«É mais fácil aparecer o Pai Natal em Faro este ano do que um parque de campismo»

Utentes desconfiam que há gato escondido com rabo de fora nas intenções da Câmara Municipal, que não os auscultou no projeto de requalificação. Temem a rotatividade, os preços e não poderem ser residentes todo o ano.
Luís Arsénio e António Figueira da Associação de Utentes e Amigos do Parque de Campismo Municipal e Social de Faro..

A intenção da autarquia farense «deixa-nos um pouco de pé atrás. Como é que vamos avançar para uma proposta de requalificação do parque, se desde 2015, não foi colocado em Plano de Pormenor?», questionou António Figueira, presidente da Associação de Utentes e Amigos do Parque de Campismo Municipal e Social de Faro, em conferência de imprensa, na quinta-feira, 21 de junho.

O dirigente associativo expressou desagrado pelo facto de a direção não ter sido ouvida no que toca ao projeto apresentado pela autarquia farense na semana passada. «Deveria esta associação ter sido auscultada, já que nós é que estamos aqui há anos e anos, sabemos quais são as carências do espaço. Essa auscultação não foi feita, não sabemos de nada. Neste momento, a Câmara está a atropelar aquilo que aprovou» em 2015.

Luís Arsénio, membro da direção, clarificou que a reaqualificação «é uma luta que temos desde 2010. A população farense sempre foi enganada sobre os nossos propósitos em relação a este espaço. Convém referir que se não entra aqui ninguém hoje, não é por nossa culpa. É porque a Câmara não permite. Nós sempre defendemos um parque de campismo aberto para todos. Em 2015, o presidente Rogério Bacalhau pretendia fazer aqui um parque de estacionamento para automóveis. Depois, como não conseguiu, porque não tinha maioria, levou uma proposta para requalificar o parque, a reboque da apresentada pela CDU, que é muito objetiva e que foi aprovada», explicou, sendo que a mais recente do executivo «foi colocar aqui os pescadores».

António Figueira lembrou ainda que «ninguém está cá de borla. Quando a Câmara saiu em 2010, fez muito alarido dizendo que deixou de ter um encargo anual de 150 mil euros. Por isso nos foi passado o espaço, sob o compromisso de manter tudo em perfeito funcionamento». Mas «todos os anos recebemos IPSS, entidades escolares e universitárias a custo zero. Água, luz e limpeza paga a associação. E a Câmara sabe disso, porque autoriza. Nunca quis saber que custo teria para nós. Nunca disse obrigado. Não nos importamos porque esta é uma valência social que o parque continua a demonstrar», desde o tempo dos retornados das ex-colónias.

Manter o recinto custa hoje 115 mil euros, pagos pelos 263 sócios, que pagam uma média de 70 euros por mês, num universo de 140 lotes. No futuro, o que preocupa a associação é o facto de o projeto apenas contemplar espaço para tendas. E também a forma como será feita a rotatividade. «Não há parque que sobreviva sem residentes, pois estes garantem que haja uma receita regular», explicou o dirigente.

«Entre 2012 e 2014, tivemos a hipótese de deixar entrar autocaravanas para fazerem a manutenção, porque partiam as casas de banho da praia e gastavam água à Junta (de Montenegro). Ficou decidido que nos dariam um donativo de 5 euros diários. Não queriam pagar. A ideia que se tem que o autocaravanismo dá muito dinheiro, não é verdade. É uma mais-valia, mas não é a galinha dos ovos de ouro».

E mesmo que a futura gestão venha a ser municipal, «se entendermos os custos da estadia num parque moderno, e virmos os rendimentos dos nossos sócios, muitos não vão poder pagar», disse António Figueira. «Vamos ver se realmente a cidade de Faro, e aqueles que querem vir passar as suas férias, conseguem ter condições financeiras. Era bom que a requalificação tivesse fins sociais».

Mas, «numa cidade onde há mais de uma década não se constrói uma habitação social, será que vamos falar de um parque de campismo social? Há quem diga que é mais fácil aparecer o Pai Natal em Faro este ano, do que um parque de campismo aqui», concluiu Luís Arsénio.

«Há nove famílias residentes» no parque

«O senhor presidente Rogério Bacalhau sabe que quando foi feito o comodato, já havia pessoas cá a viver sem habitação própria. Ele sabe perfeitamente isso. Em 2015 quando argumentamos que há nove famílias sem recursos para alugar ou comprar casa, ele mandou cá os serviços sociais fazer esse levantamento. Como é que agora tem a coragem de transmitir que a responsabilidade não é da Câmara?», disse Luís Arsénio aos jornalistas. «Estamos disponíveis para encontrar uma solução, não só para nós que temos direitos adquiridos, nem que seja pelo dever moral e histórico».

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