Cientistas europeus discutiram alterações climáticas em Olhão

Cerca de 70 investigadores e empresários envolvidos no projeto CERES (Climate change and European Aquatic Resources), liderado pela Universidade de Hamburgo, reuniram durante três dias nas instalações do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) em Olhão, no final da semana passada, de 13 a 16 de março.

Esta entidade faz parte de um consórcio europeu que integra 26 parceiros, dos quais 18 são institutos de investigação e os restantes empresas. Pedro Pousão Ferreira, investigador, biólogo e responsável pela Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) do IPMA explica o impacto que as alterações climáticas podem ter nos recursos marinhos, em especial nas pescas e produções de aquacultura.

Pedro Pousão, responsável pela Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) mostra as sardinhas em cativeiro.

«O objetivo deste projeto europeu é antever o que poderá acontecer a espécies-alvo de peixes como a carpa, o salmão, a dourada e o robalo, mas também aos bivalves, como a ostra e a amêijoa. Para isso estão a ser desenvolvidos modelos para tentar prever, antever e minimizar os eventuais impactos», num futuro cada vez mais próximo.

Algumas das respostas já estão a ser testadas no Algarve. «Estamos a simular alterações violentas de temperatura e outras condições. Imagine se, de repente, chover durante semanas e diminuir muito o nível de salinidade da água. Qual será a taxa sobrevivência das larvas da dourada e do sargo? E se a Ria Formosa ficar quase doce? Ou se não chover durante três anos e faltar o natural fornecimento de nutrientes para o plâncton que vem com as chuvas e que são alimento para larvas de peixes, bivalves e outros organismos? Ou então, se a temperatura do mar, que hoje ronda os 20/21º no verão subir e passar a estar a 25/26º, o que acontecerá? São este tipo de simulações que estamos a realizar em pequena escala com larvas», quer na EPPO, quer na Estação Experimental de Moluscicultura de Tavira, no caso dos bivalves.

Anastasia Walter, gestora do projeto CERES, da Universidade de Hamburgo regista os tanques exteriores da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO)

Por outro lado, há que «fazer perceber aos políticos que não estamos no bom caminho. Há que tomar medidas a montante e a jusante para proteger as espécies, de modo a continuarmos a ter comida e biodiversidade no planeta».

O CERES é um projeto para quatro anos e está atualmente a meio do caminho. Envolve a divisão de aquacultura do IPMA e faz parte do programa Horizon 2020 (nº 678193). Segundo Pedro Pousão «já há conclusões, pontos de situação e novos elementos. Percebemos que há muito mais informação a acrescentar aos modelos (de previsão) do que se pensava. Por exemplo, se os fenómenos meteorológicos extremos atingirem o Perú ou o Chile, onde se pesca o alimento base da ração do salmão criado na Noruega, e o preço subir, como é que os mercados vão reagir?», detalhou o responsável da EPPO.

Em Olhão estiveram presentes «cientistas ligados à ecologia e à modelação, mas também empresários e produtores» oriundos de países como a Hungria, Espanha, Itália, Reino Unido, Alemanha, Polónia e Roménia. Na sexta-feira, 17 de março, depois da conclusão dos trabalhos, os participantes visitaram as instalações da Finisterra SA, empresa dedicada à exploração de projetos de aquacultura offshore em Sagres.

EPPO pode perder equipa e projetos

Ouvido pelo «barlavento» Pedro Pousão Ferreira, responsável pela Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) e presidente do conselho científico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) não esconde que está preocupado. Isto porque, apesar de o governo ter dado ordem para integrar os trabalhadores precários, o processo está a correr «com base em critérios que deixam injustamente cerca de 70 colegas de fora, a nível nacional». No caso da EPPO, onde há mais de 100 tanques com peixes, «o IPMA escolheu 12 (em 20 precários) das 32 pessoas que aqui colaboram diariamente, para integrar os quadros. É como você ter uma boa equipa de futebol amadora que passa a profissional, mas apenas com metade dos jogadores», ironiza. «Houve uma decisão há três semanas, o prazo para reclamar era até ao final de fevereiro. Mas até hoje, as pessoas ainda não puderam ter acesso aos processos. De qualquer forma, o número é claramente insuficiente. Deixa de fora pessoas que cobrem os 365 dias do ano», lamenta. O cenário em cima da mesa não satisfaz o responsável. «Agora, ou vão continuar precários bolseiros, fica tudo na mesma e não se resolve nada, ou então a casa deixará de funcionar porque isto põe em causa o presente e futuro da EPPO», prevê.
«Se ficamos com 60 por cento das pessoas precárias, teremos um problema de continuidade dos trabalhos, por falta de técnicos para assegurarem os fins de semana, feriados e férias. Sabemos que é necessário um reforço de financiamento a nível nacional ao IPMA (que tem um quadro de pessoal bastante envelhecido) por parte do governo para resolver esta situação. Penso que será um bom investimento, pois trará importantes retornos financeiros ao Instituto e ao país através dos projetos de investigação que se ganham», conclui.

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