Clubes algarvios apostam no eSports

Apesar da competição digital apenas estar reconhecida pela Federação Portuguesa de Futebol desde junho de 2017, Farense e Olhanense já criaram equipas virtuais. Outros clubes da região também estão a aderir.

«O crescimento vai ser enorme, isto ainda é apenas o princípio no nosso país. E mesmo assim já existe a RTP Arena, que transmite competições e reportagens sobre eSports. Tal como como no futebol real, a grande maioria dos jogadores tem no seu contrato uma cláusula de rescisão para prevenir saídas inesperadas», explica Alexandre Rocha, consultor fiscal de 29 anos.

Sob o nickname «alexRhasta» nos jogos, é o novo diretor da secção eSports do Sporting Clube Farense, o mais recente clube algarvio a entrar para o mundo do futebol português virtual.

Plantel eSports do Sporting Clube Farense – Foto: Nelson Ferreira

Numa explicação simples, entende-se por eSports, a modalidade que integra os jogadores que, de forma individual ou coletiva, disputam torneios competitivos através da Internet (ou offline) vinculados, obrigatoriamente, a clubes reais, como, no caso do Algarve, o Olhanense, o Farense, o Quarteira e o 11 Esperanças, de Faro.

Os jogos são realizados no FIFA 19, conhecido simulador de futebol e um dos títulos mais vendidos a nível mundial. Aliás, este software é um dos grandes esteios do conceito eSports, servindo de porta de entrada aos clubes de futebol para um competitivo mundo virtual, dominado pela Playstation, mas com opções para PC e Xbox.

«Digo mais – existem muitos indícios de que o eSports vai ser modalidade olímpica, a iniciar em Paris, nas Olimpíadas de 2024. Decorrem hoje muitas conversações nesse sentido. Penso que explica a importância e o potencial desta modalidade», sublinha Alexandre Rocha ao «barlavento». Aliás, algo que não passou despercebido à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) que criou uma divisão exclusiva para acompanhar a expansão do futebol virtual e, sobretudo, para abraçar e regular todos os projetos de clubes nacionais que queiram entrar neste mundo através do FIFA.

Ainda assim, Alexandre Rocha esperava encontrar resistência ao projeto. «Jogámos o barro à parede com baixas expetativas, mas o Farense era mesmo o clube que queríamos representar. A verdade é que os dirigentes aceitaram e ficámos bastante felizes!», sublinha.
No dia 10 de novembro, o Farense apresentou a sua equipa virtual no intervalo de um jogo do plantel principal, frente ao Vitória de Guimarães B, em pleno Estádio de São Luís.

Ouvido pelo «barlavento», Pedro Ferreira, diretor de marketing do emblema de Faro, afiança que «o eSports é uma modalidade com grande potencial para atrair jovens ao clube, e para promover e dinamizar o Farense nas redes sociais».
O dirigente refere que «este é o ano zero, vamos ver como corre, mas as perspetivas são bastante boas». Quanto à disponibilidade do clube para acolher esta novidade, Pedro Ferreira é taxativo, afirmando que «a aceitação foi quase imediata. Apareceu alguém que se dispôs a liderar uma secção inovadora e excelente para aumentar a visibilidade do Farense em todo o país».

A nova época do eSports está agora a começar e promete momentos intensos. Vão disputar-se os jogos qualificadores, indispensáveis para alistar os clubes pelas diferentes ligas.

Olhanense com máquina bem oleada

Equipa Virtual do Sporting Clube Olhanense

Apesar da vertente eSports ainda ser novidade em Portugal, reconhecida pela Federação Portuguesa de Futebol em junho de 2017, o Olhanense já a leva muito a sério.

Izequias Valentim, um trabalhador estudante de 28 anos que se tornou diretor da secção eSports do Olhanense, juntou a paixão pelos videojogos à do clube da terra. Apesar de residir em Braga, a distância não foi impeditiva para a concretização do projeto. Conhecido no meio virtual por «DjuFebre», pegou no seu grupo de «amigos de jogo», juntou-lhe Nuno Almeida (que, entretanto, saiu para o projeto virtual do Vitória de Setúbal, mas que foi peça fundamental nas conversações com o Olhanense, sendo um dos jogadores mais carismáticos e respeitados no seio do plantel virtual) e propôs o projeto ao clube de Olhão.

«DjuFebre», o jogador virtual de Izequias Valentim

As movimentações iniciaram-se em junho, com a organização de uma competição que serviu de apresentação do projeto eSports – a Taça «José Arcanjo», competição que acabaria por ser ganha pelo Canelas 2010, equipa do concelho de Vila Nova de Gaia que, no mundo real, milita na Divisão de Elite da Associação de Futebol do Porto.

A equipa virtual é gerida por quatro elementos que desempenham funções-chave. Além de Izequias Valentim, que toma as decisões e orienta os treinos de segunda a quinta-feira, das 20h00 às 23h00, há o técnico adjunto Francisco Viegas, que coordena os jogos, elabora os planos semanais e controla a disciplina do plantel.

O secretário-geral Diego Mathews, a quem cabe tratar das questões burocráticas, como, por exemplo, a inscrição da equipa nas diversas competições. E por fim, Pedro Rodrigues, diretor desportivo, cuja função é detetar jogadores que podem ser interessantes para a equipa. Cabe-lhe ainda dinamizar o marketing e as redes sociais da equipa, e as plataformas de divulgação, como o youtube, onde a equipa transmite os jogos.

Izequias Valentim valoriza «o escape que isto nos proporciona aos problemas do dia a dia, e principalmente o companheirismo e os laços de amizade que se criam entre todos nós».

Prémios entre 5 e 10 mil euros

«Há quem pense que isto é uma brincadeira, mas não é verdade. A média etária da nossa equipa ronda os 28 anos. O nosso jogador mais novo tem 16 e o mais velho 32», revela o dirigente Alexandre Rocha, diretor da secção eSports do Sporting Clube Farense. E prossegue: «a participação nas competições é gratuita, mas há prémios. Por exemplo, nas competições promovidas pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), os prémios vão dos 5 aos 10 mil euros. Estes valores são para a equipa dividir pelos jogadores», conclui Alexandre Rocha.

As competições são patrocinadas por grandes empresas. O dinheiro já motiva entusiastas do gaming a viver desta atividade. Os jogos podem disputar-se online através da Internet, mas também fora da rede, em disputas presenciais, por exemplo, disputadas na Cidade do Futebol da FPF, localizada no complexo do Jamor, em Oeiras.

Farense dá regalias reais nos jogos virtuais

Alexandre Rocha, diretor da secção eSports do Sporting Clube Farense, refere que «estamos a acertar alguns pormenores com a administração da SAD, mas à partida vamos obter o estatuto de sócios não-pagantes. Vamos também receber uma camisola oficial, que poderemos utilizar nas competições, dando visibilidade ao clube e aos patrocinadores. Mas no fundo, a maior retribuição que temos é representar este emblema histórico» no universo virtual.

eSports pode ser profissionalizado

Alexandre Rocha, diretor da secção eSports do Sporting Clube Farense, o mais recente clube algarvio a juntar-se ao mundo do futebol virtual, admite que a profissionalização poderá vir a ser uma realidade. «Gostaríamos de lá chegar. Mas isso exige tempo. Ainda estamos no início» desta nova dinâmica.

Por sua vez, Izequias Valentim, diretor da secção eSports do Olhanense, é mais ambicioso. «Por agora apenas as maiores equipas de gaming conseguem viver disto, mas, para o nosso clube, a profissionalização é um objetivo de curto/médio prazo», revela.

Farense e Olhanense recrutam

Qualquer interessado em juntar-se ao plantel virtual de um clube, precisa de ter alguns elementos básicos – uma consola PlayStation 4 (por enquanto, a plataforma mais utilizada), o jogo FIFA 19, uma subscrição PS Plus (que permite jogar online mediante uma anuidade, e também dá acesso a jogos gratuitos) e o acesso a um servidor através da aplicação Discord, para comunicação de voz entre os membros da equipa.

Este software também é o canal utilizado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) para promover as reuniões com os capitães das equipas. Cumpridos estes requisitos, é então possível a candidatura às equipas. No caso do Farense, e também do Olhanense, ambos os projetos de eSports estão direcionados para o modo ProClubs, ou seja, só permite jogos virtuais no coletivo, com 22 jogadores em simultâneo.

Em ambos os clubes algarvios, o recrutamento para as equipas é anunciado nas redes sociais. No caso do Farense, Alexandre Rocha explica que «são organizados eventos de captação, nos quais misturamos candidatos com jogadores nossos, já experientes, suplentes ou titulares». De seguida, «gravo o jogo, que pode ou não ser transmitido no youtube. Depois, com calma, analiso tudo e decido quem tem qualidade para ingressar» no Farense virtual.

O Olhanense também valoriza o boca a boca, isto é, os conselhos de amigos que convidam outros amigos, ou então, de jogadores que sugerem outros ao diretor da equipa virtual. O clube de Olhão conta ainda com um diretor desportivo que faz «prospeção de talentos», reportando ao team manager potenciais reforços para integrar o plantel digital.

Categorias
Destaque


Relacionado com: