Cabaz «FrescoMAR» leva peixe fresco a casa no Sotavento

Imagine que pode receber em casa um cabaz variado de peixe fresco da costa algarvia, capturado pela frota de pesca artesanal do Sotavento. É esta a essência do projeto Cabaz «FrescoMAR» que a Associação de Armadores de Pesca da Fuzeta põe em marcha a partir de 7 de março em Faro, Olhão e Tavira

«Isto entra nos chamados circuitos de comercialização curtos, do produtor ao consumidor, muito conhecidos na agricultura. As pessoas já estão habituadas aos cabazes da horta, aos cabazes biológicos. É igual, mas aplicado ao mar», explica a bióloga Sónia Olim, da Associação de Armadores da Fuzeta (AAPF).

O projeto do Cabaz «FrescoMAR» foi financiado a 100 por cento pelo programa «PROmar», um investimento que no total rondou os 100 mil euros. Permitiu adquirir uma carrinha isotérmica nova para a distribuição, e montar uma zona especial para a amanha do peixe, nas instalações da AAPF, na lota da Fuzeta.

«Executámos o projeto em 2015, principalmente a pesquisa para ver qual seria a viabilidade da implementação do conceito que já existe em Sesimbra e na Azenha-do-mar», explica.

«Não é fácil de interiorizar. Perguntámos às pessoas se estariam interessadas em receber um cabaz de peixe amanhado, embora sem a possibilidade de escolherem tudo aquilo que lhes vai ser entregue». Isto porque o conteúdo dependerá do peixe que houver em lota.
«Este conceito primordia, acima de tudo, a pesca artesanal. Não vamos adquirir nada da pesca industrial. Tem a ver com a sustentabilidade dos recursos», explica.

O cabaz é composto por três quilos (€22) ou cinco quilos de peixe (€36), de uma lista de 44 espécies, já amanhadas, embaladas em vácuo (para diminuir a carga microbiana), colocadas numa caixa isotérmica com gelo e entregue em morada a combinar, num prazo de captura inferior a 24 horas.

«Dá uma média de sete euros por quilo. Quem não quiser consumir tudo no dia, o peixe está pronto para o congelador, não é necessário fazer mais nada», sublinha.

«Um terço do peso do cabaz será sempre em espécies menos valorizadas, ou que não são vulgares ou fáceis de encontrar». Por vezes, serão acompanhados de receitas e sugestões de confeção. É uma forma de enriquecer a oferta ao consumidor e estimular a descoberta de novos paladares.

No entanto, na hora de fazer a encomenda, os clientes poderão escolher até três espécies que não querem receber, porque uma questão de gosto pessoal. As preferências ficam registadas na ficha individual.

Com a pequena equipa inicial, Olim estima a capacidade máxima de resposta em 20 cabazes por dia (60 por semana). A periodicidade da entrega pode ser semanal, quinzenal, mensal ou apenas uma única vez. As entregas serão feitas nos concelhos de Faro (terça-feira), Olhão (quarta-feira) e Tavira (quinta-feira). Contudo, se a procura crescer, a rota poderá crescer para outras zonas. «Sei que Sesimbra tem neste momento quase 400 consumidores, está a ser um sucesso», compara.

Preço justo para pescador e consumidor

«Um dos problemas do pescado é ser vendido a um preço muito injusto para o pescador». O atual sistema de leilão invertido em lota leva a que sejam pagos valores que são muito baixos aos homens do mar. «A ideia deste cabaz é que o pescador ganhe um pouco mais pelo seu produto e que o consumidor pague um pouco menos pelo peixe que lhe é entregue, com a garantia que foi capturado há 24 horas. Além da Fuzeta, onde abunda o polvo, temos associados da lota de Tavira, que será nossa principal fornecedora», garante Olim.

«Temos de ir à lota comprar, porque a nossa legislação não permite que o pescador venda diretamente ao consumidor. Teremos de adquirir o pescado» nas mesmas condições que os comerciantes tradicionais de peixe.

«Vamos concorrer com eles. É um leilão decrescente, quem comprar primeiro, compra mais caro. O objetivo não é eliminar a concorrência, mas valorizar o produto. Se tivermos encomendas grandes e for necessário comprar mais, vamos fazer subir o preço. Os outros terão de acompanhar» a tendência.

«De maneira à logística funcionar, vamos pedir às pessoas para encomendarem com, pelo menos, dois a três dias» de antecedência. Assim, a associação apenas comprará em lota o pescado necessário «de forma sustentável, para evitar ao máximo desperdícios e garantir a máxima frescura» na entrega.

«Tirando os pescadores, pouca gente sabe o que é peixe fresco. Muito do que temos na lota vem de Marrocos e nunca é do dia, vem da pesca industrial. Queremos divulgar o conceito de frescura, pois até mesmo nos mercados, o peixe fresco nem sempre o é. E nos supermercados, nem vale a pena falar nos dias que tem», até chegar à bancada da peixaria.

No sortido do cabaz, poder-se-á encontrar «ruivos, trombeiros, muxarrinhas, peixe-agulha, alguns tubarões como a caneja/pata-roxa, ou a raia. Em lota vai aos 1,30 por quilo. Na praça, vende-se a seis euros o quilo. Eu prefiro dar mais uns cêntimos ao pescador, porque também sei que consigo vendê-lo mais barato ao consumidor», garante Humberto Gomes, presidente da AAPF.

Valorizar o polvo algarvio

Nos inquéritos, «as pessoas mostraram-se bastante recetivas à ideia», o que surpreendeu Sónia Olim. Qual o público-alvo? «Quem não tem tempo de ir às compras. Quem não gosta de ir ao mercado. Quem não gosta de comprar peixe no supermercado. Foi aí que percebemos que existe um mercado, e que não é tão pequeno como pensávamos», sublinha. A comunidade estrangeira residente também é um nicho a conquistar.

A previsão é de 500 clientes no primeiro ano. A sazonalidade faz com que o verão seja uma incógnita, pois quem tem segunda habitação nas zonas de entrega, pode pedir entrega pontual. Também é possível levantar diretamente o cabaz na Fuzeta, desde que previamente encomendado.

A associação tem 1700 caixas de esferovite prontas para entregar. «Aquando da primeira entrega, os clientes pagam 1,50 euro de caução» e são encorajados a estimar a embalagem, por uma questão ambiental.

O projeto está mais vocacionado para o cliente doméstico. Para a restauração, a AAPF tem outra ideia. «Queremos entregar polvo algarvio, fresco, ou congelado sem quaisquer aditivos, já que essa é a nossa mais-valia». No futuro, poderá até surgir um selo de qualidade para os restaurantes fornecidos.

Segundo Sónia Olim, o projeto Cabaz «FrescoMAR» contou com o total encorajamento e apoio da «Docapesca» e acredita que se tiver sucesso, poderá facilmente ser replicado no Barlavento algarvio.

As encomendas devem ser feitas em http://aapf.pt/ ou pelo telefone 289 147 223.

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