Arte xávega de Lagos é única e precisa de ser protegida

Há quem o queira afastar para dar lugar a novas concessões no areal da Meia Praia. A burocracia pede contas que não tem e o barco, cansado, mete água. Às vezes, os tratores de uma arte de arrasto mecanizada rapa os fundos e esgota o peixe. Zé «Bala», mentor da última xávega artesanal no país, tem razões para ficar apreensivo.

Há anos que é assim. Começam a chegar aos poucos, ainda o sol não raiou no horizonte. Atravessam o caminho de ferro, que acaba lá mais à frente, em Lagos, e caminham pelas dunas até ao barco. Pescadores de ocasião, são todos voluntários. Alguns já se reformaram. Outros ainda fazem pela vida. Vêm pelo convívio e pelo desafio da maresia. A faina foi combinada de véspera, boca a boca. A maioria já é experiente e sabe o que tem a fazer. Às vezes, aparecem caras novas.

A primeira tarefa, antes do amanhecer, é untar com banha de porco as traves do passadiço improvisado, por onde o José Fernando vai deslizar até ao mar, à força de braços e pernas. O pior será trazê-lo de novo para o repouso do areal, cheio de água salgada, rangendo esforços de madeira batida pelo tempo.

Este verão, José Glória, 67 anos, mestre Zé «Bala» para os amigos, já teve despesas, para reparar as redes, por causa de tanta alga na costa. No inverno, a pesca é irregular. Uma vez por semana, quando há calmaria. No verão, é quando houver «vontade e pessoal».

Reza a história que o mestre comprou duas licenças para a pesca da arte xávega, na Praia da Salema, em 1983, ao armador Alcindo Pereira. Nessa altura ainda trabalhou com outra embarcação maior, um calão, outrora muito apreciado no apoio às armações do atum. Com o passar do tempo, esse barco acabou por se revelar «muito pesado» e mais tarde, adquiriu o José Fernando, em Sagres, que já soma 50 anos de marés. Sobreviveu às ordens de abate de Bruxelas e ao advento da fibra de vidro. Zé «Bala» não esconde que se tem estragado muito, ali exposto aos elementos. Talvez nem reparações profundas o salvem. Se tivesse 10 mil euros, mandaria construir outro novo, em madeira, num pequeno estaleiro em Quarteira, onde já lhe deram o orçamento para o sonho.

Às vezes, nos meses mais frios, aparece na Meia Praia uma outra arte xávega. É uma operação de arrasto com tratores, importada do norte do país. «No ano passado esteve cá. Aquilo interfere muito connosco porque repetem os lances durante toda a noite. Matam tudo», lamenta. «Eu uso uma malha de 16 milímetros, acima do mínimo de lei, e o saco largo. Assim o peixe miúdo consegue sair», compara.

Hoje, contudo, não é só a rapina da xávega mecânica, ou o mau estado do José Fernando que ameaçam a continuidade desta tradição. Para a licença não caducar, o mestre tem de levar peixe à lota. «Concordo, mas exigem um valor exorbitante: 6300 euros por ano». Quanta cavala, a espécie mais capturada por esta arte artesanal, e que vale pouco mais do que meia dúzia de cêntimos por quilo, será precisa para tal contabilidade? «Há dois anos levei para a lota um barco cheio, tonelada e meia, em quatro viagens» numa carrinha refrigerada (que não é sua) e respetivas guias de transporte. Não deu para a despesa. Mais vale dar às gaivotas ou oferecer aos turistas e curiosos que se juntam para ver a azáfama, deliciados com um espetáculo há muito desaparecido das praias algarvias.

Zé «Bala», o mestre e mentor da arte xávega artesanal de Lagos.

E depois, há a guerra pelo território, ali mesmo em frente ao bairro de pescadores da Meia Praia, onde nasceu e vive. «Há uns tempos fui chamado à Capitania. O Capitão de Porto disse-me que eu teria de ir pescar lá para o fundo, junto ao molhe de Alvor» porque precisava de mais espaço para uma nova concessão de praia. Teimou. E acabou por ficar onde sempre esteve. O futuro? «Na situação em que isto está, um dia vou ter de parar. Já me ofereceram 40 mil euros pela licença», mas, até hoje, recusou-se a vender «para que isto não morra»…

Entretanto, chega o motor para o José Fernando, num carrinho de mão que corta a espuma rala da preia-mar. O mestre está licenciado para largar a rede até três quilómetros da praia, mas, no máximo, vai aos 1000 a 1200 metros. Até ao limite da força braçal do grupo de 16 pessoas, que domina as «calas», isto é, os cabos que puxam a rede do mar para a praia. Uma ponta fica em terra. Outra vai no barco. Na volta, depois do lance completo, o José Fernando regressa para dar trabalho aos homens. Os mais experientes usam uma espécie de cinto grosso à tiracolo, com o qual amarram as «calas» para multiplicar a força braçal. Depois de uma hora, ou um pouco mais, eis que a rede chega à orla da rebentação, num rebuliço prata de escamas e salpicos. Quando o mar é generoso, até há sardinha (coisa rara), santolas, lulas, raias, bicas e safias.

Este final feliz, em boa verdade, é um novo começo. O começo da partilha entre todos, talvez a maior virtude que mantém esta arte viva. «Cada um leva um pouco de tudo», sendo a distribuição participada, justa. E nisto, uma cena quase bíblica: Zé «Bala» arremessa com força dois ou três punhados de areia molhada à arte. «Os antigos já faziam isso. Mas não tem nenhum significado. É só para enxotar o peixe graúdo que vem à boca da rede. Os robalos e os sargos assustam-se e vão lá para dentro»…

Câmara de Lagos quer resolver conflito de interesses

Ouvida pelo «barlavento», Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal de Lagos esclarece que «os órgãos municipais têm trazido com alguma regularidade este tema à discussão, reconhecendo a importância desta arte de pesca como expressão do património cultural imaterial, mais do que como atividade económica». Devido a essa «singularidade», a autarquia «tem defendido junto das entidades competentes, a existência de uma única licença para a arte xávega em Lagos, que deverá ser atribuída a quem a desenvolva nos moldes tradicionais, ou seja, com a força braçal, o que seria alcançado através da revisão da legislação vigente, salvaguardando-se que sempre que num determinado território exista prática na sua versão artesanal, não sendo autorizada outra com recurso a meios mecânicos». Para Joaquina Matos, só assim se poderá reforçar «a afirmação da nossa identidade cultural local e a salvaguarda das minorias. Hoje, esta arte já é um cartaz turístico, mas tem potencial para ser ainda melhor trabalhada do ponto de vista da sua valorização e divulgação».

Urgem medidas concretas de proteção

A Assembleia Municipal de Lagos já aprovou uma proposta para que a Câmara proceda às diligências necessárias para integrar esta arte de pesca artesanal no inventário nacional do Património Cultural Imaterial. Uma causa que Dina Salvador, bióloga e ativista, tem vindo a defender. «É também urgente mandar fazer um novo barco, dado o mau estado a que o atual chegou. Isentar a arte do Zé «Bala» da obrigação de vender peixe em lota seria um enorme alívio e um estímulo para a sua continuidade, até porque é praticada apenas com base no espírito da partilha, da solidariedade, sem quaisquer fins comerciais. Estamos a falar numa arte ancestral, que apenas no município de Lagos é praticada à força de braços, de forma regular, sem ser apenas em datas festivas, como acontece em mais dois ou três lugares da costa portuguesa. Tem, por isso, um valor cultural e etnográfico único em Portugal», diz.

«Infelizmente, na Meia Praia, no outono e inverno, também opera uma segunda xávega, esta mecanizada, com tratores, pertença de alguém de fora, altamente lesiva, pois pratica o arrasto durante toda a semana, fazendo vários lances em cada noite, na Meia Praia, desde o molhe, até à zona onde opera a xávega tradicional, obrigando-a a organizar-se ao domingo, dia em que a lota está encerrada», nota. O problema é que «a xávega mecanizada tem mais velocidade e força, pois são os tratores que puxam a rede, fechando a malha, não permitindo assim, a fuga dos juvenis. É uma concorrência desleal não só para a tradicional, mas também para os barcos que pescam ao largo. Como está próxima da lota, consegue vender o peixe primeiro que os demais, mais valorizado. Espero que os lacobrigenses não permitam que uma arte vinda de fora, com intuitos apenas lucrativos, coloque em risco um património que é nosso e merece ser preservado», alerta.

Oportunidade para conhecer e participar

As Jornadas Europeias do Património 2018 são, este ano, subordinadas ao tema «Partilhar Memórias», sendo que Lagos propõe assistir e participar, na arte xávega, na Meia Praia, no sábado, dia 29 de setembro, entre o Bar Linda e a Duna, a partir das 7h00 e até cerca das 8h30.

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