Luisa Schmidt, socióloga investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e uma das vozes mais aguardadas do programa do encontro, enumerou as várias «fraturas ambientais e sociais» que esta indústria preconiza. «Enquanto em Paris, o mundo inteiro combinou mover-se para fora das economias de carbono, Portugal parece estar disposto a esburacar alguns dos seus melhores recursos ao serviço desse mesmo carbono», disse.
Para Schmidt, numa altura em que «a oferta de petróleo é abundante» e em que think tanks internacionais desaconselham o investimento nesta indústria, «Portugal quer focar-se, em contraciclo, na extração de hidrocarbonetos à frente do nariz dos turistas e dos seus parques naturais. Chegámos tarde e a más horas e deslumbramo-nos com aquilo que os outros estão a abandonar. Há aqui um síndrome de pacóvio», sublinhou. «E é uma visão anti-estratégica para o país. A nossa grande vantagem é não termos tido o impacto» ambiental da extração de hidrocarboretos. «Não deveríamos agora perder essa vantagem. Acresce que na UE definiram-se metas e investimentos muito significativos para a produção de energias renováveis, nas quais Portugal já dá cartas. Deveria ser esse o nosso desígnio». Por outro lado, «ninguém é capaz de explicar as vantagens desta exploração, pondo em risco o ambiente, a paisagem e a economia local». A socióloga falou ainda em «embuste político» e lamentou «a exclusão das populações de toda a cadeia de decisão. Não houve consulta, nem envolvimento da sociedade. Como se decisões com tal projeção e impacto territorial fossem todas feitas entre Estado central e empresas. Todo este processo é um insulto à democracia».
Eglantina Monteiro, organizadora do encontro, em declarações ao «barlavento», considerou que «esta discussão tem que ser ampla e nacional. Não é um problema de ambientalistas. É um problema de todos». Segundo a organizadora, apenas o município de Aljezur esteve representado. Contactou todos os grupos parlamentares, mas «apenas o deputado do PCP respondeu ao nosso convite e fez-se representar pelo vereador da Câmara Municipal de Faro». Vítor Neto, empresário, ex-secretário de Estado do Turismo e dirigente associativo encerrou o painel. «Temos um recurso que é o turismo, que gera riqueza para a região e para o país. Pô-lo em causa com base numa hipótese, num sector considerado em quebra a nível internacional, em que alguns países produtores estão falidos, não se percebe bem porquê. E pode abalar a imagem do Algarve enquanto destino turístico», disse ao «barlavento».