«Faina» promete rotura e inovação na restauração portimonense

Ir à «Faina», em breve, significará almoçar numa marmita, num ambiente de cantina fabril à beira do Arade. Ou jantar, sem menu, numa viagem gastronómica de fusão. Emídio Freire, 49 anos, promete uma rotura no restaurante do Museu de Portimão, que vai gerir em breve.

«Interessava-me um nome que ligasse à indústria conserveira. Um nome que se pudesse enviar no meio de uma conversa qualquer, e articular no dia a dia: olha, estou na Faina. Vem ter comigo!», descreve Emídio Freire, empreendedor que adquiriu em hasta pública, a exploração do restaurante do Museu de Portimão.

«A minha ideia é pôr um pouco de alma aqui. Isto, como está, é muito frio. Quero tornar o espaço mais confortável, mas nunca esquecendo o aspeto fabril. Estou a pensar fazer, no piso inferior, algo que recorde a zona de descanso das senhoras que trabalhavam aqui» no tempo em que a antiga fábrica Feu embalava conservas de peixe.

«Estou a pensar servir almoços com o menu do dia em marmitas. A minha ideia é tornar o espaço confortável para os trabalhadores» de hoje, «sem esquecer essa herança industrial». Na sala de jantar, no piso superior, Freire também promete diferenciar-se dos seus pares.

«Interessa-me fazer um esforço para inovar, mas, sobretudo, criar algum valor. Interessa-nos romper com o convencional, com o que está instituído, e que, normalmente, se apresenta numa casa destas. A ideia é não termos menu. Vamos propor uma viagem diferente, todas as semanas», com produtos da época, da terra e do mar.

O plano vai ter uma fase de teste, assim que a «Faina» abrir portas, em abril, à sexta–feira e sábado. No domingo, será servido um brunch (em português, pequeno-almoço almoçarado).

«Na prática, poderá não resultar», admite. «Penso que é capaz de funcionar, se conseguir mecanizar procedimentos e ter isto bem comunicado».

Além disso, tudo o que for servido na «Faina» terá sempre um toque de humor. «Poderá ser pelo aspeto visual, agradável e inesperado. Mas também, às vezes, pelo sabor, pelo contraste. Uma coisa que eu gosto muito são coentros e malaguetas. Se picares ambos juntos e exagerares um pouco, parece que vai resultar em algo intragável, mas não. Dá uma explosão de cor e um sabor incrível, sobretudo à nossa gastronomia» mediterrânica. «A minha ideia é também recuperar algumas ervas aromáticas. Tenho feito pesquisa junto de vários produtores locais. Isso é muito importante», até porque o Museu de Portimão já tem um levantamento, de trabalhos anteriores, de pequenos agricultores, havendo uma rede de contactos que pode dar uma ajuda ao atrevimento criativo de Emídio Freire.

Durante esta conversa, já bem pela noite dentro, no sábado, 4 de março, Emídio Freire estava só, a preparar o almoço para ser servido dali por horas. Já em relação ao seu projeto, tem um mês e meio para colocar tudo em prática. «Qual é a minha motivação? Até hoje fiz uma série de coisas diferentes. O meu currículo é um metralhar a vida. Este projeto faz sentido, porque junta dois aspetos que aparentemente não têm nada a ver um com um outro. Implicava logo no caderno de encargos um lado gastronómico e um lado de programação cultural. Vamos criar aqui um conceito que ligue ao espaço museológico em que está inserido, com o compromisso de fazer alguma animação cultural e, de certa forma, ajudar a animar esta zona do passeio ribeirinho» de Portimão.

A exploração comercial deste espaço esteve a concurso durante 10 anos. Emídio Freire acabou por adquirir esse direito em hasta pública. Pagou 10150 euros por um contrato de 10 anos. A renda é de 1400 euros mensais, mas «tem algumas vantagens, pois inclui o IVA e a eletricidade. Já dá para ter uma margem para trabalhar», admite. Em princípio «vamos ser seis a sete pessoas na equipa» e o orçamento inclui também todo o material para abrir a casa em condições.

Em relação aos preços, estes «têm de ser acessíveis. Mas não se poderá dizer que será o sítio mais barato» das redondezas. «Isso não, porque para aquilo que me proponho a fazer, com produtos frescos do mercado, a qualidade tem um custo», informa.

Questionado sobre a clientela-alvo, afirma estar a «pensar nos portimonenses e nos algarvios». «Estou a pensar no turismo apenas como uma consequência deste sítio. Interessa-me o turista que queira descobrir o que é que o residente faz: o que come, onde passa o tempo? Interessa-me, por isso, antes de mais, que, no futuro, este seja um espaço para o portimonense. Primeiro, porque sou de cá, depois porque, mesmo em termos de sustentabilidade, este projeto só faz sentido se for para as pessoas de Portimão», conclui.

Cultura e gastronomia

Emídio Freire, natural de Angola, esteve ligado à associação Contra-maré e fez a programação de cinema no festival de curtas-metragens «Imago». «Ou seja, no fundo, este projeto é bom, porque consigo aliar a minha experiência cultural à restauração», diz. Já no que toca ao gosto pelas lides gastronómicas é algo que já vem detrás. «Tirei o curso de cozinha na escola prática de administração militar, quando estive na tropa. Na altura, já gostava bastante.

Depois, quando era estudante» na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, «trabalhei em várias cozinhas diferentes. Há uns anos, fui para Barcelona e o destino juntou-me de novo a este mundo», o que aliás, tem sido recorrente ao longo da vida. Na última década, «tenho vindo a desenvolver o gosto e as técnicas. A passagem pela cidade da Catalunha «foi importante também, porque me deu outras perspetivas. A cozinha é uma descoberta tardia, mas já há dez anos que tenho procurado especializar-me e encontrar uma linguagem própria, pessoal, na comida que faço». Ambivalente no gosto, aprecia o tradicional, mas também as influências dispersas das várias cozinhas do mundo. «Não é a típica fusão, na qual temos uma coisa de cada lado, mas gosto de fundir vários elementos e gosto sobretudo de ter humor no prato».

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