Fábrica da CIMPOR em Loulé aumenta exportações e não encerrará

Quem o diz é Luís Fernandes, responsável da CIMPOR em Portugal, em entrevista exclusiva ao «barlavento».

barlavento: Qual é a situação atual da CIMPOR em Loulé? Pode dar-nos alguns números recentes?
Luís Fernandes:
O Centro de Produção de Loulé está em situação normal de produção para abastecer quer o mercado interno, quer a exportação e mantém o mesmo efetivo de pessoal. As vendas da CIMPOR para o mercado interno aumentaram até agora cerca de 20 por cento face a período homólogo de 2016, já o volume exportado cresceu 23 por cento face ao mesmo.

No início de agosto, a associação ambientalista Almargem denunciou que após um período coincidente com a venda da empresa à multinacional InterCement, a CIMPOR quer agora renovar a licença ambiental, entretanto caducada, para poder fazer a co-incineração de lixiviados de aterros sanitários e lamas secas de ETARs, resíduos da indústria têxtil, e de plásticos de construção. Gostaríamos de saber se isto corresponde à verdade?
Primeiramente convém realçar que a CIMPOR, em todos os seus processos, cumpre integralmente o que está legalmente estabelecido. Por outro lado, cada uma das fábricas está certificada ambientalmente, ISO14001, e está registada no EMAS, com as consequentes exigências que tais sistemas têm em matéria ambiental. Ao contrário do que foi afirmado pela associação ambientalista Almargem (tendo já sido esclarecida esta entidade deste facto), a Licença ambiental nº6/2007 referente à fábrica de Loulé não se encontra caducada, tendo sido prorrogada pela Agência Portuguesa do Ambiente até emissão da decisão final sobre o procedimento de renovação respetivo. Nesta unidade fabril, a atividade de coprocessamento está em operação desde 2009. No que diz respeito às operações de valorização de resíduos, incluídas no pedido de renovação da Licença Ambiental, confirmando a experiência nacional e europeia nestes assuntos, já foi demonstrado também pela nossa prática que estas operações de gestão de resíduos não só não aumentam o nível de emissões de poluentes (incluindo metais pesados, dioxinas e furanos), conforme é ilustrado anualmente nas Declarações Ambientais das fábricas da CIMPOR, disponibilizadas às partes interessadas e ao público em geral, como também reduzem a quantidade de resíduos que ao contrário seriam depositados em aterro. Para além deste facto, deve ser realçado que o coprocessamento reduz as necessidades de combustíveis fósseis, através da substituição térmica do combustível principal (coque de petróleo) por combustíveis alternativos, o que tem um importante significado não só em termos económicos para a empresa e para o país, mas também em termos ambientais, na medida em que proporciona a diminuição substancial da pegada ecológica.

Com a recente crise que o país e a região atravessou, a CIMPOR abrandou a produção. Ainda faz sentido manter esta unidade ativa?
Conforme referido anteriomente, as vendas da CIMPOR para o mercado interno tiveram, até agora, um crescimento de cerca de 20 por cento face a período homólogo de 2016. No entanto, estamos longe do pico do consumo de cimento em Portugal, registado em 2001. Daí estarmos também empenhados, numa lógica de maximizar a capacidade dos nossos ativos, na exportação. Em nosso entender, tendo em conta o consumo de cimento médio per capita na Europa, há margem para crescimento no mercado interno e a exportação será sempre um complemento. Há precisamente um ano, Bloco de Esquerda e PCP questionaram a tutela sobre a suspensão dos contratos de trabalho dos trabalhadores da CIMPOR no Algarve.

Há precisamente um ano, Bloco de Esquerda e PCP questionaram a tutela sobre a suspensão dos contratos de trabalho dos trabalhadores da CIMPOR no Algarve. Qual é a situação atual dos trabalhadores e o que se prevê para o futuro? Qual é a situação atual dos trabalhadores e o que se prevê para o futuro?
Há cerca de um ano, fruto da queda assinalável do mercado interno e também da exportação, essencialmente para a Argélia, fomos forçados a avançar com a situação de lay off. A retoma do mercado, já referida, permitiu antecipar o arranque da fábrica, encontrando-se em situação normal de funcionamento desde Fevereiro passado.

Fala-se também na substituição da atual direção da unidade de Loulé. Há algum motivo que o justifique?
Faz parte da política de recursos humanos da CIMPOR haver rotatividade de quadros com o objetivo não só de enriquecer a sua experiência em ambientes diferentes, como também contribuir para a sua motivação. A alteração da direção da fábrica de Loulé faz parte dessa política.

As encomendas para o norte de África, através do cais comercial de Faro têm sido um «balão de oxigénio» recente para a CIMPOR de Loulé. No entanto, a Câmara Municipal de Faro reclama essa área portuária para outros fins (plano Farformosa). Como é que a CIMPOR vê este plano, e em que medida é que afetará a laboração da unidade de Loulé?
A CIMPOR faz uma constante apreciação da sua eficiência operacional e usará as infraestruturas ao seu dispor para maximizar a sua criação de valor. A localização do porto de Faro e a sua proximidade à fábrica são fatores de competitividade para a exportação a partir desta unidade de produção.

Na eventualidade de a CIMPOR encerrar a laboração, qual o destino a dar às pedreiras que serão desativadas e às instalações industriais?
Não está previsto o encerramento da fábrica de Loulé, nem de qualquer uma das suas pedreiras. A fábrica tem vindo a cumprir os programas trienais de exploração das suas pedreiras, dispondo as mesmas de planos de recuperação paisagística desde a década de 1990. As medidas previstas e implementadas ao longo destes anos incluem a modelação dos terrenos, processos de revestimento vegetal com espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas, preferencialmente espontâneas na região, adaptadas às condições climatéricas locais. Estas medidas encontram-se previstas nos Planos de pedreira que são constituídos pelo Plano de lavra, Plano de aterro, Plano de segurança e saúde, Avaliação ambiental, Plano ambiental e de recuperação paisagística, Plano de monitorização e Plano de desativação, devidamente aprovados pela Entidade Competente.

Qual o estado do projeto de investigação e desenvolvimento acordado em 2012 com o Instituto Superior Técnico?
O projeto encontra-se numa fase de scaling-up, estando a ser dados passos com vista à construção de uma instalação-piloto de maior escala depois de obtidos resultados muito promissores à escala laboratorial. O projeto conta já com dois pedidos de registo de patente, tendo sido publicados sobre o mesmo diversos artigos científicos e efetuadas algumas apresentações em seminários técnicos.

Em 2007, chegou a falar-se na construção de aldeamentos turísticos em uma das pedreiras. Ainda está em aberto?
O plano de desativação ou encerramento que consta do Plano da Pedreira do Cerro da cabeça alta, visa a preparação da área para a sua devolução em condições de permitir a utilização deste espaço de acordo com a definição de uso que venha a ser dada pela Câmara Municipal de Loulé, na qualidade de gestor territorial, e pelo seu proprietário. Para tal, a área da pedreira deverá ser deixada em adequadas condições ambientais e de segurança, quando for desativada. Nesta fase e no plano em questão, encontra-se apenas estabelecido que será concluída toda a recuperação paisagística da área explorada, nomeadamente, modelados os terrenos e feito o seu revestimento vegetal com espécies preferencialmente autóctones, perfeitamente adaptadas às condições climatéricas locais. A possibilidade de um empreendimento habitacional, turístico ou cultural são hipóteses em aberto, que deverão ser avaliadas oportunamente, em conjunto com o gestor territorial e com as entidades licenciadoras.

A CIMPOR já tinha deixado o PSI20, e agora saiu da bolsa. Segundo o jornal «Expresso», os acionistas recebem 34 cêntimos por ação e a readmissão à cotação fica vedada durante um ano. Gostaria de ouvir o seu comentário sobre esta questão e de que forma é que isto afeta o futuro da empresa, nomeadamente, a unidade de Loulé?
Não tenho comentários a fazer sobre uma deliberação por parte da Assembleia-Geral da CIMPOR. Lembro, contudo, que da proposta do acionista controlador aprovada constava «a InterCement assegura que com esta proposta não pretende afetar as atividades da companhia em Portugal ou nas restantes geografias onde opera».

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