Em Olhão já há ouriços-do-mar de aquacultura

Produção de ouriços-do-mar (Paracentrotus lividus) na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) está a correr tão bem que os biólogos libertaram parte da primeira geração nascida em cativeiro junto ao molhe do Farol, na ilha da Culatra. Objetivo é desenvolver uma metodologia para a produção em aquacultura.

A semana começou cedinho, à hora da maré, para um grupo de quatro biólogos da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). A saída de barco, na manhã de segunda-feira, 6 de novembro, teve como destino o núcleo do Farol, na ilha da Culatra, onde as pedras do molhe da barra dão agora abrigo a 500 ouriços-do-mar (Paracentrotus lividus) juvenis, a primeira geração nascida em cativeiro. Têm cinco meses de idade e um diâmetro médio de 1,2 centímetros. «São pequenos, mas têm força», diz João Araújo, que precisa da ajuda de uma espátula para os retirar do recipiente de transporte. Para trás ficaram 300 reprodutores adultos, 5000 juvenis e mais outros 1000 para os ensaios de nutrição.

«Começámos há cerca de um ano a colhê-los no meio ambiente e a fazer os ensaios preliminares de reprodução para perceber o ciclo de vida, no sentido de termos larvas e juvenis em cativeiro. O nosso trabalho foi pescá-los, adaptá-
-los e dar-lhes de comer durante um ano, com algas, milho, lentilhas e leguminosas. Pelos vistos, viveram em boas condições porque maturaram», explica a bióloga Ana Mendes.

O biólogo Ivo Monteiro alimenta os ouriços adultos na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO).

As primeiras dificuldades foram de ordem prática. Na estação «temos tanques preparados para peixes, e não para ouriços. Este organismos precisam de filtros e redes diferentes. Pensámos que seria muito difícil fixarem-se num tanque de fibra de vidro», mas o sucesso da experiência foi tal que surpreendeu a equipa.

Segundo Pedro Pousão, diretor da EPPO, «o que está publicado sobre o ouriço dava para resultados diferentes do que se passou aqui. Dava tempos de crescimento muito mais lentos. Mas tivemos fixação ao fim de 25 dias, enquanto na literatura refere-se 70 a 90 dias. Não foi preciso nada disso», e a sobrevivência também superou as expetativas.

«Quando se considera produzir uma espécie em aquacultura, há três pontos fundamentais. Um é conhecer a reprodução e fechar o ciclo de vida. Outro é ter dados sobre o crescimento para que seja o mais eficaz possível. Por fim, há a parte organoléptica do produto final. Tem de ter uma boa textura, um bom sabor e uma boa qualidade. Quando os nossos ouriços estiverem adultos, poderemos testar esta última parte», diz o diretor da EPPO.

Ana Mendes, Pedro Pousão (ao fundo), João Araújo e Ivo Monteiro. Nos sacos trazem 500 ouriços-do-mar juvenis para repovoamento no molhe da barra de Faro junto ao Farol, na ilha da Culatra.

Na verdade, «o que interessa para o sector comercial são os adultos, porque o que se come são as ovas (gónadas)», explica Ana Mendes. Nos mercados internacionais, atingem preços entre 50 a 150 euros por quilo.

«A alimentação condicionará o sabor da gónada. É o que chamamos a afinação», acrescenta. No passado, na estação olhanense já se tinha estudado o ouriço-do-mar, embora com outros objetivos. Esse conhecimento é agora aproveitado. «Há estudos que dizem que a alimentação com milho dá resultados muito satisfatórios para o público», sublinha. E não é estranho dar milho a um animal que vive no mar? «Não, utiliza a herbivoria para sobreviver, e portanto retira-lhe os nutrientes».

China e Japão interessados

No final da semana passada, a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, piscou o olho ao secretário de Estado chinês para os Assuntos do Mar da China, em Xaimen, com a investigação que está em curso na EPPO. Mas antes, já outro país asiático tinha sondado o trabalho dos cientistas em Olhão.

«Há dois anos e meio fomos visitados pelo embaixador do Japão, e pela encarregada da câmara de comércio luso-japonesa. Manifestaram muito interesse em colaborar com Portugal na produção do ouriço-do-mar», revela Pedro Pousão.

A atual investigação insere-se no projeto DIVERSIAQUA – Diversificação, Inovação e Desenvolvimento da Aquacultura em Portugal, financiado pelo Programa Operacional MAR 2020, até janeiro de 2019. Pretende otimizar protocolos de reprodução e cultivo de espécies como o ouriço-do-mar, polvo, corvina, sardinha, microalgas e macroalgas com interesse comercial para diversas indústrias, e ainda para repovoamento e conservação da natureza.

Enquanto coloca ospequenos ouriços-do-mar entre as rochas, a bióloga procura indivíduos adultos. Os poucos que encontrou estão escondidos nas cavidades mais recônditas e inacessíveis. «Antigamente, picavam os pés a toda a gente. Agora não se encontram. Portanto, quando há um recurso que começa a estar ameaçado, temos duas hipóteses: ou se produz em cativeiro, ou então vai desaparecer mesmo. A ideia é produzir largos milhões e não andar no mar a prejudicar ainda mais um recurso escasso ou que já não existe», conclui Pedro Pousão.

A iniciativa no Farol acaba por ser mais simbólica, do que científica, pois não há forma de controlar o que irá acontecer aos pequenos ouriços. Mas a equipa promete vir cá espreitá-los, em breve.

Armalgarve quer engordar polvo

Segundo Pedro Pousão, a Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) poderá vir a colaborar em breve no projeto da associação Armalgarve Polvo – organização de produtores. «A ideia é aproveitar os juvenis que já são capturados e permitir que cresçam até ao tamanho comercial ideal e, eventualmente, libertar alguns animais para manter a população», revela. «Sabemos que a maioria dos polvos pequenos sai clandestinamente» para o mercado. «O objetivo é criar estruturas de engorda até atingir um peso normal para o mercado. O primeiro ensaio seria numa zona no porto de Quarteira. Mas aqui na estação podemos fazer alguns ensaios controlados experimentais», revela ao «barlavento». «Se resultar poderá ser feito noutros portos» algarvios. O desafio que se coloca, segundo a bióloga Ana Mendes é desenvolver as estruturas para o efeito. «Têm de ser suficientemente fechadas para os polvos não fugirem, mas, por outro lado, têm de ser suficientemente abertas para haver uma circulação de água e alimento». «Não é que isto vá resolver o problema da falta de polvo, mas pelo menos, aproveita-se melhor o recurso», conclui o diretor da EPPO.

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