Equipa de elite mantém património de Faro e do Algarve impecável a baixo custo

Cinco técnicos especializados do Serviço de Conservação e Restauro do Museu Municipal de Faro tem agenda cheia até ao final de 2019.
Rui André Gonçalves, Susana Paté Gomes, Maria José Gonçalves, Susana Laneiro, Luís Mansinho e Marco Lopes.

Reza a lenda que antes de São Domingos nascer, a sua mãe, teve um sonho misterioso. Viu um cão que trazia na boca uma tocha acesa, que irradiava luz sobre o mundo inteiro. Esta história surge a propósito de uma peça proveniente de um dos altares da Sé de Faro. Um São Domingos do século XVI e respetivo cão de guarda da fé. Quem se ocupa dele é Maria José Gonçalves, há 30 anos a trabalhar no Serviço de Conservação e Restauro do Museu Municipal de Faro.

«Este não é aquele restauro que se faz por aí nos antiquários para enganar o público que vai comprar uma peça que parece intacta e que nunca esteve partida. Aqui a ideia não é essa. O objetivo é dar visibilidade às partes e formas que são originais, tal como eram antigamente», diz. «Chegou aqui em muito mau estado. Estava todo picado pelo bicho (da madeira). Tivemos de lhe injetar produto, embrulhá-lo em plástico e fechá-lo durante duas semanas», conta, enquanto retoca a peça com cuidado.

Quando Maria José começou, em 1988, «ninguém falava em conservação ou prevenção. Era uma mentalidade que não existia. Há 30 anos era muito difícil. Nessa altura, o Museu não tinha nada. Nem havia essa sensibilidade por parte dos autarcas» de então.

Acontece que, nessa altura, «o IEFP resolve organizar, a nível nacional, uma série de formações de valorização do património, e criou cursos de restauro de cerâmicas, azulejo, madeira, pedra. Aqui em Faro, a diretora na altura, Helena Santos, propôs acolher alguns. O IEFP pagava tudo, os formadores vinham de Lisboa, Évora e Coimbra. A contrapartida era que a Câmara Municipal teria que assimilar alguém. Foi assim que nasceu o serviço». Dessa fornada, alguns abriram oficinas por conta própria e outros dispersaram-se.

Ainda assim, só em 2000 é que a equipa viria a ser reforçada. Durante o hiato de 12 anos em que esteve sozinha, «procurou-se trabalhar em peças que estavam expostas e que precisavam de intervenção. Nas várias reservas estava tudo ao molho. Trabalhou-se, por exemplo, o material arqueológico do tempo do Abel Viana, proveniente do Largo da Sé, que estava amontoado em sacos desde 1942. Nunca ninguém lhe tinha mexido. Foi também nessa altura que se compraram os primeiros desumidificadores. Na província, isso não era usual».

Susana Laneiro (em baixo, à esquerda) veio com uma equipa quatro estagiários, de Mértola, fazer escavações nas antigas carpintarias municipais, um trabalho de campo coordenado pela arqueóloga Dália Paulo e Nuno Beja. Acabou por ficar no serviço. À direita, Maria José Gonçalves, a pioneira do serviço. Foto: Nuno de Santos Loureiro.

Susana Paté Gomes, neta de uma algarvia, mudou-se para Faro quando entrou no serviço por concurso público, há 15 anos. É a atual responsável e trabalha sobretudo na elaboração de projetos. «O trabalho é sempre diverso. Pode ser arte sacra, pintura sobre madeira ou tela, imaginária, cerâmica arqueológica ou comum, estuques, pintura mural, azulejo, argamassas ou pedra. A única coisa que excluímos são metais, papel, fotografia e têxteis», enumera, enquanto faz a «reintegração pictórica» de um painel de talha dourada policromada do século XVIII, uma Nossa Senhora da Assunção, vinda da Sacristia da Sé. Conta ainda que a equipa tem a seu cargo o património do município. As capelas (Repouso, Esperança, Santo António do Alto, São Sebastião e Senhor do Bonfim, nas Figuras), assim como a estatuária da cidade.

Susana Paté Gomes, a responsável pelo Serviço de Conservação e Restauro do Museu Municipal de Faro. É uma painel de talha dourada policromada do século XVIII, da sacristia da Sé, imagem de Nossa Senhora da Assunção. Foto: Nuno de Santos Loureiro.

E não só. «Há várias componentes. Somos nós que tratamos da montagem e logística de exposições. Também tratamos dos empréstimos de peças para o estrangeiro. Todos os dias monitorizamos a temperatura e humidade do Museu Regional e do Museu Municipal. Cuidamos das reservas de ambos, mantemos tudo acondicionado e inventariado e ainda cuidamos da Galeria Trem». Fora do concelho, o serviço tem protocolos com Tavira e Loulé (área de projeto), São Brás de Alportel (obras), com a Direção Regional de Cultura do Algarve, Diocese do Algarve, entre várias outras entidades científicas, religiosas e da sociedade civil. «O nosso volume de trabalho é maior hoje porque já existe uma noção diferente do valor do património, em termos históricos e culturais. Os párocos já têm a preocupação de melhorar a qualidade do espólio das igrejas. Além da vocação religiosa, agora também se preocupam com o turismo», diz Maria José.

Rui André Gonçalves retira uma camada antiga, de um santo franciscano anónimo. «Dizem que é o São Luís Rei de França. Faz parte de um conjunto de seis peças da Igreja de São Francisco de Faro. Todas elas estavam repintadas com outra cor. Agora vai ficar limpa e o mais próximo do original». Foto: Nuno de Santos Loureiro.

Segundo Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, a agenda está completa até ao final de 2019. «vamos prestar apoio na conservação da Igreja de São Francisco de Faro. A cúpula do altar-mor está muito mau estado e é uma intervenção urgente. Temos um pedido formalizado para os retábulos da Igreja Matriz de Estoi, e também para uma série de pinturas do Seminário e da Sé de Faro», revela.

E não é tudo. «Na primavera, vamos restaurar a estátua de D. Afonso III. Está em mau estado de conservação. A pedra calcária está cheia de escorrências das oxidações do bronze que tem de ser tratado, estabilizado e protegido. Vamos também reabilitar o portal renascentista do Museu», acrescenta Susana Gomes. Integram ainda a equipa Luís Mansinho, Rui André Gonçalves e Susana Laneiro.

Serviço muda de instalações ainda este ano

Uma das reivindicações da equipa é poderem expandir a oficina para uma sala mais espaçosa, melhor arejada (por causa dos produtos químicos) e com luz natural, indispensável ao trabalho de restauro. Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, diz que esse objetivo está na calha. «O projeto está na reta final. Está a ser desenhado pelos serviços de urbanismo da Câmara Municipal de Faro, aguarda neste momento um ou outro pormenor de especialidade para ficar definitivamente concluído. Tanto quanto julgo saber, a ideia é mudar ainda este ano, para um edifício já existente que vai ser adaptado. É uma necessidade que se impunha. Vai permitir, por exemplo, intervir em telas de grande dimensão, o que até aqui não acontecia pela limitação espacial. Terá também uma componente de reserva. Aliás, essa é uma área crítica na qual precisamos intervir».

Conservação é uma área «vital»

Questionado sobre a importância do Serviço de Conservação e Restauro, Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, considera que «é vital. Faz parte de uma das funções que um museu e um município deve ter. Temos a sorte e o privilégio de ter uma equipa altamente profissional que faz um trabalho extraordinário. E claro, por esse crédito que vai amealhando, outras entidades externas, estão atentas e pedem-nos auxílio. Penso que é um serviço fundamental hoje em dia para quem tem objetivos e preocupações de conservar a memória. Um município que se preze tem de ter este serviço», refere. Embora «existam mais equipas congéneres no Algarve, a nossa é altamente versátil, porque consegue abranger vários tipos de trabalho, com a mesma qualidade de empresas especializadas, e orçamentos menos onerosos e dispendiosos».

Mãe Soberana foi «a peça mais emblemática»

Segundo Maria José Gonçalves, pioneira do Serviço de Conservação e Restauro do Museu Municipal de Faro, «diria que a peça mais emblemática restaurada foi a imagem da Mãe Soberana, de Loulé, há quatro anos. Não é que fosse a mais difícil, ou a mais trabalhosa. Era uma peça de culto», da maior procissão religiosa a sul de Fátima. Susana Gomes confirma. «Quando a devolvemos, houve uma grande polémica, não se falava de outra coisa. O padre pediu-me para ir explicar o restauro», pois havia quem jurasse que «nós tínhamos-lhe tirado a lágrima».

«Uma parte do nosso trabalho é retirar más intervenções, e reparar não os estragos, mas as más tentativas de retirar tentativas de reparação mal feitas», diz Susana Paté Gomes. Foto: Nuno de Santos Loureiro.

O que é que aconteceu na verdade? «A Mãe Soberana estava muito suja das velas e cheia de vernizes alterados. E por isso tinha um aspeto, digamos, moreno. Tinha uma lacuna muito grande debaixo de um olho, em que se via um pouco da madeira. As pessoas, ao verem a imagem passar ao longe, achavam que aquilo era uma grande lágrima. Claro que a lacuna, tal como todas as outras, foi fechada. A verdade é que a imagem tinha cinco pequenas lágrimas brancas, que ficaram». Ainda assim, «tive de fazer uma apresentação Powerpoint e explicar isso aos fiéis. A fé pode ser cega e temos que ter muito cuidado quando se trabalha com peças de culto», diz. «Nós fazemos restauros museológicos muito diferenciados. Seria impossível deixar ali a madeira à vista, na Mãe Soberana. Ela até foi fazer um TAC a Tavira. Fizemos o nosso melhor trabalho, ficou muito bonita, mas acusaram-nos de a ter deixado pálida». Susana Gomes diz que está na altura de fazer «um check-up» à imagem, pois todas as peças devem ter um período de manutenção entre 3 a 5 anos.

Uma nova sala islâmica e exposição permanente

O diretor Marco Lopes tem planos para o futuro. «Este museu deve assentar num discurso sobre a história e a evolução de Faro». Quando o Serviço de Conservação e Restauro for transferido para um outro edifício, o espaço desocupado será convertido numa nova sala dedicada ao período islâmico. Na reserva do museu há uma grande quantidade de peças de cerâmica árabe, devidamente estudadas e prontas a serem mostradas ao público. O plano é «terminar a futura exposição permanente com uma sala dedicada ao final da administração muçulmana de Faro. Além disso, queremos ter um outro espaço dedicado ao período entre os séculos XIII a XVI. Uma cronologia desde a vila cristã, com o foral de D. Afonso III, até à elevação a cidade por D. João III. O projeto científico está a ser feito por nós com a Universidade do Algarve e a colaboração do professor Luís Filipe Oliveira. O guião da exposição será apresentado até ao final de 2018», revela. «Queremos continuar o discurso histórico do século XIII que não existe. Fizemos um esforço titânico para ter cá o foral de D. Manuel, que estava em Coimbra, mas que ainda não está exposto. Será uma das peças principais».

Luís Mansinho um dia encontrou um sapo, agulhas e uma tesoura escondidos atrás de um altar numa igreja do concelho de Faro. Foto: Nuno de Santos Loureiro.

Fotografias, cartazes de circo inéditos e raridades da sétima arte

Em confidência ao «barlavento», Susana Paté Gomes, responsável pelo Serviço de Conservação e Restauro do Museu Municipal de Faro, diz sonhar ver um dia, uma exposição com os cartazes de circo antigos, inéditos e ainda à espera de serem estudados. Este é, aliás, apenas um dos tesouros ainda por descobrir na reserva, «um espaço lotado a 130 por cento», onde «há muita peça solta, coleções espetaculares de pintura, desenho e gravura. E temos a melhor coleção de cartazes de circo e de cinema do país», revela. A história deste espólio é curiosa. O farense Joaquim António Viegas foi cenógrafo em Lisboa, e conseguiu alguma notoriedade, no princípio do século XX. Foi um exímio colecionador de cartazes. Um dia mais tarde, na década de 1990, o filho, que não teve descendência, não sabia que destino dar ao espólio. Contactou a Cinemateca Portuguesa que terá declinado a oferta. Susana Gomes tem uma teoria. «Por alguma razão que desconhecemos, eles não aceitaram a oferta. Na verdade, muitos cartazes estavam dobrados em mil pedaços. Nunca ninguém imaginou que eram 300 cartazes de 2 por 3 metros, todos dobradinhos. Se calhar, não se deram ao trabalho de ver com atenção», especula. No entanto, o filho de Joaquim António Viegas lembrou-se da cidade natal do pai e veio a Faro doar o material. «A diretora Helena Santos aceitou. O irónico é que, na altura, a Rede de Portuguesa de Museus financiou alguns projetos e conseguiu-se pagar o restauro desses cartazes em Lisboa, um trabalho que demorou meses. No final, foram apreciados por um avaliador francês especialista que ficou boquiaberto». Na verdade, a coleção é única no mundo e tem alguns cartazes anteriores à Primeira Guerra Mundial, numa altura em que o cinema dava os primeiros passos. Mais tarde, «montámos uma exposição no Torreão da Cordoaria Nacional. Apareceu um representante da Cinemateca, que perguntou, com ar de desdém: como é que Faro tem uma coleção destas? A minha chefe, na altura (Dália Paulo) respondeu: porque a Cinemateca não a quis! Ficaram com uma certa inveja, porque temos aqui exemplares muito raros no mundo. Já os cartazes de circo, ainda não estão estudados». Outra preciosidade em reserva é o espólio dos fotógrafos Saborrinha e Matos, incluindo ampliadores, tinas e acervo, que poderá vir a ser exposto em 2019.

Museu Municipal de Faro celebra 124 anos

No fim de semana, de 2 a 4 de março, o Museu Municipal de Faro celebra 124 anos, com um programa descentralizado que passará pelo Aeroporto, Conceição de Faro, Estoi, Santa Bárbara de Nexe e Bordeira. Segundo o diretor Marco Lopes, é uma efeméride «que queremos assinalar, cada vez mais, com a dignidade que merece. Estamos a falar de uma instituição centenária, das mais antigas do país, com um enorme peso cultural na região. Este ano, pensámos num conceito diferente. A festa não tem que se reduzir só à cidade. Temos a preocupação de levar um pouco da cultura e do património ao resto do concelho. É um reencontro entre o Museu e todo o seu território concelhio. Portanto, quisemos fazer uma festa alargada a todo o território com iniciativas para vários tipos de públicos. O Museu não pensa apenas nas escolas, através dos serviços educativos, mas também nos turistas. Teremos música, atividades para crianças e exposições».

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