Cerâmica de Santa Catarina é património vivo do Algarve

São materiais de construção artesanal únicos no mundo, produzidos pelas mãos de mestres algarvios, que se conjugam em harmonia com as tendências do design e arquitetura contemporâneas.

Em Santa Catarina da Fonte do Bispo, concelho de Tavira, ainda se produzem materiais de construção à moda antiga – ladrilhos, tijolos e telhas – feitos em barro cozido, e usados desde há décadas nas casas algarvias. Segundo Alberto Rocha, empresário e fabricante, o mais genuíno ladrilho de Santa Catarina mede 15 por 30 centímetros. Tem uma característica que o torna único e fácil de reconhecer. Apresenta, sempre no sentido do comprimento, um suave riscado largo e quase branco sobre a base avermelhada. É feito pelo artesão que auxilia na moldagem e faz o acabamento das peças, ao passar sobre elas os dedos molhados em cré, uma argila fina, de cor clara, diluída em água.

«Durante muito tempo, no que toca a esta arte, falava-se apenas em produtos regionais. Telha regional ou mourisca e ladrilho regional. Em 1985, quando montei as atuais instalações da minha fábrica de cerâmica, pensei: regional não é nada, porque não indica o nome da região. E então, comecei a colocar nas faturas os termos telha de Santa Catarina e ladrilho de Santa Catarina. O nome pegou, e todos os outros fabricantes começaram a usá-lo também. Foi quase natural porque este material, em boa verdade, tem grande qualidade estética, associada a boas propriedades térmicas e acústicas, além de muita tradição».

A crise de 2008 levou à estagnação da construção civil e várias pequenas fábricas de cerâmica tradicional fecharam portas. Sofreram sobretudo as que recorriam a instalações arrendadas e que não eram exploradas diretamente pelos seus proprietários. Hoje persistem quatro unidades: as de Alberto Rocha e Lúcio Brás Viegas, nas proximidades de Santa Catarina da Fonte do Bispo, e as de Fernando Silvério Faustino e Vidal Brito, em Julião, Fonte do Bispo.

Atualmente as encomendas têm vindo a aumentar muito, embora para já, não se anteveja a abertura de novas unidades de produção.

«Vai faltando pessoal jovem para trabalhar nisto. Para cortar, deitar e bater o ladrilho é preciso saber, para enfornar e cozer é preciso saber mesmo muito!», afirma Alberto Rocha.

«Mas este é um produto com muita identidade, conhecido e recomendado por arquitetos de renome, como Eduardo Souto Moura ou Manuel Aires Mateus, que valorizam elementos vernáculos e tradicionais nos seus projetos», explica Elisabete Rocha, filha de Alberto Rocha, que tem uma opinião mais otimista.

«Estamos a falar de um produto manufaturado com enorme conhecimento intrínseco, fruto da experiência conquistada ao longo dos anos. Estes homens não são operários indiferenciados, são artesãos e até artistas. Se conseguirmos valorizar a imagem da profissão de artesão nos telheiros de Santa Catarina, criaremos criar mais-valias para que esta seja uma profissão atrativa, e com muito futuro».

Só no início da década de 1960 emergiram os telheiros tal como ainda hoje os conhecemos. São pequenas unidades de fabrico de produtos em barro cozido, concentradas sobre o estreito filão de argilas vermelhas que integram o Complexo Vulcano-Sedimentar, a faixa de contacto entre o Algarve Paleozóico e o Mesozóico, de Vila do Bispo até Castro Marim.

O processo de produção das peças é complexo. Cada ciclo de produção demora, em geral, duas semanas. Tem início com a trituração das argilas e o amassamento do barro, operações já feitas com maquinaria moderna.
Contudo, a moldagem dos ladrilhos (e tijolos) é manual, unidade a unidade, utilizando moldes simples. Em seguida, as peças secam em chão bem nivelado, sem pressa, até estarem prontas para serem enfornadas à força de braços.

É uma tarefa que se prolonga por dois ou três dias e exige bastante experiência e mestria, para assegurar a circulação homogénea do calor no forno, que atinge temperaturas até aos 900 graus centígrados.
O trabalho de enfornar é orientado pelo mestre-do-telheiro, estatuto concedido após longos e bem sucedidos anos de dedicação. Um aspeto a não menosprezar é que os fornos são alimentados com matérias-primas locais, como a casca de amêndoa, bagaço de azeitona, serradura e desperdícios de madeira. A cozedura demora cerca de 36 horas. Após esfriarem, todos os ladrilhos e tijolos são desenfornados e escolhidos à mão.

Casa Modesta, tradição e arquitetura premiada

Com vista para o Parque Natural da Ria Formosa, a Casa Modesta, uma unidade de turismo rural em Quatrim do Sul, Olhão, reinterpreta de forma contemporânea, os saberes tradicionais produzidos nos telheiros de Santa Catarina. Uma simbiose que lhe tem valido vários prémios de arquitetura, desde que abriu portas, em abril de 2015.

Vânia Fernandes, uma das arquitetas responsáveis pela transformação da antiga casa de família, construída na década de 1940, conta que encontrou a motivação e inspiração no legado do avó Joaquim Modesto de Brito. «Há tantas memórias inscritas nestas paredes, que nós, os netos, não podíamos deixar que se perdessem. É assim que nasce este projeto de traços minimalistas e sustentáveis».

Os três netos começaram a delinear o projeto em 2011. O conceito dos espaços privilegia a utilização de materiais de produção local, enraizados na memória coletiva, de fabrico artesanal, compatíveis com o edifício antigo. «Usámos o ladrilho e a telha de Santa Catarina, a cal, o latão, a cortiça, a madeira, o tijolo de burro e a brecha». Todos estes materiais encontram-se em abundância tanto nos espaços interiores como exteriores. O teto da sala em abóboda é revestido com tijolo de burro, já o ladrilho de Santa Catarina é usado para os rodapés, deck exterior, pavimentos interior e exterior, casas de banho, cozinha e até nas banheiras inspiradas nos «banhos medicinais de Monchique». A telha em canudo de barro também provém de Santa Catarina.

«No total, são 1000 metros quadrados revestidos com materiais da região».
A prova e reconhecimento de que os materiais artesanais algarvios são intemporais e se podem fundir em perfeita harmonia com projetos modernos chegou logo em 2016, com o prémio green pratices atribuído pela Conde Nasté Johansens Awards. Em maio, a plataforma online Architizer, de Nova Iorque, premiou a Casa Modesta na categoria de «Hopitality, Hotels & Resorts».

Tavira prepara Feira da Dieta Mediterrânica

A quinta edição da Feira da Dieta Mediterrânica, um evento de referência ao nível regional e nacional, vai decorrer entre os dias 7 e 10 de setembro, em Tavira. Este ano, haverá ações apoiadas pelas entidades participantes, com especial destaque para o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, decretado pela FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. A organização, a cargo da Câmara Municipal de Tavira está a preparar «uma programação desenhada para públicos de todas as idades». Serão «quatro dias de feira institucional, mercado de produtores, artesãos, concertos, teatro e danças mediterrânicas, experiências culinárias e desportivas». O certame encerrará a presidência de Portugal, e de Tavira, do programa anual dos sete Estados e comunidades representativas da Dieta Mediterrânica como Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Fotografia de Nuno dos Santos Loureiro

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