Demolição de edifício cubista causa polémica em Olhão

Antiga sede do clube «Os Olhanenses», exemplar da arquitetura cubista com açoteia, pangaio e degraus para o mirante, foi demolido para dar lugar a prédio de apartamentos na principal avenida da cidade.

Passavam poucos minutos das 9 horas de segunda-feira, 10 de setembro, e já a casa tinha ido abaixo. «Tudo indica que este edifício seria, pelo menos, do século XIX. Infelizmente, a maioria dos olhanenses ficará indiferente a mais este atentado ao património arquitetónico. Dirão que é um sinal de modernidade e de desenvolvimento. Aos poucos, a Avenida da República vai perdendo os seus edifícios característicos e tornando-se igual a qualquer artéria numa qualquer cidade», considerou Vítor Matias, presidente da assembleia geral da Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão (APOS), ouvido pelo «barlavento».

«Muitas vezes, os defensores do património aparecem como indivíduos nostálgicos, fora do seu tempo. Mas, na verdade, não são contra novas construções, nem contra uma nova arquitetura. É necessário perceber que há lugar para novas construções, mas mantendo as zonas históricas preservadas. Devem ser realizadas nas áreas de expansão urbana. Isto porque encerram a identidade de um lugar. Uma vez destruídas, as pessoas deixam de se rever nesses espaços que ficam descaraterizados e indiferenciado», defendeu ainda.

«Hoje, diz-se que Olhão está na moda. E está. De facto, assistimos a uma grande procura porque as pessoas ainda lhe reconhecem uma identidade genuína. Se existissem praias em Olhão, esta cidade ter-se-ia tornado numa Quarteira com toda a pressão imobiliária que teria acontecido», comparou.

Alexandre Cabrita concorda com esta opinião. «Eu já vejo isto acontecer há 25 anos. Ali atrás, onde está aquele prédio, havia uma fábrica de ferragens onde se faziam as caixas para o peixe e tudo o que era útil à indústria conserveira», disse, enquanto a escavadora arrancava mais um pedaço da fachada principal. Para este cidadão, não faz sentido demolir. «Este edifício poderia ter sido reutilizado. Uma terceira vida, porque já foi Registo Civil e sede de um clube. Hoje poderia ser uma creche, um centro de dia para idosos, ou até um restaurante. Se Olhão quer de facto ter alma, isso passa também pelos edificado, que representa a nossa identidade histórica. O mais caricato é isto estar a acontecer no Ano Europeu do Património», criticou.

Meike Flessemen, artista holandesa radicada no Algarve desde tenra idade, mudou-se para Olhão, atraída pela cena cultural impulsionada pela comunidade estrangeira que ali se tem instalado para recuperar as antigas casas cubistas. «Este é mais um edifício icónico que desaparece em minutos para dar lugar a um banal condomínio de apartamentos. Isto numa terra que diz ter alma! Na verdade é um prejuízo a longo prazo para todos, em nome do lucro imediato para alguns», apontou.

Abel Silva, entusiasta das chaminés algarvias, começou a fazer um inventário há mais de 20 anos, um pouco por todo o Algarve, sobretudo em ruínas e casas abandonadas, tendo mais hoje de 1500 registos. Algumas perderam-se, mas muitas outras foram recuperadas. «Posso dizer que hoje foi um dos dias mais tristes da minha vida, ver ao vivo um crime de lesa-cultura, de lesa-património, de lesa-cidadania. Não percebo como é que numa autarquia não há gente com sensibilidade para preservar não só o edifício, como também os pormenores e elementos que não têm hipótese de serem reconstituídos», lamentou. «Este é um mal geral por todo o Algarve, à exceção de muito pequenas e mal cumpridas exceções, não há qualquer intenção sequer de preservar esse património», lamenta. «Destas chaminés antigas, não há duas iguais. Porquê? Porque são artesanais. Pela idade que tem, aquela ali foi feita naquele local para este edifício», disse, antes de ver aquele elemento cair por terra.

«Os autarcas que passaram pela autarquia olhanense sempre desprezaram os bairros históricos (para o bem e para o mal). Um ex-presidente da câmara até afirmou que Olhão não tinha património! Não percebendo que a riqueza do património olhanense é o conjunto! Sem estratégia para manter e mesmo reforçar a sua identidade, continuando a desbaratar o seu património, no médio prazo, Olhão será uma cidade como tantas outras que nada de diferente terá para oferecer ao visitante», concluiu Vítor Matias.

Contactado pelo «barlavento», o Gabinete de Relações Públicas do município de Olhão confirmou que «que existe um projeto aprovado para apartamentos».

APOS aponta dedo à autarquia

«Compete às autarquias defender e preservar o património (material e imaterial) dos seus territórios. Porém, os nossos autarcas não têm ou não querem ter sensibilidade para estas matérias. Não sabemos porquê, mas têm uma atração por tudo o que seja negócio ligado ao imobiliário», disse Vítor Matias, presidente da assembleia geral da Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão (APOS), ao «barlavento». «Dirão alguns puritanos que as autarquias não têm recursos financeiros para comprar tudo o que sejam edifícios com valor patrimonial. É verdade. Mas têm instrumentos de gestão do território para salvaguardar o seu património. Ainda hoje, está por explicar porque o edifício da Recreativa Rica ficou fora Área de Reabilitação Urbana (ARU) de Olhão. Deverá ser mero esquecimento!», criticou ainda. «Também deveria ser interessante saber a razão pela qual a autarquia olhanense, através de influências de bastidores, impede que seja elaborada a zona de proteção dos Mercados de Olhão. É bom recordar que se hoje, os Mercados Municipais de Olhão, são classificados como Monumento de Interesse Público o mesmo apenas se deve à sociedade civil que liderou o referido processo de classificação».

Categorias
Destaque


Relacionado com: