Aumento do consumo de álcool e cannabis preocupam DICAD

O «barlavento» reuniu com o presidente da Administração Regional de Saúde do Algarve e com os responsáveis da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) para fazer um diagnóstico à região.

Já teve muitos nomes. Foi SPTT (Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência) e IDT (Instituto da Droga e Toxicodependência), entre outros. Mas acabou por regressar às origens e encontra-se atualmente sob a gestão da Administração Regional de Saúde do Algarve (ARS Algarve), segundo explica Nuno Murcho, coordenador da DICAD.

O atual modelo de gestão foi criado em 2013. Compreende um centro de respostas integradas composto por equipas técnicas especializadas e a unidade de desabituação do Algarve (UDA), em Marim, Olhão. No seu âmbito, colaboram cerca de cem profissionais: médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e pessoal auxiliar e administrativo. Tratam dependências do álcool, droga, internet, entre outras.

Hoje, a maioria dos doentes do Algarve são do sexo masculino, embora Murcho garanta que o número de mulheres tem vindo a aumentar. «Existem duas equipas de tratamento (uma no Barlavento e outra no Sotavento), uma equipa de prevenção, uma equipa de reinserção e redução de danos. E a unidade de desabituação. Existem quatro estruturas de tratamento», explica. Há ainda consultas em Olhão, Vila Real de Santo António, Tavira, Quarteira e Portimão.

No ano passado, a DICAD recebeu 3500 doentes para tratamento. «Alguns já lá andam desde que o serviço abriu. Falamos de uma doença que é crónica. Mas em 2014 registamos apenas 614 novos casos», explica Murcho.

Acrescenta ainda que «é muito difícil termos a noção do todo porque muitos destes doentes acabam por ser internados na psiquiatria». Outra problemática é que «todos os dias surgem novas drogas». Só no ano passado o observatório europeu registou o aparecimento de 1300 novas substâncias. «Apenas as detetadas, fora as outras. E algumas até são legalmente comercializadas», acrescenta João Moura dos Reis, presidente da ARS Algarve.

Negócio do sexo no Algarve potencia VIH
Uma das situações que preocupa a DICAD é o facto de «22,6 por cento dos doentes manter relações sexuais preferencialmente com prostitutas e companheiros de ocasião sem preservativo», destaca Álvaro Pereira, em representação da Unidade de Desabituação do Algarve.

«No Algarve somos a região com mais VIH no país», sendo que «a Fuzeta foi a maior incubadora do VIH. Em termos de prevalência, continuamos a ser os piores, mas em termos de novos casos não», explica.

«Não há nenhum sítio realmente problemático, pois esta realidade encontra-se distribuída de forma homogénea. Há uma outra circunstância a ter em conta: esta é uma região de turismo. Ou seja, a população que faz negócio com o sexo aumenta bastante. É a fonte mais preocupante do VIH. Da última vez que me informei sobre a questão da prostituição, disseram-me que havia pessoas que estavam aqui a fazerem as suas férias e que depois iam para a sua terra e não precisavam de trabalhar o resto do ano», revela o presidente da ARS Algarve.

Custo versus Ganho no tratamento dos doentes
«É difícil de quantificar os custos de tratamento de um doente. Custa muito dinheiro. Podemos comparar, por exemplo, com o custo numa unidade terapêutica privada. Ronda os 1300 euros mensais fora a medicação e outras despesas. Nunca foi feita uma contabilidade em que se chegue à conclusão de quanto custa o tratamento. São contas extremamente difíceis de fazer», explica. No entanto, Pereira acredita que «todas as despesas são investimento. Os resultados medem-se também na diminuição dos gastos a montante e a jusante. Nem tudo são perdas», defende.

Dados da Unidade de Desabituação do Algarve (UDA)
Apesar dos dados relativos ao ano de 2014 ainda não estarem disponíveis, em 2013 houve 302 internamentos nesta unidade. Quatro quintos são homens. Só 21 por cento são mulheres. Metade dos doentes tinham entre 35 e 44 anos. Do total, 7,2 por cento tinham formação universitária. Uma grande parte foi internada com problemas de álcool. 52 por cento encontravam-se desempregados. Apenas 10 por cento tinham algum tipo de apoio por parte do Estado.

Cerca de 21,6 por cento viviam sozinhos. 35,7 por cento com os pais e 27,2 por cento com companheiro e filhos. Em 2013, a substância mais consumida foi a heroína, «mas em 2014 tenho ideia que já não foi assim. Será o álcool a substância que levou mais pessoas a serem internadas. Assim como a cannabis», revela Pereira.

O padrão dos doentes está por isto, a mudar. A tendência está a alterar-se para alcoólicos e quem pede ajuda, tem geralmente uma idade mais avançada. No entanto, Murcho garante que «tratar um doente alcoólico custa muito mais do que tratar um doente dependente de heroína. A problemática física de um doente alcoólico é muito superior, e causa mais danos».

O internamento em Marim
O dia começa cedo, com uma pequena reunião da equipa técnica da Unidade de Desabituação do Algarve (UDA), em Marim, inaugurada em 2008 pela então ministra socialista Ana Jorge. Na altura desta reportagem, há oito doentes internados, embora a capacidade máxima seja para 14 pessoas.

A sazonalidade da região também influencia o tratamento das dependências. «Há três a quatro pessoas a aguardar internamento. A lista de espera não é condicionada por falta de vagas, mas por fatores dos próprios doentes», como a sua disponibilidade financeira. Por exemplo, os doentes podem fumar durante o internamento, desde que tragam o tabaco.

«Imaginem que um doente fica aqui 14 dias e fuma 21 maços, que custam à volta de 90 euros. Às vezes têm de estar à espera de receber um subsídio ou um ordenado no fim do mês para poderem vir», explica o responsável Álvaro Pereira. O verão também traz mais oportunidades de trabalho e muitos adiam o internamento. É importante referir que o tratamento é gratuito. Apenas é pedido, a cada doente um depósito em dinheiro para pequenas despesas, como o café. Para a permanência mínima de oito dias são €23 (€35 para os 14 dias). É frequente os doentes quererem ir a Olhão, de táxi, por exemplo. Não é no entanto, obrigatório.

Drogas duras, drogas leves e um macaco imaginário às costas
«Essa classificação já não existe. Aquilo que é duro para uma pessoa pode ser mole para outra. Por exemplo, para um doente que geneticamente nasça com a marca da esquizofrenia, com essa vulnerabilidade, se consumir haxixe, tem uma altíssima probabilidade para se vir a tornar esquizofrénico. Se consumir heroína, antes pelo contrário, até funciona como um fator de proteção», explica.

Questionado sobre as smartshops, atualmente proibidas, «tivemos casos dramáticos que levaram ao internamento de seis pessoas em situações muito graves. Imagine que na consulta de admissão, ao ver um doente reparo que tem uma série de cicatrizes de facadas nas costas. Tinha a alucinação que carregava um macaco que lhe mordia o pescoço. Então, com uma faca, tentava picar o rabo do macaco para o afugentar mas na realidade, cortava-se todo».

Segundo os efeitos que testemunharam, «faz-nos supor que os produtos eram semelhantes a uma droga ainda rara em Portugal», possivelmente a mefedrona, um psicoestimulante da família das anfetaminas.

«Este ano, a maior parte dos casos estão relacionados com o álcool. A heroína continua em segundo lugar. Parece-me que estamos a ter mais pedidos relacionados com cannabis. O consumo está a crescer. Isso a deve-se à qualidade do produto, que tem cada vez concentrações mais altas de canabinóides ativos».

Pronto-a-vestir terapêutico e curto-circuitos
Os casos chegam referenciados pelos técnicos de saúde. Já receberam miúdos de 13 anos consumidores de heroína. Segundo o médico, «não há tratamento das dependências. Há tratamento de pessoas dependentes, porque a albarda que serve para um burro não serve para outro», brinca. «Não há pronto-a-vestir terapêutico» e cada caso é um caso. O objetivo é sair com alta no final do tratamento.

No entanto, 16 por cento não têm alta clínica, «ou vão-se embora ou são expulsos». A causa mais frequente tem a ver com a eletricidade. «Os doentes não podem fumar para sua defesa. Tomam sedantes poderosos porque muitos têm perturbações de sono lixadas» e portanto, esta medida evita que adormeçam a fumar. «Há quem desmonte candeeiros e secadores de cabelo para provocar curto-circuitos e usar as faíscas para acender os cigarros», conta. «Estas pessoas são diferentes, porque tiveram de enfrentar tantas coisas na vida, que encontraram as soluções mais engenhosas que possam imaginar», explica.

Para finalizar, Álvaro Pereira sublinha: «não conheço nenhum país que tenha um sistema de apoio à pessoa com dependência como o nosso», quando comparado com a realidade europeia, que na sua maioria remete esta problemática para o setor privado.

Heroína, a vida a preto e branco
Parece estranho ver adultos a pintar e a fazerem trabalhos de expressão plástica, em barro e outros materiais. No entanto, a cor é instrumento terapêutico. Pereira explica: «o heroinómano clássico é a pessoa que perdeu todas as referências com o mundo exterior. Vive para dentro dele. Não há cor. As flores são umas coisas que estão para ali. O céu e mar não são azuis. A vida dessa pessoa é uma vida a preto e branco. Não há referencias a formas, a modelos, a estruturas. Nada disso interessa. A redescoberta da cor é terapêutica». Por outro lado, também se retoma contacto com o corpo. «Se o meu corpo não faz parte mim, não faz mal ser maltratado, ser picado, ser infetado, ser destruído, desde que preserve o eu. Tentamos fazer aqui o processo ao contrário. Eles redescobrirem o corpo, que pode ser uma fonte de prazer. A partir do quinto ou sexto dia do internamento começam a ver-se ao espelho. Antes disso, têm nojo da pessoa que vêm. Há doentes que nos dizem, agora tenho outra dependência que é o do banhinho», conclui.

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