Artur Pastor, a obra pelo olhar do filho

Artur Pastor, filho, conta ao «barlavento», em entrevista exclusiva, como o Algarve deslumbrou o seu pai – talvez o mais profícuo fotógrafo português de sempre. Este ano, os Encontros de Fotografia de Lagoa (ENFOLA 2015) prestam-lhe homenagem, trazendo ao público uma amostra da vasta obra que imortaliza a região entre os anos 1940/60.

«O meu pai começa a fotografar no final do curso da escola para regentes agrícolas. No início dos anos 1940 vai para Tavira fazer o serviço militar. Aí conhece o instrutor Liberto Conceição, que era um entendido na fotografia, e que o envolve nessa arte. É então que tem contacto com o mundo pictórico do Algarve. Ele era de Évora, um homem da planície alentejana, a quem o mar produzia um enorme fascínio. A partir daí, fotografa o Algarve intensamente. Era muito produtivo, lançava material para publicação em revistas nacionais e estrangeiras, e tem uma dinâmica muito forte até aos anos 1970», explica Artur Pastor, filho e homónimo.

As fotografias do copejo do atum ao largo de Tavira são um dos primeiros e marcantes trabalhos que mostram o seu encantamento pela região. As ruelas do bairro da Barreta de Olhão, as andainas da Ria Formosa, os homens do mar e da serra, tudo passa pela sua objetiva.

Aliás em 1946, com apenas 24 anos, Pastor organiza uma exposição no Círculo Cultural do Algarve, em Faro, intitulada «Motivos do Sul», na qual mostra cerca de 300 fotografias. Evento que nunca mais se repete no Algarve, na mesma escala.

Pastor reconhece um hiato na divulgação da obra. «Bem, quando o meu pai faleceu, em 1999, tínhamos o seu espólio em casa. Aliás, a nossa casa era toda invadida por fotografias, havia dezenas de milhares de cópias, de negativos, de fotografias, em armários. Era impossível ficarmos com tudo isso, sem ser estudado e sobretudo, sem ser conservado. Algum desse material era muito antigo e não teríamos capacidade de inventariar e conservar tudo. Um nosso amigo comum, José Manuel Silva, da loja Colorfoto, e que nos últimos anos, era quem fazia as ampliações para o meu pai, pensou no Luís Pavão, que trabalha no Arquivo Municipal de Lisboa. Estabeleceu-se o contacto e em 2001, foi feita uma proposta de aquisição», recorda.

Uma primeira grande retrospetiva esteve prevista para 2005. Contudo, por toda uma panóplia de razões e imprevistos, só veio a público em 2014, em Lisboa. Agora, Lagoa vai mostrar alguns desses «originais, impressões fantásticas feitas na altura e que perduraram até hoje com um brilho fantástico, de forma imaculada».

Memória de um paraíso perdido

«A luz é quase uma alucinação. A atmosfera é de uma deslumbrante nitidez. E, pela noite fora, parecem ouvir-se longínquos chamamentos de sereias, trazidos pelo vento brando. Sim, todo o litoral algarvio é uma apoteose de beleza. As noites, no Algarve, não foram feitas para dormir mas antes para sonhar», escreveu Artur Pastor no seu livro «O Algarve», há muito esgotado e difícil quanto baste de se encontrar até nos melhores alfarrabistas.

«Não é só um livro de fotografia. É todo um tratado sobre o Algarve. Ele fez imensa pesquisa sobre a história, a cultura, a gastronomia. Na altura, em 1965, custava 500 escudos. Saiu sob chancela da Bertrand. Mas a dada altura, não sei porquê, a edição é vendida e enviada para o Brasil», conta.

A visão onírica de Pastor «procurou sempre apanhar o mais tradicional, o mais bonito». A partir de finais dos anos 1960, assiste também à progressiva transformação do Algarve em estância de turismo de massas. «Sim. Ele chamou várias vezes a atenção para o facto que a média falésia – um termo que eu até nem conhecia – estava a ser invadida pelo betão. Ele achava que o Algarve tinha muitas potencialidades turísticas, mas defendia que era preciso ter muita atenção para o que estava a ser feito, para que não se degradasse a região. Penso que viu este processo de betonização com alguma tristeza, com certeza».

A dimensão humana dos lugares

E as gentes? Era-lhe fácil abordar as pessoas? «Sim. Ele aproximava-se das pessoas sem receios, usava uma máquina (Rolleiflex) com a qual tinha mesmo de estar próximo. Não diria que era uma pessoa tímida, mas não era dado a tertúlias sociais ou de amigos. Era sim um grande comunicador e punha sempre as pessoas muito à vontade.

Era delicado e fazia as pessoas sentirem-se dignas de serem fotografadas. Por isso, conseguia conquistá-las. Tinha sempre uma palavra de agradecimento no final. Não era um fotógrafo furtivo, e raramente encenava. Fazia o contacto e esperava até que as pessoas se esquecerem da sua presença. Em muitas das suas fotos vemos que esteve à espera, com grande paciência e persistência», diz.
«Lembro-me sempre de o meu pai dizer que era muito importante dar a dimensão humana dos sítios».

Numa fase final, Pastor dedicou-se a fazer um levantamento exaustivo do património edificado e das paisagens do Algarve, deixando um pouco de lado as pessoas e a magia do preto-e-branco do passado.

O Portugal de Artur Pastor

Questionado sobre um destino futuro para a obra do pai, Pastor, remete para a edição. «Alguém me disse há tempos que isto merecia uma Fundação, para que as fotografias estivessem sempre disponíveis.

Seria uma forma muito eficaz de fazer perdurar a obra. Toda esta parte etnográfica, o levantamento exaustivo do país inteiro, dos costumes, da cultura, da arquitetura, tudo isto tem um valor incalculável», considera. «Penso que ninguém conseguiu ter um espólio tão grande. O Castelo Lopes, por exemplo, tinha boas fotos mas eram de um esfera e de um âmbito mais restrito. Não conheço ninguém que tenha uma obra tão vasta em termos de representação de Portugal».

«E o Artur Pastor não é só a fotografia. Há muitos artigos que ele escreveu, e que estão agora a ser redescobertos, textos para a imprensa, essencialmente quando ainda vivia em Évora. Naquela altura, década de 1940, tenta viver da fotografia a fazer tudo e mais alguma coisa, nomeadamente postais», acrescenta.

«Acho que seria importante fazer um livro sobre a visão de Portugal, segundo Artur Pastor. Tenho esse projeto na cabeça. Descobri em casa de minha mãe, o texto de um livro que ele tinha pensado sobre a agricultura em Portugal à época. É há um reportório de imagens que têm uma força tão grande que permitiram diversas edições, à semelhança dos livros de Sebastião Salgado, Cartier-Bresson, ou tantos outros fotógrafos. Estou convencido que as pessoas iriam gostar de ter». conclui.

Um espólio ainda por descobrir

Segundo Artur Pastor filho, estão digitalizadas cerca de 4000 fotos de um espólio que rondará as 100 mil. E não é tudo. Enquanto regente agrícola, Pastor usou a fotografia como ferramenta de trabalho. Em 1953 sugere a criação de um arquivo fotográfico na Direção Geral dos Serviços Agrícolas.

«Havia um acordo de cavalheiros. Ele tirava uma fotografia para si, e outra para o serviço», legendada com fichas de informação minuciosamente escritas à mão. «Demorou alguns anos até descobrir-se onde é que estavam arquivadas».

No Ministério da Agricultura, foram encontradas cerca de 10 mil destas fichas manuscritas, «mas muitas mais deveriam ser». Pastor fazia também fotografia para outros institutos públicos, nomeadamente, do vinho e do azeite. Têm suscitado o interesse de investigadores académicos.

A fase da cor, «que foi muito exaustiva nos anos 1970/80/90», sobretudo ao nível da fotografia de património, ainda foi pouco tratada, existindo contudo já algumas imagens digitalizadas. «Há muita coisa que foi para o arquivo que não conheço, muita fotografia e documento por descobrir e inventariar».

Colecionador de Estoi cede postais inéditos

Há cerca de um ano que Nuno Loureiro, docente na Universidade do Algarve e diretor dos Encontros de Fotografia de Lagoa, trabalha na exposição «O Algarve de Artur Pastor».

A mostra «está muito pensada para nós, algarvios. E para um grupo de estrangeiros que vive cá ou quer conhecer a região sob uma abordagem cultural», explica ao «barlavento». Em termos práticos, ocupará três núcleos. O principal é composto por 61 fotografias vindas do Arquivo Municipal de Lisboa, proprietário do espólio. «Depois, vamos ter dois pequenos núcleos originais», revela.

«O Artur Pastor nos anos 1940, quando voltou a viver em Évora, fez postais ilustrados para ganhar algum dinheiro, sobre o Algarve, a partir das fotografias da exposição «Motivos do Sul». Eram edições de autor e postais de boas festas. Apenas alguns foram publicados pela comissão municipal de turismo de Portimão, e outros pela Louletana. Entretanto, caíram quase no esquecimento. Encontrei vários colecionadores de postais, e entre eles o Nelson Fantasia, de Estoi. Disse-me que tinha «qualquer coisa lá para casa». Trouxe-me 33 postais. A família do Artur Pastor descobriu mais quatro diferentes», que tinha guardados numa gaveta.

O terceiro núcleo é composto por 12 fotografias. «Uma das últimas coisas que o Pastor fez foi fotografar a costa sudoeste. Dos muitos contactos que tenho tido com a família Pastor, mostraram-me aquele conjunto de 60 a 70 impressões. Selecionamos 12 imagens inéditas», revela. Nuno Loureiro, professor de sistemas de informação geográfica e de ciências da Terra, conheceu a obra do fotógrafo Artur Pastor por mero acaso, em 2005.

«De vez em quando, na minha atividade de investigador, passo uns dias na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Quando estou cansado, vou à base de dados pesquisar pela palavra Algarve», confidencia.
«Na altura, estava a investigar sobre as tartarugas marinhas em Cabo Verde. E numa pesquisa completamente descontraída, encontrei o livro dele. Fiquei fascinado, não só pelo conjunto de fotografias, mas pelo texto que acompanha a obra, que é sublime».

Mais tarde, Loureiro conseguiu descobrir uma cópia na Amazon, nos EUA. Chegou a Portugal através «de um esquema complicadíssimo. Foi para o Brasil, para Cabo Verde e finalmente para Lisboa», tudo por causa dos constrangimentos alfandegários. Demorou um ano e meio a chegar, desde a data de compra. O seu exemplar vai estar também patente na mostra.

Uma nota final: «escolhemos fotografias dos anos 1940 e 1960. Não foi possível trazer tudo o que tínhamos pensado. Procuramos trazer uma boa imagem do Algarve real, tal como era naquela altura. O Pastor era também um fotógrafo realista muito próximo do povo. Hoje praticamente esquecemos que o Algarve era muito humilde, mas de facto, não era infeliz. A generalidade das fotografias que vi mostram que as pessoas tinham uma certa alegria de viver. Esta é uma linha que queremos trabalhar, que é ir todos os anos mostrar uma coleção realista do passado», conclui.

Os Encontros de Fotografia de Lagoa «começaram com um convite do arquiteto Vieira, da Câmara Municipal de Lagoa, para apoiar um concurso de fotografia simples» que acabou por evoluir para um projeto muito mais ambicioso, de reflexão sobre «a identidade algarvia». Esta é a segunda edição. A próxima, já em marcha, promete surpreender os apaixonados quer pela fotografia, quer pelo Algarve e a sua história.

__

Programa da inauguração

A exposição «O Algarve de Artur Pastor» inaugura, no Convento de São José, na terça-feira, dia 8 de setembro, dia da cidade de Lagoa, às 16h00. O programa começa com a exibição do filme «As crianças de Artur Pastor», tema que acarinhou ao longo da sua obra. Haverá intervenções do presidente da Câmara de Lagoa, Francisco Martins, e do reitor da Universidade do Algarve, António Branco, instituição parceira do ENFOLA 2015. Ficará patente até 31 de março de 2016.

FOTOS: © Arquivo Municipal de Lisboa

Categorias
Destaque


Relacionado com: