Empresa de Portimão tem os mais ativos duplos de cinema do país

David Chan Cordeiro é um portimonense de 36 anos responsável pelas cenas de lutas, atropelamentos e outras peripécias em muitas das telenovelas e filmes produzidos atualmente em Portugal. A sua empresa, «MAD Stunts» (Duplos Loucos), tem sede em Portimão e conta com vários elementos desta cidade e Monchique, embora desenvolva a maioria da atividade em Lisboa. Este especialista em cenas perigosas pratica artes marciais desde muito novo e foi aos 16 anos que decidiu ser duplo de cinema.

«Contactei uma escola em Seatle, nos Estados Unidos da América. Disseram-me que a idade mínima para os americanos é 21 anos. Mas abrem exceções para os europeus, que consideram ser mais maduros e portanto, podem ingressar aos 18. Assim que tive idade, parti para um curso com a duração de cerca de um mês, acompanhado pelo meu mentor de full contact, o Paulo «Rato», que é um dos duplos que trabalham comigo», conta ao «barlavento». Mas, no final da formação, só o Paulo voltou a Portugal.

«Fiquei apaixonado por aquela cultura e, como tinha acabado o secundário, convenci a minha mãe, que me apoiou financeiramente durante a estadia, e fiquei a estudar em Seatle, transferindo-me mais tarde para Los Angeles, onde obtive um bacharelato em realização cinematográfica. Assim, teria a possibilidade de vir a trabalhar, mais tarde, como realizador de ação. Mas também fui motivado por saber que, quanto mais soubesse sobre o trabalho que é feito por detrás da câmara, melhor seria a minha performance em frente dela».

Durante três anos, David trabalhou como assistente de realização, adquirindo grande conhecimento e experiência com câmaras e lentes, trabalhando perto dos diretores de fotografia, «que são quem toma as decisões mais críticas em relação à parte técnica da iluminação das cenas. Essa experiência garante-me, hoje, muito trabalho», admite.

Ao fim de 10 anos, regressou a Portugal e há oito que fundou a «MAD Stunts», em Portimão. Quando lhe perguntámos se havia trabalho em Portugal para uma empresa tão especializada singrar, responde que «se me tivessem feito essa pergunta na altura, diria que não, mas não estava muito preocupado. Hoje, há. Faturamos bem. Temos uma equipa com dez elementos e já consigo viver apenas disto».

No início, não esconde que foi difícil. Mas a sua máxima é «crer para ver» e não «ver para crer». E sabia que, se levasse o seu serviço às pessoas certas, iria ter procura.

«Se o produto for bom, vende. Tenho uma linguagem de ação que trouxe dos Estados Unidos e por isso comecei a ter cada vez mais pedidos, porque os produtores e realizadores identificam-se com a assinatura MAD Stunts».

David Chan Cordeiro diz que as telenovelas são a sua maior fatia de mercado, por ser o que mais se produz em Portugal. Depois, vêm o cinema e a publicidade.

«Invisto muito no cinema porque se faz pouco e desejo que se faça mais. É lógico que não trabalho de graça, mas faço questão de ir atrás de todos os filmes, independentemente dos orçamentos que tenham. Já não faço tanta publicidade como dantes, escolho apenas os trabalhos grandes e que possam aumentar o meu currículo».

Um dos seus grandes êxitos na publicidade foi um clip protagonizado por Cristiano Ronaldo (CR7) para uma empresa operadora de telecomunicações. «O clip era um pontapé de bicicleta, mas ainda mais acrobático. A produtora perguntou se tinha um duplo que pudesse dobrar o CR7. Eu tinha e fizemos as filmagens. A propósito, o duplo é de Portimão e chama-se Hélio Vieira», revela.

Para Chan Cordeiro, os duplos devem ser invisíveis aos olhos do público. «O espetador deve ficar com a ilusão de que está a ver o seu ídolo a executar a proeza». Quer isto dizer que, para ser duplo, é necessário ter uma grande humildade, a par de grandes capacidades físicas e mentais?

«Para trabalhar comigo, a pessoa tem de aceitar que irá ser um guerreiro invisível. Se alguém tem problemas de ego, não serve como duplo, porque o ego é um dos principais causadores de lesões, uma vez que o indivíduo está a fazer as coisas por um motivo errado», sublinha.

Questionado acerca do perigo que corre nas ações de alto risco, esclarece que o mesmo é mitigado com muito trabalho de bastidores aliado à ciência, ensaios e troca de informação com peritos de várias áreas. «Mas não é uma ciência exata. Se conseguirmos retirar o risco a 100 por cento, torna-se tão fácil que qualquer figurante o pode fazer. Há sempre o risco de lesões, que são os ossos do ofício».

Também o teatro recorre aos seus serviços, mas na área da formação. «Há cenas de luta no teatro, desde violência doméstica ao uso de armas, como no McBeth. Damos formação aos atores e fazemos a coreografia, seguindo a visão do encenador, criando a ilusão de luta. O teatro é difícil, porque o público encontra-se a poucos metros e não há repetições».

O nosso entrevistado já leciona, há sete anos, na Act for All – escola de atores dirigida por Patrícia Vasconcelos e Elsa Valentim, onde ensina técnicas de base de lutas cénicas coreografadas.

A «MAD Stunts» tem ocupado muito tempo e retirado a David Chan Cordeiro a visibilidade que tinha no panorama internacional. Porém, nos últimos anos, voltou a mostrar que ainda está ativo e já conseguiu papéis nalgumas produções internacionais rodados no estrangeiro. E tem muitos trabalhos feitos para produtoras estrangeiras que vêm filmar em Portugal, por vários motivos, sendo o bom tempo e a qualidade da luz, os principais argumentos.

Em relação a projetos para 2018, «quero melhorar ainda mais aquilo em que já somos bons. Melhorar a qualidade e expandir a equipa. E vou abrir um curso de duplos, onde a formação passa por um estágio de um ano connosco, para que os candidatos possam aprender a nossa forma de trabalhar, não só técnica, mas tática e física. Pondero colocar a trabalhar na equipa os que vierem a cumprir os meus requisitos. E não procuramos apenas homens. Aliás, necessitamos mais de mulheres do que de homens. E pessoas de várias etnias», sublinha.

Como nota final, a portimonense Daniela Macário é a única mulher duplo na equipa e já dobrou 85 atrizes, nacionais e estrangeiras.

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