Conserveira do sul lança marca vintage «Júpiter» no verão

Marca registada em 1947 vai ser relançada seis opções de peixe em azeite biológico. Esta nova gama e um núcleo museológico são as apostas para 2018.

Com a implementação de novas certificações de qualidade e higiene em curso, não é, nem vai ser fácil ao público espreitar o trabalho diário na linha de produção da Conserveira do Sul, na zona industrial de Olhão. Em boa verdade, isso não será um obstáculo ao conhecimento ou ao paladar.

Junto ao Jardim Patrão Joaquim Lopes e em frente ao cais de embarque para as ilhas-barreira, ao lado da loja da fábrica, está a ser montado um pequeno núcleo museológico, equipado para fazer a degustação de conservas das marcas «Manná», «Manná Gourmet», «Good Boy» e muito em breve, «Júpiter». Esta última data de 1947, mas em breve terá uma nova vida. «É uma marca muito anterior à fundação da própria Conserveira do Sul. Fazia parte do portefólio da primeira empresa do meu bisavô, a Ferreira Júnior & Irmãos, Lda, que ele criou para si e para os filhos», explica Sara Costa, do departamento de comunicação e marketing, e bisneta do fundador, António Jacinto Ferreira.

Sara Costa.

«Até ao verão, a Júpiter será relançada com uma gama de filetes de cavala, filetes de carapau, filetes de atum, barriga de atum e sardinha (inteira ou sem pele) em azeite biológico», revela.

«Temos vindo a apostar na diversificação e em novas propostas de sabor», até porque o mercado está disponível. «Se calhar, há algum tempo, ninguém queria provar filetes de cavala em molho de mostarda», mas hoje «é das nossas conservas mais vendidas da gama gourmet». Até já foi premiada num concurso nacional. A ideia de recuperar as coisas boas do passado é uma estratégia que tem dado bons frutos. Em outubro de 2015, foi relançada a marca «Good Boy», inicialmente produzida em 1950. Agora, 68 anos depois, o rótulo das latas continua a mostrar o logótipo original, com o retrato à moda antiga de um menino (Jorge Ferreira, filho mais novo de António Jacinto Ferreira, e pai do atual diretor comercial da empresa). A gama é dirigida a um nicho mais exigente e reza a memória que «ele não era um good boy, mas um malandreco», brinca Sara Costa.

Ainda em relação ao novo espaço que tem vindo a desenvolver nos últimos dois meses, a responsável explica que «não é um museu, mas uma sala de exposição. Não dá a conhecer toda a indústria conserveira que existiu em Olhão, mas sim a de uma das únicas fábricas sobreviventes. Está muito crua. Há muitas coisas que queremos mostrar. Por exemplo, a primeira mesa onde se produziu o patê de sardinha» da Conserveira do Sul, ainda hoje o produto mais popular, quer no mercado interno, quer no estrangeiro.

Até 1996, toda a produção era feita no edifício que alberga a loja e este novo projeto museológico. Só então foi deslocalizada para novas instalações, mais próximas da lota e do porto de pesca de Olhão. «Chegámos a ter uma frota de cinco embarcações», recorda Sara Costa. Restam as placas que as enviadas levavam na chaminé, exibindo o lema fortuna audaces juvat. No espólio, ainda restam as últimas contas no quadro onde os mestres competiam entre si, colocando os números das pescarias, a derradeira prova da perícia das redes e do favor (talvez divino) das marés.

A um canto está a antiga cravadeira que selava as latas estanques e a cadeira de uma operária, sendo este um objeto de carinho. «O nosso fabrico, a colocação do peixe na lata sempre foi um trabalho de mulher. Mantemos o processo tradicional. E porquê a mão feminina? Porque é mais sensível e mais hábil que a do homem. Por isso é ideal para trabalhar o pescado. Faz toda a diferença. Há empresas que a substituíram por máquinas, mas não é a mesma coisa», garante Sara Costa. Explica ainda que a conserva «é uma fonte de alimentação muito saudável onde conseguimos garantir que 70 por cento da capacidade nutricional do peixe fica contida dentro da lata».

Longe do mar, natural de Beja, António Jacinto Ferreira começou negociar peixe aos 9 anos de idade. Aos 15 chega a Olhão, em 1918, com a ideia de abrir um armazém de salga para fornecer os clientes no Alentejo. O primeiro dia no Algarve é rápido, monta armazém e começa a carreira que o levará ao mundo. Ainda hoje a exportação é uma valência importante nas contas da fábrica. Está tudo resumido «numa banda desenhada sobre um miúdo com uma visão de negócio incrível. É uma história de vida que relata o sucesso, mas também os desafios e as dificuldades que o meu bisavô enfrentou. Para nós, é muito gratificante que as pessoas a conheçam», quer em português, ou na versão em inglês. A ideia é que no futuro, possa evoluir para um suporte digital. Para já, o núcleo só funciona com marcação «porque sentimos que ainda não pode ser visitado sem o nosso apoio. Ainda não tem informação suficiente», lacuna que num futuro próximo estará resolvida.

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