Brincadeira de mau gosto, mas melhor que nada

As reações aos 15 por cento de desconto nas portagens da A22 (Via do Infante), para veículos ligeiros, variam entre o conformismo, o politicamente correto e as promessa de luta.

A medida será implementada a partir da próxima segunda-feira, 1 de agosto, segundo anunciou o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, na quarta-feira passada.

Se, por um lado, o deputado do Bloco de Esquerda (BE) João Vasconcelos considera que 15 por cento de desconto equivale a uma «brincadeira de mau gosto», por outro, o PS do Algarve limita-se a aceitar a redução anunciada.

Contactado pelo «barlavento», o deputado que continua a ser membro da Comissão de Utentes da Via do Infante (CUVI) promete continuar a lutar, sobretudo depois do «Partido Socialista do Algarve ter andado a propagandear 50 por cento de desconto», auxiliando-se de «um estudo».

Esta redução só mostra que os socialistas algarvios «não foram ouvidos e que o governo passou-os à margem». O bloquista considera mesmo que esta pequena redução só levará a «mais revolta, manifestações e descontentamento» por parte da população.

O «barlavento» tentou contactar Paulo Sá, deputado eleito pela CDU, sem sucesso. Ainda assim, em nota de imprensa, o PCP reagiu afirmando que a redução de 15 por cento «constitui uma consequência da persistente luta desenvolvida pelas populações do Algarve e de outros pontos do país contra as portagens».

No entanto, «esta é uma medida insuficiente e muito aquém daquilo que seria justo e necessário e pela qual as populações tanto lutaram e lutam: a abolição das portagens na Via do Infante».

«Tema difícil de defender»

Também contactado pelo «barlavento» António Eusébio, presidente da Federação do PS Algarve e deputado, admitiu que «esta temática sempre foi muito difícil de defender. Foi um esforço muito grande que continuará a ser feito, porque o PS Algarve acredita que a especificidade do Algarve é diferente do resto do país».

No seio do partido na região, o parco desconto é encarado como «um sinal de uma mudança que o governo deu e que tem que ser avaliada nos próximos tempos. Perceber qual é o resultado e o efeito».

António Eusébio sublinha ainda que há um desconto 30 por cento para os veículos de mercadorias. A avaliação demonstrará, na opinião do responsável, se será possível alargar o desconto, sendo este o próximo desafio do PS Algarve.

Até porque, o presidente da Federação, quando questionado pelo «barlavento» acerca do estudo que previa uma redução até 50 por cento, relembra que «se a redução fosse uma percentagem maior, teria com certeza, um efeito de procura maior e, em algum tempo, com base nesse estudo, poderia traduzir-se num maior número de passagens. Essa foi a apresentação que fizemos na altura. Vamos aguardar e a debater-nos por tudo aquilo que defendemos».

Pesados sem desconto no gasóleo profissional

O deputado do PSD Cristóvão Norte não se surpreende com o valor da redução e disse que voltou a apresentar a proposta que prevê a suspensão nos troços em que haja obras significativas. Ou seja, se na EN125 haverá «um corte de dez quilómetros na via na zona entre Maritenda e Fontainhas, será justo que na A22 não seja pago o troço correspondente, enquanto decorrer essa intervenção», exemplificou.

Ainda em relação às portagens, o deputado aponta um paradoxo. O governo «reduziu 30 por cento nos pesados, mas o argumento para não colocar o Algarve no projeto piloto do gasóleo profissional foi que a região não tinha movimento de pesados significativo».

Se esse movimento é escasso, na opinião do deputado, essa redução deveria ter sido mais acentuada nos passageiros. Segundo apurou o «barlavento» a redução de 35 por cento para veículos passageiros apontado no estudo em posse do governo, demonstra que tal desconto seria neutral (não daria prejuízo).

JSD Algarve quer pedido de desculpas aos algarvios

Também a JSD do Algarve, liderada por Carlos Gouveia Martins, reeleito a 9 de julho, reagiu à redução das portagens, felicitando o governo liderado por António Costa pela pequena redução.

No entanto, a Juventude relembra que o PS Algarve assumiu o compromisso de um desconto nunca inferior a 30 por cento, e que poderia chegar aos 50.

O BE prometeu no Algarve o corte de 100 por cento no custo das portagens, por defender a suspensão e o PCP o mesmo valor por defender a abolição. Contas feitas, no final, restam os 15 por cento. Na opinião da JSD Algarve, um valor suficiente para o PS da região pedir desculpa aos algarvios…

«15 por cento é melhor que nada»

Ao «barlavento», Jorge Botelho, presidente da Câmara Municipal de Tavira e presidente da AMAL tem uma «opinião muito simples, 15 por cento de desconto é melhor que nada. Se me perguntar, se queria que não houvesse portagens na Via do Infante, sem dúvida, pois sou contra. No entanto, perante o contexto de contratos em vigor e uma perspetiva de renegociação em baixa do preço das portagens, muito bem, trabalhamos com esse valor», considerou.

«Esses 15 por cento, na nossa opinião de autarcas, são um passo importante do governo. Tudo o que seja reduzir preços, nós saudamos o governo. Não dizemos mal do governo, porque é pouco. Saudamos o governo, porque é um passo correto no sentido de baixa das portagens. Em todo o circuito da Via do Infante, de Vila Real de Santo António a Lagos, são menos dois euros», estimou o presidente da AMAL.

O também autarca afirma ainda que, com esta redução, muitas pessoas vão utilizar, a partir de agora a A22 em detrimento da EN125, por questões de segurança, conforto e rapidez. «Afinal, há 15 por cento de motivos para fazer contas a essa mobilidade, que é importante para a rentabilidade das famílias», resumiu.

«Acreditamos que na economia regional pode ter um efeito positivo, mitigado, mas positivo. E se calhar a receita da concessionária não será menor, antes pelo contrário», concluiu.

«Desconto não resolve nada»

A associação empresarial Algfuturo – União pelo Futuro do Algarve, liderada pelo ex-autarca de Faro José Vitorino, considera que « ínfima redução de 15 por cento agora anunciada não vem resolver problema nenhum».

«Nem a barragem na fronteira que afasta os espanhóis; nem para fazer aumentar a utilização pelos residentes, com menores riscos para as suas vidas e produtividade», considera, em nota de imprensa.

«Para se ter uma pequena noção das nefastas consequências, basta dizer que a quebra de passagens na Ponte do Guadiana com as portagens foi de 40% e que no primeiro pórtico de portagem, em todo o ano de 2015, passaram apenas cerca de 150.000 veículos estrangeiros, o que é irrisório e confirma o que a Algfuturo sempre afirmou, de que obrigámos os vizinhos andaluzes a virarem as costas ao Algarve.

A «forma cega» como as portagens foram impostas à Via do Infante não tive «em conta que a maior parte de obra foi feita com fundos da União Europeia; que a entrada de espanhóis (sobretudo dos 8,5 milhões de andaluzes) como visitantaes e turistas, é condição vital para a economia e emprego no Algarve; que o Algarve é muito extenso e superconcentrado numa estreita faixa do litoral, obrigando a grandes deslocaçõoes na vida empresarial e dos trabalhadores para irem para os seus empregos; que a EN125 nunca será uma alternativa e há vidas em perigo; e por fim, que não há no Algarve um plano de mobilidade regional».

Descontos em cinco autoestradas

Apesar do ministro esperar que a medida seja geradora de emprego, economia local e um auxílio para as empresas se fixarem no interior, no Algarve poucos partilham essa esperança.

À comunicação social, durante a semana passada, o ministro explicou que a A22 apenas está contemplada por ter um índice de acessibilidade territorial menor do que os 60 definidos.

Quanto ao impacto nas contas, o governo estima perder entre 14 milhões de euros e ganhar um milhão de euros por ano.

Além da A22, que atravessa a região algarvia, as portagens vão baixar para os veículos ligeiros na A4 (Amarante – Bragança), A23 (Torres Novas – Guarda), A24 (Viseu – Chaves) e a A25 (Albergaria-a-Velha – Vilar Formoso).

No caso dos veículos de mercadorias, o desconto será maior, do que o atual de 15 por cento, durante o dia, já que passam a usufruir de uma redução de 30 por cento, se utilizarem alguma das cinco autoestradas das 20 às 8 horas.

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