Depois do Bioco, eis o Gabão

Lurdes Silva colocou na moda a antiga peça de vestuário tradicional de Olhão. O sucesso do bioco abre caminho para uma outra peça resgatada dos livros de história.
Lurdes Silva mostra o novíssimo gabão ao «barlavento».

Causou surpresa e sensação em dezembro de 2014, quando o bioco, um traje típico do século XVII, usado pelas algarvias de todos os estratos sociais com o objetivo de não serem reconhecidas, foi reinventado por Lurdes Silva como acessório de moda moderno. «Hoje quando participo em feiras a maior parte das senhoras já sabe o que é um bioco!», refere. Portanto, estudar uma peça de vestuário histórica e adaptá-la aos dias de hoje já não é uma tarefa complicada para esta professora universitária e empreendedora residente em Faro.

Em entrevista ao «barlavento», Lurdes refere que «há algum tempo que sentia a necessidade de recriar uma nova peça, de preferência, portuguesa e emblemática». A pesquisa levou-a, de novo, ao espólio do Museu do Traje, em São Brás de Alportel, onde teve conhecimento do gabão. «É um casaco com um fecho que permite abrir nos dois sentidos e capuz», simplifica. «Esta peça de roupa era usada sobretudo na parte costeira de Portugal, por mariscadores, homens e mulheres, entre Aveiro e o Algarve. Mas variava consoante as diferentes zonas do país. Portanto, decidi recriar a versão que era usada na região algarvia». Segundo a criativa, num passado não muito distante, em que uma grande fatia da população era pobre, «todos os agasalhos eram poucos. Os pescadores recorriam muito este tipo de casaco, concebido sobretudo para o trabalho no mar».

O gabão era «uma pequena capa de talhe simples, muito primitiva e rústica. Mas como tinha capuz, era uma vestimenta indispensável no tempo frio». E era «mais comprido na costa norte até Lisboa e mais curto na costa algarvia», talvez pelo clima mais ameno do sul.

«Em 1900, toda a família vestia o gabão de tecido soriano (uma espécie de burel). Os homens e mulheres usavam este vestuário sobretudo para a apanha do berbigão, da ameijoa, e para a recolha da murraça tradicional», explica Lurdes Silva.

«O tecido original, o soriano, era concebido a partir de lã de ovelha negra da serra. Também o meu gabão é composto em 80 por cento por lã. Porém, não em preto mas com outras cores que conferem mais elegância à mulher atual», acrescenta. Este inverno a peça será disponibilizada em lilás, amarelo torrado e rosa, e para já, destina-se apenas ao universo feminino.

O corte e costura «é moroso», e isso, reflete-se também no preço final. O gabão está já disponível para venda ao público pelo valor de 169 euros. No futuro, estará disponível em diferentes materiais e cores. Outra fórmula a repetir à imagem do que fez anteriormente com o bioco, é a impressão de texto com a história do gabão no forro do casaco.

Lurdes refere ainda que esta peça de tradição marítima «é ideal para quem procura vestir um produto com história e identidade». Apesar de só estar disponível para venda a partir desta semana, Lurdes já apresentou o gabão em algumas feiras e sublinha que «a reação do público não podia ser melhor». «Tenho recebido vários elogios pelo design e glamour» que confere a quem o usa. E ainda serve de agasalho, como no passado. Mais informações aqui.

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