Brecht revisitado em «Cantina» transeuropeia

O projeto «Lavar o Mar» está a coproduzir o novo espetáculo de teatro culinário da companhia belga Laika, em conjunto com Valeta (Malta), Capital Europeia da Cultura 2018 e a cidade de Antuérpia. Chama-se «Cantina» e o processo de criação passou por Aljezur, no final de janeiro. «A Santa Joana dos Matadouros» do dramaturgo alemão Bertolt Brecht dá o mote inspirador.

Peter de Bie, chef de cozinha, performer e fundador da companhia belga Laika, regressou a Aljezur, no final de janeiro. O local não lhe é estranho, pois já lá tinha estado em novembro de 2016, para o arranque da primeira edição do projeto «Lavrar o Mar». Desta vez, veio realizar uma residência criativa, acompanhado por um grupo de voluntários locais.

Peter de Bie e Luigi Gautero.

«Foi uma semana intensa. Surgiram muitas ideias», disse. Esta foi a segunda fase de pesquisa para «Cantina». Na Bélgica, Brie recolheu histórias «sobre comida e sobre o texto de Brecht», uma noite por semana ao longo de três meses, em bairros sociais, junto de «pessoas de várias idades e culturas».

Na verdade, o espetáculo final não pretende ser fiel ao texto de Brecht, mas será certamente permeável à mensagem.

Giacomo Scalisi, programador e diretor artístico do «Lavar o Mar», esclarece. Parafraseando em poucas palavras, o livro é sobre «um grupo de pessoas, que quando confrontadas com um problema que tem a ver com as suas vidas e os seus trabalhos, inventam uma força conjunta de luta» contra o que as oprime.

Quando estiver em cena, em Monchique (de 19 a 22 de maio), «Cantina» será apresentado numa tenda para 120 pessoas, por quatro atores da companhia Laika, dois cozinheiros e 6 a 7 voluntários locais. O público irá partilhar uma refeição, mas nada será convencional.

«Tivemos a ideia de pôr nos tabuleiros individuais de cada pessoa, um único ingrediente. Desta forma, as pessoas, quer se conheçam ou não, terão que se entender, falar para poderem partilhar a comida. Isto se quiserem provar um pouco de tudo o que teremos para lhes servir», explicou Peter de Bie. «Será uma performance muito visual, com muitos momentos surrealistas de sonho», onde até um porco pode surgir entre os convivas.

Para o encenador flamengo, no contexto português, o título é arriscado. «Na Europa, pode referir-se a uma cantina mexicana, a algo divertido, ou então à adega onde estão os tesouros, o bom vinho e o bom queijo. Mas na língua portuguesa tem outro sentido. Significa um sítio chato, onde as pessoas vão quase por obrigação, numa escola, numa fábrica, num quartel. Não é uma refeição em família. Por isso, o espetáculo, poderá ao princípio ser percebido como algo solitário, mas no final, surge a partilha entre todos os presentes», referiu.

Os ensaios tiveram lugar no restaurante Várzea, em Aljezur, emprestado pelo empresário italiano Luigi Gautero. Aproveitando a disponibilidade do espaço, fechado para a pausa de inverno, Peter de Bie e os voluntários deram asas à criatividade.

Segundo a coreógrafa Madalena Victorino, «havia a curiosidade de ver como é que este trabalho, numa fase tão inicial, poderia aqui ganhar fôlego. Há alguns trechos que já estão bastante bem montados em termos de estrutura base para a escrita da peça».

Para já, a coreógrafa sublinha o «humor incrível. As personagens podem ser os próprios animais. Aquilo que não é comestível pode transformar-se em algo delicioso, como a terra dos vasos de plástico (que substituem o pratos), ou a sopa que é servida em latas de conserva. É um humor que viaja entre os elementos nutritivos e a ação teatral», descreveu. «Às vezes também é caústico, crítico, no sentido de analisar e despir várias situações» do quotidiano.

Giacomo Scalisi e Madalena Victorino trabalham com a companhia Laika desde 1998. Desta vez, «no fundo, vamos comprar um espetáculo antes de existir, que ainda não sabemos como vai ser. É um compromisso. Não tivemos muitas expetativas. A ideia era dar espaço ao Peter para ele trabalhar», admite Giacomo Scalisi. «Mas foi interessante porque o Luigi Gautero, além de ceder o seu restaurante, foi muito generoso e deu também a sua ajuda na cozinha. Ambos envolveram-se num diálogo à volta das suas visões pessoais sobre a culinária, que depois se irão fundir na obra artística e performativa».

Em «A Santa Joana dos Matadouros», bem, «voltamos às questões fundamentais de Brecht e da sociedade, como o capitalismo versus o proletariado. Hoje parecem-nos palavras que já não usamos, não é? De facto, o vocabulário mudou, mas os problemas de justiça social continuam atuais. E continuam por resolver. Penso que esta «Cantina» vai recuperar a ideia de que quando um indivíduo passa a coletivo, cria oposição a algo que lhe é imposto de cima para baixo».

À mesa da «Cantina» este conceito pode ser uma metáfora «para a comida pré-fabricada e todos os ingredientes que nos são impostos hoje pelas grandes empresas multinacionais, que matam os produtos cultivados no campo», conclui Giacomo Scalisi.

O menu ainda não está definido, mas segundo Peter de Bie, será vegetariano. «Cantina» terá estreia na Antuérpia (13 de abril), e passará por Modena, Itália (3 a 5 de maio), Valleta, Malta (11 a 13 de maio), Monchique (19 a 22 de maio) e Alençon, França (28 a 31 de maio).

«Lavrar o Mar» tem bilheteira aberta desde ontem, dia 12 de fevereiro

A bilheteira para a nova temporada de espetáculos do «Lavrar o Mar- As Artes no Alto da Serra e na Costa Vicentina» estará aberta a partir de 12 de fevereiro, on-line na plataforma BOL e também em Aljezur (Rua João Dias Mendes) e em Monchique (Biblioteca Municipal). O «Lavrar o Mar» é um projeto da cooperativa «Cosanostra», da coreógrafa Madalena Victorino e do programador e diretor artístico Giacomo Scalisi, para Aljezur e Monchique com o apoio do programa «365 Algarve» e os municípios de Aljezur e Monchique, e ainda do CRESC Algarve 2020.

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