depois foram repatriados. O avião terá sido mais tarde devolvido ao Reino Unido», explicou ao «barlavento».

Luís Andrade, repórter de Guerra

Um conjunto de imagens que é simultaneamente autobiográfico e documental, é o registo que Luís Andrade fez no norte de Angola, durante o conflito colonial. O tema tem vindo a suscitar interesse e o antigo repórter de guerra não o quis deixar de fora. «Foi uma parte importante da minha vida. Eu estive nos serviços cartográficos do Exército, foi lá que fiz a formação, embora já tivesse uma noção do que era a fotografia. Comecei a trabalhar com o meu pai, tinha 13 anos. Já o ajudava e ia com ele para o laboratório. Depois, na tropa tirei a especialidade de fotografia e cinema», curso concluído em fevereiro de 1964. «Depois fui para Mafra, onde chefiei um laboratório da Escola Prática de Infantaria (EPI). Um ano mais tarde fui mobilizado, e tive a missão em Angola, de filmar» em película de 16 mm.

Livro imortaliza obra da família

Em setembro último foi apresentado o livro «Tavira e os Andrades – 120 anos de fotografia», edição de autor, com a chancela da casa comercial dos irmãos Luís Fernando e Maria Alcide Andrade, e onde também trabalham Miguel e Victor, os dois filhos de Luís Andrade, principal impulsionador de todas as iniciativas em torno da divulgação da obra familiar. Representa quase dois anos de trabalho. A segunda parte do livro, sob o título geral «Janela sobre Tavira», está subdividida em 10 capítulos, que abordam a vida militar, o tecido económico e social, a educação e a cultura ao longos dos anos, o desporto, as festas tradicionais e até o património urbano. A maioria das imagens publicadas são a preto e branco, numa viagem que começa em 1900 e termina em 2017, ao longo de 400 páginas. Pode ser adquirido no novo museu «Casa Fotografia Andrade» por 60 euros.

Fotografias: Filipe da Palma.

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