Culatra rumo à independência energética com projeto da Universidade do Algarve

Projeto-piloto pretende tornar a comunidade autossuficiente através do uso combinado de tecnologias maduras de microgeração solar e eólica.
André Pacheco, Sílvia Padinha, Theo Moura e Luís Augusto Fontinha.

A ideia vai ser apresentada pela equipa de Energias Renováveis Marinhas (MORE – Marine OffShore Renewable Energy Team) do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve (UAlg) durante o seminário «RIS3 Algarve: Caminhos para a Competitividade e Especialização Inteligente Regional», na quarta-feira, 14 de novembro, às 14h30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Albufeira promovido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve. Mas para já, André Pacheco e Cláudia Sequeira levantam um pouco o véu ao «barlavento».

«A principal entidade promotora é a Enercoutim, uma associação empresarial que tem desenvolvido várias soluções de protótipo demonstradoras de energia solar. É a que nos interessa captar. A energia eólica será complementar, mas o que será mais interessante neste caso é a criação de uma rede inteligente (smart grid) para a gestão dos recursos. Poderá utilizar a energia solar quando está no seu pico máximo disponível, e a eólica noutros casos. A solução que estamos a discutir não é instalar um aerogerador de grandes dimensões na Culatra. Estamos a pensar em soluções de micro-geração, integradas em série para produzir energia suficiente para o autoconsumo da ilha, num conceito de comunidade energética sustentável, que é um conceito inovador em Portugal», avança André Pacheco, investigador do CIMA.

O projeto surge em linha com o contributo da Comissão Junker para a Cimeira «Um planeta», que decorreu em Paris, em dezembro de 2017, mais precisamente a iniciativa «Energias limpas para as ilhas europeias» (medida 1.4).

«As ilhas são mercados pequenos e por isso são fulcrais enquanto locais onde podem ser testadas novas soluções para a transição energética, isto é, para a independência dos combustíveis fósseis. São uma oportunidade para testar novos conceitos que permitam a estas comunidades viver de forma autónoma. Soluções que podem vir a ser replicadas noutros municípios, ou num grande concelho divido em comunidades sustentáveis».

Por outro lado, a motivação «foi o querer trabalhar com a comunidade, e não apenas escrever artigos científicos e candidaturas a projetos. Tentar fazer qualquer coisa prática. Nesse sentido, acreditamos que a Universidade pode, com a ajuda do CRIA (Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia) e das estruturas de transferência de conhecimento, chamar empresas para nos ajudar a concretizar algo que é do seu interesse».

Além da Enercoutim «que nos apoiou bastante, temos o apoio da Iberwind» e poderão juntar-se mais parceiros. «Se conseguirmos efetivamente transformar isto num projeto emblemático, será mais fácil replicá-lo», considera André Pacheco. Por exemplo, «a Costa Vicentina tem um potencial eólico enorme. Um dos parques mais produtivos do país é o da Lagoa Funda, em Vila do Bispo. O Algarve tem de olhar para estes recursos. Não pode ser apenas um papel escrito, ou discutir a eficiência energética das unidades hoteleiras. Tudo isso é importante, mas temos de pensar nas comunidades, nas pessoas que vivem na região», sublinha.

Legalização do núcleo piscatório viabiliza o projeto

De certa forma, a ideia é «tentar fazer com que a Culatra deixe de ser compradora de energia e passe a ser produtora. O excedente poderá contribuir para a rede, ou para outros processos e soluções que poderão potenciar as atividades da ilha, mas de uma forma sustentável do ponto de vista ambiental», diz André Pacheco.

«O que imaginamos é algo que vai crescer. Como estamos a falar de um ambiente bastante sensível no Parque Natural da Ria Formosa, não vamos construir uma central solar em contexto de ilha-barreira. A ideia, ou sonho, a forma como idilicamente encaramos o projeto é termos uma central de autossuficiência, que significa gerar energia, armazená-la e reutilizá-la para outros processos», como por exemplo, a gestão e tratamento dos resíduos.

E até o turismo poderá vir a tirar partido. «Vamos imaginar que temos uma ilha verde. Passará a ser, um polo de atração. O projeto foi pensado no Algarve, numa ilha onde até há pouco tempo queriam tirar as pessoas de lá. É verdade que vivem numa zona de risco, mas tomam essa opção de viverem naquele local, seja pelas razões sociais, culturais, mas já que ali vivem, devem continuar a viver de forma sustentável e serem capazes de tirar o máximo proveito dos elementos».

Quando a equipa do CIMA começou a planear o projeto «uma das grandes dificuldades era saber se seria reconhecido à Culatra o estatuto de comunidade piscatória. Era uma dificuldade porque não vamos pensar numa central de energia renovável para uma ilha onde as habitações estavam ilegais e com grande probabilidade de virem a ser demolidas. Tínhamos consciência disso. Portanto, acabou por ser uma excelente notícia. Sabíamos que mais tarde, ou mais cedo, seria reconhecido o direito, histórico e cultural, daquelas pessoas ali viverem, enraizadas da forma como estão na Ria Formosa».
O primeiro passo será a realização de «um estudo de viabilidade económico-financeiro» para se chegar aos financiamentos que hoje estão disponíveis. «O projeto Culatra 2030 está alinhado com todas as políticas europeias, nacionais e regionais. Se não houver dinheiro para o executar, é porque há falta de vontade política», conclui André Pacheco.

Associação de Moradores com olhos postos no futuro

Ouvida pelo «barlavento», Sílvia Padinha, presidente da Associação de Moradores da Ilha da Culatra, confirma a intermitência no abastecimento. «A eletricidade chega através de um cabo subaquático que atravessa a Armona, parte da Ria Formosa e o cordão dunar da Culatra. Nos últimos anos temos tido algumas dificuldades porque o cabo já ultrapassou o tempo de vida útil. Houve uma altura em que as falhas de luz eram frequentes. Agora, caso aconteçam, temos um gerador disponível para qualquer situação de emergência», conta. Em relação a este projeto «ficámos muito felizes pelo facto da equipa do CIMA ter pensado na Culatra para implementar um projeto-piloto. Primeiro, porque vivemos dos recursos naturais e faz todo o sentido podermos aproveitá-los mais e melhor. A perspetiva de a vida na Culatra poder vir a ser sustentável e autónoma, fará com que possamos ficar mais protegidos em relação ao futuro, que terá de passar pelas energias renováveis», considera. «Qualquer pessoa que tenha sentido de responsabilidade em relação ao dia de amanhã, vê isto com interesse. Estamos entusiasmados. E a nível económico, também será bom reduzir os custos energéticos e aproveitar os excedentes».

Empowerment da comunidade local e oportunidade para a investigação científica

Cláudia Sequeira, docente do departamento de engenharia mecânica e investigadora do CIMA e especialista em energia eólica, não esconde a «empatia» pela Culatra. «Por causa da sua fragilidade, enquanto comunidade. Sabemos que há intermitência no abastecimento de energia. Não queremos isso. Pretendemos que as pessoas que lá vivem tenham o máximo conforto, como se estivessem em terra. Outro ponto-chave é que estamos inseridos numa Universidade e todos os equipamentos que iremos instalar servirão, no futuro, como elementos de estudo para formação avançada, por exemplo em teses de mestrado, doutoramento ou projetos finais de curso. Haverá sempre uma componente de investigação que tem a ver com energias marinhas, biocombustíveis, algas, biomassa, mas o foco principal são tecnologias maduras, perceber como é que se podem interligar e otimizar».

«A investigação será feita, com outros centros e até com outras unidades orgânicas da Universidade. No fundo, queremos que seja um projeto de aplicação mas com uma componente sobre aquilo que poderá ser feito no futuro. Por exemplo, no ano passado, colocámos uma turbina de maré que esteve a gerar energia e dados sobre as correntes da Ria Formosa. Não sabemos ainda os resultados finais, mas é algo que estamos a trabalhar com a Faculdade de Economia. Estamos realmente a procurar outras áreas que trabalhem em energias novas, de grupos de trabalho académicos e a chamá-los» para participar.

Por outro lado, uma inovação do Culatra 2030 diz respeito aos moradores. «Queremos formá-los para cuidarem dos seus equipamentos. Sentirem que são seus. A partir do momento em que as pessoas são responsabilizadas e sabem como manter, vão cuidar melhor. Isso implica capacitação, um empowerment da comunidade. Isto é um projeto para todos», conclui Cláudia Sequeira.

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