Elisabete Jacinto estaciona em Faro antes de cruzar Marrocos

Ex-professora de geografia é conhecida por ser a primeira mulher a participar numa das mais duras provas todo o terreno do mundo, o Paris-Dakar, com resultados históricos. Até hoje, 13 de fevereiro, estaciona no Forum Algarve, em Faro, o camião que a vai levar em abril ao Marroco Desert Challenge.

barlavento: Que ambiciona para o futuro próximo?
Elisabete Jacinto:
O meu desafio é ser aceite como bom piloto. É para isso que trabalho e continuo a dar o meu máximo, para chegar ao pódio. Quero ser reconhecida pelas minhas capacidades de condução. Estamos numa sociedade de homens, construída por homens, onde se minimizam as mulheres por medo que elas ganhem vantagem. Falta-nos uma sociedade equilibrada onde homens e mulheres desempenhem o seu papel da melhor forma e contribuam ambos para uma sociedade saudável. Homens e mulheres têm capacidades diferentes. São bons em áreas diferentes e quando se juntam, o trabalho de equipa é o melhor. Eu consigo bons resultados, mas não se devem aos meios disponíveis, que são reduzidos. Tenho muito pouco dinheiro em comparação a outras equipas, sobretudo estrangeiras. Mas tenho uma excelente equipa mista, que se completa através de diferentes maneiras de ver e enfrentar os desafios. Somos seis elementos. Três trabalham a tempo inteiro (eu, o meu marido e o mecânico), e os outros três juntam-se a nós nas corridas.

Como é que o desporto motorizado surge na vida de uma professora de geografia?
Um dia, enquanto eu e o meu marido líamos uma revista de motas, perguntámos um ao outro – porque não tirarmos a carta de mota? E assim fizemos, os dois ao mesmo tempo. Comprámos uma mota, inscrevemos-nos num clube de todo-o-terreno e passámos a receber os folhetos dos passeios. Durante o nosso primeiro, num percurso de 200 quilómetros, apenas consegui fazer 80. Cai três vezes e o radiador abriu porque não era uma mota apropriada para aquele tipo de percurso. Depois, passámos um ano inteiro fechados em casa a poupar dinheiro para comprar duas motas adequadas. Foi um ano de penitência. Não jantámos fora, nem fomos a lado nenhum só para juntar todos os tostões. Comprávamos revistas francesas, líamos as dicas do Peter Ansell e íamos para o campo treinar. Depois juntámo-nos a um grupo de amigos de viagens. Um dos nossos companheiros inscreveu-se numa corrida. Foi assim que decidi participar no 1º Troféu Todo-o-Terreno, em 1992, a minha primeira corrida. Achava que não era capaz de competir porque não tinha técnica, condições e físico…. mas o meu grupo acreditava que eu era capaz! Ao fim de 100 quilómetros estava cheia de dores, mal me conseguia mexer, mas cerrava os dentes e lá ia eu! Na serra de Grândola passei por vários rios, cai e não consegui levantar logo a mota. Entrou água para o motor e deixou de pegar. Por isso, tive de desistir. Mas se perguntassem quem era a pessoa mais feliz daquela prova, era eu! Só abandonei na final e sentia-me cheia de orgulho. A partir daí, foi paixão que nunca mais me largou. Passava os dias a pensar no que poderia fazer para arranjar físico, técnica e dinheiro para competir. Na altura, inscrevi-me em todas as corridas que encontrava.

O Paris-Dakar foi a competição que mais projeção lhe deu. Tem saudades?
Sem dúvida. A prova foi anulada em 2008 e mudou-se para a América do Sul. A organização queria rentabilizar a competição, pensando que na América Latina iria receber dinheiro dos países atravessados, enquanto que em África tinha de pagar por onde passavam. Como pretexto evocaram questões de segurança, mas essa manteve-se a mesma. A organização que substituiu o Dakar chama-se agora «Africa Race», na qual participo todos os anos. É exatamente a mesma prova, mas só porque tem outro nome, não tem o mesmo prestígio, nem o mediatismo da anterior.

E como surgiu a oportunidade de participar no Paris-Dakar?
Lembro-me de um dia pensar que tinha de deixar a competição, pois já tinha feito o campeonato nacional de todo-o-terreno e queria ser mãe. Mas ao mesmo tempo, sentia pena de abandonar tudo sem experimentar uma prova em África. Pensei: sou professora, ensino aos miúdos como se formam as dunas, mas nunca vi nenhuma. Naquele momento, imaginava-me toda equipada em cima de uma mota pelo deserto fora… e a imagem fez todo o sentido. Nunca nenhuma mulher o tinha feito, facto que também me motivou. A ideia ganhou uma tal dimensão que se tornou uma obsessão. E foi extremamente difícil criar as condições. Tive de prescindir de muita coisa e trabalhar como uma louca. Ainda por cima as coisas começaram a correr mal. Percebi que as pessoas não acreditavam que eu fosse capaz de o fazer! Esse foi o grande desafio. Tornou-se uma necessidade profunda provar que estavam erradas. Que eu iria ser capaz. E assim foi. Ter conseguido fazer o Dakar de mota deu-me a sensação que poderia fazer no mundo tudo aquilo que quisesse. Foi muitíssimo duro e difícil, mas senti-me uma super-mulher.

Porque decidiu trocar a competição de mota pelo camião?
A passagem da mota para camião teve a ver com o facto de que me esforçava demasiado para ter bons resultados e não conseguia ficar em 1º, 2º ou 3º da geral, com os homens. Infelizmente, só se valoriza quem fica no pódio. Enquanto mulher, fazendo aquilo que os homens faziam com uma mota de 200 quilogramas, alcancei resultados extraordinários. Hoje, as poucas mulheres que fazem o percurso, usam motas muito mais fáceis de conduzir e nunca chegaram a atingir os resultados que eu tive. Na época, fiquei muito frustrada e quando abandonei a competição, fi-lo porque não tinha o reconhecimento do esforço que fazia. Ficar em 20º numa prova com 100 motas era um resultado excelente, mas ninguém o reconhecia. Pensei, e porque não tentar de camião? Talvez até seja mais fácil encontrar patrocínios, pensei. Um dia cheguei a casa perguntei ao meu marido: o que achas de eu tirar a carta de pesados? Quem sabe, um dia posso fazer corridas de camião? Ele respondeu que era uma ideia gira. Peguei na mala e fui à escola de condução. Tirei a carta em outubro e fiz o Dakar em janeiro! Na minha vida aprendi que conseguimos tudo aquilo que quisermos, se realmente o quisermos e se trabalharmos para o conseguir. Esta é a chave do sucesso.

Num desporto maioritariamente masculino ser-se mulher tem mais vantagens ou desvantagens?
Não sei se existem vantagens em ser mulher. Talvez, uma vantagem é que toda a gente me conhece e tem uma palavra de simpatia. Mas tudo o resto é mais difícil. As provas são preparadas por homens e para homens. Eu fazia o mesmo regulamento, percurso e usava a mesma mota, mas o nosso físico não é igual. No entanto, se as mulheres perdem em capacidade muscular, ganham noutras áreas como a concentração e a capacidade de orientação. Eu era capaz de estar concentrada horas a fio nas distâncias e no roadbook. Havia homens que andavam muito mais depressa que eu, mas ultrapassavam-me na mesma etapa duas e três vezes. Há também o aspeto do descrédito, pois há quem pense que estamos lá só para ficar bem na fotografia, e ninguém acredita nas nossas capacidades. Até os próprios mecânicos da equipa chegaram a duvidar e questionar. Tudo é mais difícil. Sinceramente, se eu fosse homem, com os resultados que consegui na minha carreira, seria considerada um suprasumo. Mas como sou mulher há muitas dúvidas. Já agora, gostava de deixar uma mensagem às mulheres: vocês podem fazer tudo o que quiserem, se quiserem. Atenção à educação que damos às nossas crianças e às ideias feitas dos outros. Ensinam-nos [às mulheres] que não somos capazes, que temos de nos afastar de certas coisas porque não estão ao nosso alcance. Por que não hei-de eu conduzir uma mota ou um camião? Devemos questionar tudo, sempre! E nunca desistir por causa de preconceitos.

Fotografias de Jorge Cunha antecipam livro

Além do camião, o Forum Algarve acolheu a exposição intitulada «Elisabete Jacinto, Momentos em Competição». Segundo a piloto, «vamos lançar um livro de fotografias ainda este ano, e por isso achámos que valia a pena lançar uma exposição. O fotógrafo Jorge Cunha capta imagens de desportos motorizados e cobre todas as grandes corridas no estrangeiro. Temos fotografias espetaculares. Por isso surgiu esta mostra, é uma forma de partilhar o mundo das corridas com o público. Em 28 fotografias, a exposição retrata os momentos que vivemos nas corridas como a partida, as verificações, os locais de dormida, as pistas, dunas, oásis e o trabalho de equipa».

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