Cultura do abacate e pistácio com grande potencial no Algarve

Do litoral à serra, os técnicos da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve recolheram centenas de variedades de árvores de fruto do Algarve, ao longo dos últimos anos. Um património vivo que ainda tem muito para dar no futuro.
Na amendoeira para haver diferenciação floral, é preciso entre 100 a 400 horas de frio, explicam Armindo Rosa e João Costa, técnicos da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve.

Os terrenos estão bem cuidados e o desafio é otimizar a produção das melhores variedades de árvores de fruto, para lançar as sementes de uma agricultura de ponta. «A alfarrobeira, a figueira e a amendoeira foram durante décadas, uma fonte importantíssima de rendimento para os agricultores de toda a região. A partir de certa altura, os preços baixaram muito e a sua cultura deixou de ser interessante. Quase que entrou em decrepitude», explica João Costa, engenheiro agrónomo no Centro de Experimentação Agrícola de Tavira.

«Acontece que nos últimos anos, o preço do miolo da amêndoa, passou dos três euros por quilo, para os nove euros. Triplicou porque a Califórnia, o grande produtor mundial, teve problema de falta água», o que está a trazer de novo o interesse pela amendoeira. «Posso dizer que no Alentejo, neste momento, já existem 2000 hectares de novas amendoeiras plantadas e pretendem chegar aos 10 mil, com a água do Alqueva». Isto é possível, porque centros de experimentação de França, Espanha e Estados Unidos têm desenvolvido «variedades de floração tardia que permitem alargar o território da amêndoa para zonas desfavorecidas em termos de clima, onde antigamente não era possível fazer esta produção».

«No Alentejo, neste momento já existem 2000 hectares de novas amendoeiras plantadas, e pretendem chegar aos 10 mil, com a água do Alqueva. Estas variedades de floração tardia permitem isto. Há uns anos, nem se falava nisso!», explica João Costa.

A qualidade? Já é uma história diferente. «A amêndoa do Algarve era a melhor do mundo. A alta doçaria belga queria amêndoa algarvia, porque era muito rica em açúcar e em gordura. Isso fazia a diferença. Era uma amêndoa produzida em sequeiro, não havia a influência de água. Claro que hoje, estão a produzir-se amêndoas de regadio, as características organolépticas terão que ser diferentes. Não é a mesma coisa». «Mas há mais produtividade. Faço aqui um pomar de amêndoas em regadio e tiro duas toneladas e meia, a três, por hectare. Os pomares de sequeiro que se veêm por aí, tiram 300 a 400 quilos de amêndoa por hectare». João Costa diz não ter dados para afirmar que a otimização da rentabilidade sacrifica a qualidade. Mas admite que alguma coisa há-de mudar.

No Centro de Experimentação Agrária de Tavira há 120 variedades de amendoeiras. Algumas autóctones, outras importadas. Os técnicos estudam, em comparação, o seu desenvolvimento. Um processo que começou em 2011.

«Percorremos o Algarve todo, de Barlavento a Sotavento, do Litoral à Serra, acompanhados pelos agricultores. Fizemos a recolha de todo o material, em três fases. A primeira foi pesquisar e georreferenciar a localização nos campos. A segunda fase foi recolher material para reproduzir essas variedades e a fase três foi plantar e efetuar as coleções. Hoje temos 44 variedades de alfarrobeiras, 97 de figueiras, 19 de nespereiras, 26 de pêro de Monchique e 78 de romãzeiras», contabiliza.
«Agora estamos na fase quatro, que é estudar e caracterizar todo este material. Está praticamente no fim, precisamos de mais dois ou três anos. Já temos muita opinião. Algumas plantas são boas, outras não. A fase cinco será os agricultores utilizarem o que de melhor temos. Claro que isto dependerá do interesse dos produtores e dos viveiristas», admite.

Reserva genética da agricultura algarvia
O Centro de Experimentação Agrária de Tavira tem 28 hectares, está dentro do perímetro da Associação dos Beneficiários do Plano de Rega do Sotavento do Algarve e tem água com pressão. Além das coleções de árvores de fruto tradicionais, tem 11 variedades de oliveiras (adaptadas a consumo em fresco ou conserva ou dupla aptidão), uma vinha com 98 castas de vinho branco, 84 de vinho tinto, 56 de uva de mesa tinta e 52 de uva de mesa branca. «Durante muitos anos, a vitivinicultura esteve abandonada no Algarve. A ideia da coleção é garantir que as castas não se percam. Agora vamos ver quais as que têm interesse comercial, que poderão ser reproduzidas por viveiristas», explica o técnico Armindo Rosa. No que toca às uvas de mesa (sobremesa), «temos um repositório, que a nível nacional é único».

Em Tavira há uma coleção das variedades amêndoas que existem espalhadas por todo o Algarve, mais as principais de Espanha, França e EUA «para comparar com as nossas».

«Todas as castas que estão autorizadas para fazer vinho no Algarve estão aqui representadas, para os agricultores verem como é que elas se comportam». Por exemplo, quem quiser ver como a casta «Alvarinho» se comporta no Algarve, tem essa informação disponível aqui. «Por outro lado, temos todas as castas do encepamento algarvio e que estão autorizadas para produzir vinhos DOC. Depois temos ali mais 70 variedades que descobrimos no âmbito do projeto Sulcastas (ver caixa). É um trabalho muito importante, pois estamos a evitar que estas coisas se percam. Se não fizessemos este trabalho, estas variedades perdiam-se. Se for ao campo, já ninguém sabe os nomes. As pessoas mais antigas é que sabiam», admite João Costa.
No entanto, a atividade do centro não se esgota em ser um museu vivo, mas em testar técnicas modernas, com vista a rentabilizar a produção. É exemplo a alfarroba, espécie que tem merecido a aposta de muitos jovens agricultores. «A produção média de alfarroba é de 3 a 3,5 toneladas por hectare. Aqui usamos tecnologia de ponta, rega gota-a-gota, fertilização controlada, herbicida nas linhas para não haver concorrência de ervas, arrelvamento das entrelinhas, e um compasso adequado (8 por 6). Usamos 48 metros quadrados por árvore, para que não haja interferências entre vizinhas em termos de luminosidade, de arejamento, de polinização. Estamos a preparar as árvores para se colher fruta do chão, porque à maneira antiga é para esquecer». A meta é chegar às 10 toneladas por hectare.

«Uma alfarrobeira enxertada, plantada, lendo a bibliografia, diz-se que começa a produzir ao quinto ano. Já observei aqui que começa a produzir ao terceiro ano», revela João Costa.
«Hoje ninguém pode pensar em fazer figueiras para produzir 500 quilos de figo. Tem de produzir 5 toneladas de figo seco e 15 toneladas de figo fresco. Ninguém pode pensar em plantar amendoeiras, sem ter como objetivo produzir três toneladas de amêndoa, como se faz na Califórnia. Essas são as metas que temos de conseguir», considera. É importante perceber para o sucesso dos investimentos.

«Há agricultores que arriscam e as coisas resultam mal. Já vieram aqui pessoas que viajaram pela Turquia e Israel à procura de figueiras. Plantaram mais de 100 hectares. Mas como não estavam adaptadas, não frutificavam. Possivelmente eram figueiras que precisavam de polinização e não tinham as condições. Às vezes fazem-se investimentos e quando não se consultam os técnicos, há grandes asneiras. O mesmo pode acontecer com as amendoeiras. Pode haver árvores que são muito produtivas numa determinada região, mas isso não quer dizer que aqui se comportem da mesma forma. O problema é que estes estudos demoram bastante tempo. Embora nós gostássemos de ter respostas rápidas, a natureza não se compadece», diz Armindo Rosa. «É preciso tempo».

Acerca das coleções, «só temos três plantas de cada variedade. Quando é a altura das podas, nós arranjamos material para os agricultores. Temos tudo georreferenciado em GPS, onde as árvores estão no campo caso haja necessidade de mais material. Mas a nossa intenção é que vá para viveiristas para estes prepararem plantas de qualidade», conclui João Costa.

2016 foi atípico mas alterações climáticas já se fazem sentir

Espalhadas pelo Algarve, há 14 estações meteorológicas que, segundo João Costa, engenheiro agrónomo no Centro de Experimentação Agrária de Tavira, fazem «uma radiografia climática da região». Isto permite saber, em médias, as «horas de frio» (ou seja, temperaturas abaixo dos 7,2ºc), contabilizadas entre 1 de novembro e 15 de fevereiro, indispensáveis para o ciclo de muitas plantas. Por exemplo, uma amendoeira para ter diferenciação floral, precisa entre 100 a 400 horas de frio. 2016 foi particularmente atípico. «O ano passado tivemos 11 horas de frio aqui em Tavira. Em Alte, que é a estação mais fria, contabilizou 180 horas de frio. Em 2014, tinha registado 400 horas de frio. E aqui, em vez de 11, tivemos 190. Está a ver? Há uma abrupta alteração climática», explica.

A amendoeira deveria florir aqui na última década de fevereiro, primeira década de março, para não haver problemas de geadas, mas em janeiro está tudo florido. Se vier um frio a seguir queima tudo. Contudo, as novas variedades de floração tardia, , desenvolvidas em Espanha, França e EUA permitem fazer a cultura noutras zonas onde o clima não é tão favorável.

«Isso é notório ao nível das chuvas. O clima do Algarve era caracterizado por um semestre seco e um semestre húmido. Durante seis meses chovia e o solo armazenava água para as plantas. Havia como que um equilíbrio. Agora chove em três meses o que antigamente chovia em seis. E depois temos nove meses de seca. Esta diferença, desta decalage faz toda a diferença. É por isso que hoje é praticamente impossível fazer produções de sequeiro», explica.

Abacate na moda e pistácio apetecido

João Costa, engenheiro agrónomo no Centro de Experimentação Agrária de Tavira, diz que na região, «os citrinos continuam a ter muito interesse, tal com o dióspiro. Mas o abacate está a ter uma expansão brutal na região» e já há boas produções, por exemplo, na zona de Mar e Guerra, em Faro. Há até problemas, pois «o sector viverista não está preparado para satisfazer as necessidades do mercado. Quem quer abacates só terá entrega de plantas em 2020. Está tudo esgotado».

Na opinião deste técnico, «a nível das culturas subtropicais, os agricultores estão a ir pelo bom caminho, pois pedem-nos pareceres sobre o enquadramento climático dos locais onde querem plantar os abacates», antes de submeterem os projetos a financiamento. «Se for em zonas com média possibilidade de geada, aconselhamos as variedades da raça mexicana que tem mais resistência ao frio. Se não houver este risco, a variedade Hass, que é a mais comercial», diz, defendendo uma boa «correspondência entre técnicos e empresários agricultores». Outra cultura alternativa que poderá vingar no Algarve é a de pistácio. «Possivelmente dá-se bem nalgumas zonas do interior e do barrocal algarvio e poderá vir a ter interesse. Há variedades que só precisam de 400 horas de frio», tal como acontece, por exemplo, a norte de Loulé.

Projeto para o futuro… sem perspetivas de futuro

As coleções patentes no Centro de Experimentação Agrária de Tavira resultam de duas iniciativas da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAPAlg), entre 2011 e 2015, apoiadas pelo Programa de Desenvolvimento Rural (PRODER): o Projeto FRUTALG, intitulado «Prospeção, Recolha, Conservação e Caraterização de Variedades Tradicionais de Fruteiras Algarvias com Interesse para a Agricultura Portuguesa» e o Projeto SULCASTAS, denominado «Prospeção e Caraterização da Variabilidade Genética de Castas de Videiras Autóctones nas Regiões do Alentejo e Algarve». «O que está aqui é uma reserva genética. Nos salvaguardamos o passado, precavendo o futuro», considera João Costa, responsável pelas alfarrobeiras, amendoeiras e figueiras. No entanto, numa altura em que está perto de ser reformar, teme pela continuidade do trabalho. Quem o substituirá? «Isso é uma questão que tem sido colocada a nível superior. Toda a gente concorda, mas há grandes dificuldades em admitir novo pessoal. Não sei como é que isso se resolverá. Ainda aqui há pouco tempo tivemos cá um secretário de Estado e transmitimo-lhe isto que estamos a dizer, não é segredo nenhum».

O que marca a qualidade da amêndoa?

«Amêndoa de casca dura, amêndoa molar, amêndoa coca e amêndoa amarga. Dentro destes grupos, há variedades com o fruto mais redondo, mais pequeno, mais comprido ou mais miúdo», explica João Costa. Do ponto de vista do produtor, «o importante é o rendimento em miolo. Porque se for um fruto com uma casca muito dura e grossa e um miolo pequeno, não interessa. Deve ter pouca percentagem de miolos duplos, porque esse é um sinal de falta de qualidade. O miolo deve ser perfeito». Também a variedade é importante conforme o uso a que se destina, para o doçaria, ou para a indústria dos aperitivos. A «Lourencinha», «Ferragudo», «Bonita» ou «Boa Casta» são algumas das típicas do Barlavento. Por outro lado, a «Molar da Fuzeta», a «Cacela-Manta Rota» crescem melhor a Sotavento. O trabalho de recolha ainda não está fechado e quem tiver uma árvore excecional, pode e deve chamar os técnicos do Centro.

Centros congéneres

Já antes de terem candidatados os projetos ao PRODER, os engenheiros agrónomos da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve recolhiam as fruteiras mediterrânicas do Algarve. No Centro de Experimentação Agrária de Tavira há hoje 120 variedades de amendoeiras, 280 castas de videiras. Só de figueiras existem 97 espécies diferentes, 22 nespereiras, 44 alfarrobeiras, 78 romãzeiras e 280 castas de videiras. Nos serviços centrais, no Patacão, está também situado o maior banco de citrinos do país, com 227 variedades. Em relação ao resto do país, os técnicos destacam a Estação Vitivinícola Nacional, em Dois Portos (Torres Vedras), e a Estação Vieira Natividade, em Alcobaça.

Dia aberto para provar 97 figos diferentes

O Centro de Experimentação Agrária de Tavira tem vindo a colaborar com o projeto Dieta Mediterrânica, a promover seminários e dias abertos. Este ano, João Costa gostaria de convidar o público na «época do figo, em julho, durante a época da uva de mesa, em agosto/princípio de setembro». Há figueiras do grupo São Pedro, esmirna, cachopeira, centenária, marquesa, carvalhal, o bruxezado braco, bruxezado preto, castilhano branco, castilhano preto, cotea, euxárias preta (principal feita na zona de Lagos) e verdilhano.

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