Clube União Portimonense comemora 100 anos

Tinha fama de ser elitista, mas hoje está aberto a qualquer pessoa. Tem cerca de 600 sócios, e apesar das dificuldades do presente vai assinalar o centenário «com toda a dignidade».

Pelo número 11, da Rua Nova, já passaram milhares de pessoas ao longo de 100 anos de história do Clube União Portimonense. Fundado a 24 de abril de 1917 era um espaço exclusivo e não deixava entrar qualquer pessoa que não fosse mais abastada.

Na próxima segunda-feira torna-se um verdadeiro marco centenário da cidade, após um percurso de dificuldades, mas também de dinamismo.

«No início servia as famílias ricas que viviam naquela que era a zona nobre da cidade. E manteve-se muito tempo assim. Com o 25 de Abril de 1974 abriu-se um pouco mais à sociedade. Em 2012, quando fomos para a direção abrimos as portas a todos», conta João Segurado, atual presidente do clube.

O responsável recorda que «quando era novo só lá entrava porque era músico. Se fosse pelas famílias a entrada era vedada». O pai era padeiro… uma realidade que foi mudando com o passar dos anos.

O certo é que 100 anos não se fazem todos os dias. Por isso, o presidente da direção quer assinalar esta efeméride «com dignidade», até porque o futuro é incerto. O ponto alto «será um jantar de encerramento das comemorações, no dia 29 de abril, no Casino da Praia da Rocha», que custa 25 euros para sócios e 30 para não sócios, referiu.

O objetivo é reunir um mínimo de 120 pessoas.

As celebrações estão a decorrer, desde o início de abril, no Clube União, com concertos de música ao vivo. No próximo sábado, dia 22, João Segurado, a par de outros músicos também sócios do clube, interpretará 25 músicas de Zeca Afonso, naquele que será, quase, um ensaio geral do espetáculo que vão «oferecer à Câmara Municipal, no âmbito do 25 de Abril, na Praça da Alameda», adiantou.

Até João Segurado agarrar o desafio desta direção, apenas eram realizados os bailes de Carnaval, da pinha, de aniversário e poucas outras iniciativas, como o Assalto de Carnaval, que é organizado desde a fundação do clube. O antigo presidente João Ramalho desafiou-o, em 2012, a pegar naquela coletividade. Aceitou. «Nessa altura, a renda rondava os 32 euros. Começámos a modificar e a pintar o interior do edifício, criámos um quintal com deck para iniciativas ao ar livre no verão. Um ano depois, foi criada, porém, a Nova Lei do Arrendamento Urbano (NRAU) e a senhoria aumentou a renda. Foi subindo de forma gradual e, hoje, pagamos 450 euros», revelou João Segurado.

Durante quatro anos, a direção tentou dinamizar o espaço de forma a garantir o pagamento da renda, o que tem sido uma tarefa complicada. «Temos música ao vivo todos os sábados, temos um protocolo com a Escola da Bemposta, para que os alunos com aulas em contexto de trabalho, toquem quinzenalmente às quartas-feiras no clube, temos aulas de biodança, promovemos jantares temáticos, apresentações de livros, exposições de pintura, entramos na Rota do Petisco. Tudo isto para conseguir angariar o dinheiro para a renda, todos os meses», assegurou o presidente.

Conseguiu sempre encher a casa, com bons espetáculos, encontrando músicos para tocar à consignação. «Faço a entrada a pouco mais de um euro para lhes dar, porque eu não tenho 100 ou 200 euros para pagar a uma banda, senão não consigo garantir a renda», explicou. Mesmo assim, «tive uma banda de jazz de Faro, que, no final da noite, apesar de apenas ter conseguido dar-lhe 20 euros, quando recebeu o dinheiro perguntou quando poderia atuar outra vez, porque o ambiente é porreiro, o salão é bonito e tem boa acústica», confidenciou.

O principal problema é que o associativismo vive dias difíceis. «Hoje tenho 600 sócios. Alguns deixaram de pagar as quotas, que são 15 euros anuais. Se todos pagassem não tínhamos tantas dificuldades, pois tínhamos o suficiente para a renda, para a água e luz», argumentou.

Há também iniciativas dedicadas a criar pequenas alegrias. «Nos Santos Populares, em conjunto com a Vencedora, fizemos a fogueira na rua. Os mais pequenos ficaram maravilhados por poderem saltar a fogueira, porque nunca o tinham feito. Temos a festa do Flower Power, a Rota do Petisco. Quando temos bom tempo projetamos filmes no quintal», enumerou.

João Segurado tem contado com um núcleo de sócios que tem ajudado a impulsionar o espaço, mas a verdade é que as pessoas cada vez estão mais distantes do associativismo. «Os tempos são difíceis, as pessoas não têm dinheiro», justificou.

Além disso, o clube tem uma vertente social, sempre que são solicitados para auxiliar em angariações de fundos, através de espetáculos, nunca dizem que não.

«Durante 10 anos fiz concertos no Auditório Municipal a favor da CRACEP, Bombeiros Voluntários, da Catraia, para a pintura da Igreja. No Natal, por exemplo, fazemos uma noite de angariação de bens alimentares para famílias carenciadas da cidade de Portimão»,sublinhou.

Agora, após ter conseguido relançar o Clube União Portimonense, João Segurado deverá deixá-lo nas mãos de outras pessoas. Para já, haverá eleições em maio e o presidente da direção confirma que já há jovens interessados em ficar com o projeto. «Eu quero meter malta nova ali, para ver se o clube não se perde. Estão interessados em fazer uma lista para concorrer. Fizeram festas lá e conseguiram juntar cerca de uma centena de pessoas. E é essa malta que faz falta, porque são o futuro», resumiu.

A verdade é que não garantindo verba para pagar a renda, o futuro daquela sede do clube torna-se incerto, mas o atual presidente João Segurado tem esperança que os portimonenses não deixem morrer aquele que é um ex-libris na história da cidade.

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