Bestias ou a comunhão ancestral entre homens e animais em Odeceixe

Uma tribo imaginária. Um cavalo lusitano que nunca esteve em Portugal. Um corvo africano amestrado e um bando de piriquitos em voo livre sem nunca fugir de cena. Bestias, um poema em forma de espetáculo da companhia franco-catalã Baro d’evel promete marcar a temporada do projeto «Lavrar o Mar», no final de abril, em Odeceixe.

A primeira pergunta que colocamos tem a ver com os animais em cena num espetáculo de circo contemporâneo. Em espanhol temperado de francês, Camille Decourtye e Blaï Mateu Trias, dupla que assina a conceção e direção artística de Bestias, revela à vontade. «Quando uma sociedade coloca esta questão, bem, isso só pode ser algo de muito positivo. Mas não se pode responder de forma simplista. Pessoalmente, custa-me muito pensar que eu poderia ser uma inimiga dos animais» por causa disso, sublinha Camille. «Por um lado, até posso concordar com a essência da contestação. E também me preocupa tudo o que está a acontecer com a vida selvagem e a produção industrial. É uma barbaridade. Mas, ao mesmo tempo, penso que não devemos confundir o tema dos maus tratos com o da domesticação», aponta.

«Dizer que não se pode trabalhar com animais, isso significa que teríamos de rever toda a história da humanidade. Pensar que temos de traçar uma fronteira entre humanos e animais para os proteger de todo o mal que lhes possamos fazer, é pensar num mundo louco. Como seria isso possível? Os animais regressam à natureza e todos nós ficamos à parte a viver em cidades fechadas? Isso não pode ser. Eu acredito que é possível evoluir e adotar boas práticas na maneira como se trabalha com os animais. Hoje temos consciência de muitas questões levantadas pela ecologia, e começamos a perceber que há espaço para uma outra verdade, que cada animal é um mundo que se move», considera.

A companhia franco-catalã Baro d’eve tem 18 anos de vida. Passou por Portugal em 2004. «Ao longo deste tempo, fizemos sete espetáculos antes de Bestias. Foi o caminho que nos trouxe até este trabalho, que é, sem dúvida, o mais forte de todos. É a nossa primeira produção com um grande elenco, itinerância e animais. Somos uma companhia que não faz apenas circo. Fazemos também teatro convencional e de rua. Estamos sempre a mudar as coisas. Gostamos desta constante busca», acrescenta Camille Decourtye.

«Eu venho do mundo dos cavalos, do campo», na França rural. «Encontrei o Blaï Mateu Trias na escola de circo, numa na época em que era muito diversa, muito rica. Por isso, praticamos linguagens diferentes mas que convergem num mesmo ponto comum», explica.

«Somos todos de formação variada, do teatro físico, da dança. Os artistas são muito específicos porque uma das singularidades da companhia é usar o trabalho de voz, de ritmo, de corpo, e teatral», diz Blaï Mateu Trias. «Durante o Franquismo, os meus pais tiveram um circo na Catalunha. Era algo de resistência política, que tinha a ver com o mundo de clowne do circo», que acabou influenciar o seu trabalho hoje.

Em Bestias, a mensagem e a história não são importantes. «Para apreciar o espetáculo é preciso vir de mente livre e não tentar entender, forçosamente, tudo», aconselha a diretora artística. Mas cada cena é como se fosse uma pintura, com várias «texturas» que criam um universo onírico, uma espécie de comunhão ancestral entre homens e animais. Um imaginário pautado pelas influências do pintor catalão Antoni Tàpies e do dramaturgo polaco Tadeusz Kantor, ambos homens de referência na cultura e nas artes de palco.
Tem a ver com uma cerimónia de exaltação à esperança e ao que de maravilhoso há em todos nós», descreve Camille Decourtye. «É uma viagem sensitiva. Tudo está muito pensado ao nível do espaço, das distâncias, da matéria, da cor», acrescenta.

O universo de Bestias envolve uma equipa de 22 pessoas, dois cavalos (um espanhol da Estremadura cruzado de árabe e um lusitano que nunca esteve em Portugal), um corvo africano «muito inteligente» e um bando de piriquitos. Foi difícil treinar as aves? «Sim, representa muito tempo. Tens que dedicar-te a cuidar deles, e sobretudo, ajudar a que se sintam bem num circo. Mas podemos confiar muito nos pássaros», diz Camile. Blaï corrobora. «Baseia-se muito na observação. É preciso ver, sentir e desenvolver uma ligação. Não é algo ao alcance de qualquer pessoa. Mas a Camile faz isso muito bem».

Desde 2015, Bestias teve 170 apresentações, e para este ano já estão agendadas 49. «Acabará definitivamente em setembro. Estamos nos últimos seis meses de itinerância. Foi um período das nossas vidas. Mas não vamos parar de trabalhar com cavalos e certamente que surgirá outro projeto», diz a diretora artística, acrescentando que toda a equipa está «muito feliz» por atuar no Algarve.

Onde e quando?
O Campo de Futebol dos Malhadais (na Estrada Nacional 120, junto à Urbanização dos Malhadais), em Odeceixe, é o espaço onde será montada a tenda de circo para o espetáculo Bestias, que estará em cena de 24 a 29 de abril (exceto no dia 26). O início do espectáculo será às 21 horas impreterivelmente e não será possível a entrada de público após o início, pelo que se pede o máximo de pontualidade, sendo que o espetáculo dura 1h40 (sem intervalo) e é para maiores de seis anos. Os bilhetes custam sete euros (maiores de 12 anos) e cinco euros (crianças) e já estão à venda online no portal BOL e pontos de venda aderentes, Casa Lavrar o Mar em Aljezur e Biblioteca Municipal de Monchique. Por ser utilizado feno em algumas cenas, e por isso o espetáculo é desaconselhado a pessoas que sofram de alergias graves. No dia 27 de abril há autocarro gratuito para os portadores de bilhete, com partida do Heliporto de Monchique às 19h00, e regresso às 23h00. No entanto, é preciso reservar lugar através do contacto 913 943 034 (sujeito à lotação). O «Lavrar o Mar» é um projeto cultural da coreógrafa Madalena Victorino e do programador e diretor artístico Giacomo Scalisi, através da cooperativa Cosa Nostra. A segunda edição tem financiamento do programa de animação cultural e turística em época baixa «365 Algarve» e também da União Europeia, através do CRESC Algarve 2020, além dos municípios de Aljezur e Monchique.

Fotografias de François Passerini, Frederic Jean e Marta Garcia.

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