Cientistas «não sabem» se a Ria Formosa ainda é um santuário do cavalo-marinho

Investigadores sabem que há um decréscimo das populações e identificaram algumas das causas. No entanto, estes animais continuam presa fácil para a captura ilegal.

Em meados de novembro, na estação de autocarros de Marbella, em Málaga, três portugueses vindos de Olhão, tentam vender 7 quilos de cavalos-marinhos secos (2133 exemplares no total), por 10 mil euros. Os recetadores querem levar a mercadoria para a China, onde são usados como afrodisíacos, uma espécie de «Viagra» da medicina tradicional. Correu mal. A Guardia Civil apanhou-os em flagrante e cinco pessoas foram detidas.

No início de março, uma nova apreensão fez manchetes na imprensa espanhola, desta vez em Puerto de Santa María, Cadiz. Estas notícias não passam despercebidas aos biólogos Jorge Palma e Miguel Correia, que desde 2007 estudam as espécies Hippocampus hippocampus (focinho curto) e Hippocampus guttulatus (focinho longo), as mais vulgares na Ria Formosa.

«Sabemos que há pessoas que os capturam por meios ilegais, quer por mergulho, quer por arrasto, ambos interditos. Um dos problemas dos cavalos-marinhos é a fertilidade, que é muito baixa. O macho pode libertar 200 a 300 juvenis, mas, em meio natural, pouquíssimos sobrevivem. Toda a população acaba por não ter capacidade de gerar um descendência em número suficiente. Se forem retirados do ambiente aos milhares como estão a ser atualmente, rapidamente esta população pode entrar em colapso», explica Jorge Palma.

Estes cientistas sabem que as populações estão em declínio. «Conseguimos identificar algumas causas, quer naturais, quer antropogénicas. Um dos grandes problemas é a degradação ambiental, do habitat de fundo, o desaparecimento de macroalgas às quais os cavalos-marinhos se agarram e que precisam para estabelecer as suas colónias», explica o biólogo Miguel Correia.

Jorge Palma e Miguel Correia no Centro do Ramalhete, em Faro.

Os investigadores também verificaram que a poluição sonora provocada pelo aumento da náutica de recreio na Ria Formosa causa «stress» aos animais e altera parâmetros como o batimento opercular e o metabolismo. Há ainda outras causas naturais, «como o assoreamento das barras», mas nada é tão preocupante como a ação humana. «Os cavalos-marinhos têm cauda preênsil e agarram-se a qualquer coisa. Basta uma rede velha para os apanhar. É uma espécie muito vulnerável», acrescenta Jorge Palma.

«É muito sedentária, ocupa sempre os mesmos locais. Há zonas de habitat que são muito específicas e muito importantes. Se forem impactadas, isso pode ter consequências catastróficas» em todo o ecossistema. Na verdade, «os números nunca voltaram ao que eram no grande censo de 2001. Houve um ligeiro acréscimo, mas apenas em locais que ainda estavam preservados. Em muitos outros, continua a não haver cavalos-marinhos. O último censo que fizemos foi antes deste novo advento da procura para o mercado asiático. Nós não fazemos ideia qual é o impacto dessa pesca dirigida na Ria Formosa», sublinha.

No ano passado, a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) classificou ambas as espécies como «quase ameaçadas» (near threatened), em toda a sua distribuição, que vai deste as ilhas britânicas até às Canárias. No entender dos biólogos não é suficiente. «Deveria ser reavaliado tendo em conta que já são consideradas espécies em risco e atendendo ao facto que a Ria Formosa está a sofrer este impacto. Há argumentos para se rever o estatuto», defende Jorge Palma.

Estes investigadores candidataram-se ao «Mar 2020» para estudar a nutrição do cavalo-marinho, na sequência do trabalho de reprodução em cativeiro que desenvolvem desde 2007, no Centro do Ramalhete. Nos tanques desta infraestrutura de pesquisa científica da Universidade do Algarve gerida pelo Centro de Ciências do Mar (CCMAR) vivem hoje 700 a 800 animais. Aprofundar o estudo da alimentação será útil à conservação futura destas espécies.

Questionados sobre a Ria Formosa, os biólogos sublinham que hoje não sabem «se ainda é a maior comunidade do mundo. Não sabemos». Miguel Correia e Jorge Palma têm centrado o seu trabalho de campo entre a Quinta do Lago e Marim. «Em toda a área até Cacela Velha, não fazemos ideia o que se passa lá, do que existe, ou não existe». Por fim, os biólogos lamentam que cada vez haja menos financiamentos disponíveis para projetos de ecologia, por exemplo, para permitir um novo e aprofundado censo ao que (ainda) resta na natureza.

Recifes artificiais para reabilitar as colónias

A densidade de cavalos-marinhos chegou a ser estimada em 2 milhões de animais, no início dos anos 2000. Hoje, estão mais vulneráveis e expostos a novas ameaças. E não há dados números conhecidos. No entanto, os cientistas do Algarve têm ideias para reverter a situação. Uma solução é a criação de mini-áreas estratégicas de proteção com recifes artificiais. «Não é necessário levar animais de cativeiro, pois os selvagens procuram as condições adequadas. Apesar de serem predadores ativos, esperam que a comida venha ter com eles.

Isso acontece em zonas com mais hidrodinamismo, onde há mais correntes. Estamos a falar de áreas pequenas com 4 a 10 metros quadrados» e um pouco mais profundas. Aí seriam colocadas estruturas feitas de corda náutica que imitam as algas. «Podemos criar todo um habitat. Já vimos isso acontecer e que é exequível. A densidade sobe exponencialmente até aos 13 animais por metro quadrado», mesmo em áreas sem interesse para a pesca onde «nada existe. Ganham atratividade e não entram em competição com o meio natural», explica o investigador Jorge Palma. Os cavalos-marinhos são carnívoros, alimentam-se de crustáceos, moluscos e vermes. A espécie H. guttulatus pode medir mais de 20 centímetros e é mais abundante do que o pequeno H. hippocampus, embora este último esteja melhor adaptado a fundos de areia e conchas.

Cavalo-marinho, embaixador da ecologia

Questionados sobre o porquê de tanta dedicação a estes animais, os biólogos Jorge Palma e Miguel Correia esclarecem que «o cavalo-marinho funciona como uma espécie-bandeira e um indicador do estado do ambiente. É representativo da biodiversidade e de tudo o que impacta nos habitats. Em termos ecológicos, é muito apelativo para as pessoas. São uma espécie de relações públicas da natureza» e da necessidade imperiosa de a conservar. Talvez por isso, também a Águas do Algarve tenha escolhido este animal como mascote da Semana da Ria Formosa, que este ano, vai decorrer de 2 a 6 de maio. Trata-se de um projeto nascido da união de várias entidades com preocupações ambientais que desafia as escolas de ensino básico dos cinco concelhos abrangidos a olharem para este território.

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