Âmago, empresa algarvia que ajuda hotelaria a poupar água e energia chega além-fronteiras

Empresa criada em 2008 tem vindo a crescer na área das soluções eficientes para a poupança energética. Sistemas permitem aos empresários hoteleiros poupar milhares de euros por ano.
João Raposo, fundador da Âmago.

«Eficiência energética» é uma expressão que começou a fazer parte do dia a dia de quem quer poupar muitos euros nas contas ao fim do mês. A Âmago é uma empresa, localizada em Portimão, que permite ajudar na tarefa de encontrar soluções, instalando sistemas ou medidas com base nesse objetivo. O principal foco a nível de clientes são os grandes edifícios, em particular da hotelaria, e é nesta área que a empresa administrada por João Raposo está a dar cartas.

«Estamos muito focados nos edifícios de serviços, hotéis, centros comerciais, escolas, hospitais, e não tanto na habitação, embora também façamos Certificação Energética para particulares. A nossa grande especialidade são os imóveis de grande dimensão», contou ao «barlavento» João Raposo, fundador da Âmago.

Aluno da primeira geração do Instituto Politécnico de Faro do curso que, na altura, se denominava Engenharia Térmica, o empresário conta com uma equipa de sete técnicos, engenheiros e arquiteto, que encontrou uma nova forma de crescer no mercado, ao dedicar-se sobretudo às necessidades da indústria hoteleira.

O negócio nasceu em 2008, na altura, muito centrado na novidade da Certificação Enérgetica. A crise, que a partir desse ano afetou a construção civil, levou a Âmago a diversificar o seu core business.
Cada vez que a equipa emitia um Certificado Energético, apoiado por um relatório detalhado com medidas para tornar o edifício mais eficiente, João Raposo notava que os clientes ficavam com o papel, que era, em alguns casos, apenas a formalidade necessária para uma escritura ou para financiamento. Na prática, pouco ou nada faziam para implementar as sugestões. «No fundo, não estávamos a implementar eficiência energética, nem a conseguir poupanças», contou.

João Raposo resolveu, então, apostar num modelo de negócio para edifícios de maior dimensão que, apesar de ser novidade em Portugal, nessa altura, já não o era nos Estados Unidos da América ou no resto da Europa.

«Apresentávamos um relatório, resultado de uma auditoria energética, que estimava que um investimento na ordem dos 300 mil euros levaria à poupança de 100 mil euros por ano. Estaria pago em três anos», exemplificou.

O problema, até acentuado pela crise, é que o cliente duvidava, muitas vezes, se o investimento que teria de fazer, se traduziria, na prática, na amortização e poupança apresentados pela empresa. «Nós temos tanta confiança e segurança de que estas estimativas são corretas, que estou disposto a arranjar o dinheiro e a fazer as obras. O cliente vai pagando em função das poupanças que daí resultam», garantiu o fundador da Âmago. Este processo dá pelo nome de «Contrato de Desempenho Energético».

À cabeça, desses 100 mil euros, o cliente recebe logo 10 por cento, começando a poupar sem gastar nada.

«Faturamos 90 por cento e, em vez de ser três anos, vai ser um período de quatro, cinco ou sete, o que nos permitirá rentabilizar o investimento, contando com uma margem para nós e com o facto de termos de pagar os juros do financiamento», revelou o empresário. Ou seja, o cliente não corre riscos, obtém um edifício com eficiência energética feito por uma equipa especialista e tem a garantia de resultados.
O primeiro teste aos contratos de desempenho energético efetuados pela Âmago foi implementado no Pestana Dom João II Beach & Golf Resort, em Alvor, que, estando a ser faturado desde 2014, consegue poupanças na ordem dos 25 por cento. Foi o primeiro contrato no Algarve e o segundo em todo o país.

Aliás, o grupo hoteleiro já apostou em contratos de desempenho energético também no Pestana Viking Beach & Golf Resort, em Armação de Pêra, onde a empresa está a conseguir reduções de energia que rondam os 40 a 45 por cento.

Já o terceiro contrato foi firmado com o Pestana Alvor Park Beach Aparthotel, a primeira unidade onde foram montados também painéis fotovoltaicos. Está ainda em vista a implementação de mais. Foi com o primeiro contrato de desempenho energético que a empresa concorreu ao Fundo de Apoio à Inovação (FAI) e venceu. «Fomos os que mostramos que conseguíamos obter mais poupanças e, por isso, ganhámos o direito de nos emprestarem dinheiro. São 70 por cento do total que precisávamos. Ou seja de 388 mil euros, recebemos 270. Esta aprovação ofereceu-nos um ano de carência e três anos para devolver o dinheiro emprestado, sem juros», disse.

O foco na hotelaria é interessante, sendo esta uma indústria exposta a muitos desafios, como a sazonalidade. «Não podem desligar tudo e manter o hotel em funcionamento. Há unidades que gastam muita energia nos meses de inverno em aquecimento, porque têm que manter as zonas comuns aquecidas, mesmo quando tem dez ou quinze por cento de ocupação. E custa o mesmo com altas ou baixas receitas».
Ao contrário do que acontecia num passado recente, a instalação de sistemas eficientes de aquecimento, ventilação e ar condicionado (AVAC) é hoje um ramo especializado da engenharia, visto que o conforto térmico dos edifícios é determinante para a poupança de energia. Esta é também uma vertente que a Âmago tem desenvolvido.

«Nos projetos de edifícios novos tentamos reduzir os consumos com a utilização de materiais, colaborando com a arquitetura, jogando, por exemplo com as janelas e isolamentos térmicos. Depois de otimizarmos o edifício a nível térmico, vamos complementar as necessidades de climatização ou ventilação», tirando partido das energias renováveis sempre que possível, acrescentou. «O mínimo legal para a certificação energética de um projeto, num edifício novo é B-. No entanto, tentamos que seja sempre o mais elevado possível, desde que haja vontade do arquiteto e do dono da obra».

Âmago criou o software Gemax para manutenção dos hotéis

Na hotelaria, um edifício normal costuma ter dezenas ou centenas de quartos, locais diversos e muitos equipamentos que necessitam de manutenção para prevenir gastos inconvenientes. O sistema de manutenção Gemax, criado pela Âmago, colmata a necessidade que as empresas do sector sentem, no que diz respeito ao Plano de Manutenção dos imóveis ou Registo de Ocorrências.

«Para obter um certificado energético é obrigatório ter um Plano de Manutenção, corretivo e preventivo. Tal como o Registo de Ocorrências, pois deve estar registado todo o histórico de intervenção nos equipamentos de climatização, que a legislação obriga. Pode ser uma folha de papel, um documento Word, mas poucos o fazem», resumiu. Assim, em 2010, o empresário analisou um conjunto de softwares de manutenção existentes no mercado, mas chegou à conclusão ou que eram desenvolvidos para fábricas ou grandes navios da Marinha Mercante e eram programas muito complicados e pesados.

Lançou mãos à obra e desenvolveu um conceito simples e versátil, em conjunto com o engenheiro Tiago Pinto, que trabalha na Âmago e uma equipa de programadores para desenvolverem o produto.

Daí resultou um programa já instalado em todas as Pousadas de Portugal (geridas pelo Pestana Hotel Group) em 2012, tendo sido alargado às outras unidades do Grupo em Portugal Continental e Ilhas, em maio de 2016. São cerca de 65 unidades, tendo sido um grande passo para a empresa de Portimão.

«Esse é outro pilar que permite atacar um dos aspetos da eficiência energética, que é a manutenção preventiva dos equipamentos. Se os filtros forem limpos periodicamente, as correias e as lubrificações monitorizadas, as máquinas vão funcionar melhor, consumir menos energia e ter menos avarias», argumentou João Raposo.

Em qualquer altura, os técnicos de manutenção de um hotel «podem saber que intervenções se fizeram naquela máquina, naquele quarto ou na caldeira». Na prática, qualquer pessoa que trabalhe no hotel recebe um pedido de trabalho ou um reporte de uma avaria. É enviada uma SMS ao técnico ou uma notificação e, em função da urgência, ele gere as tarefas. «Uma pessoa insere no programa que no quarto 203 o ar condicionado não funciona. O técnico da manutenção vai arranjar e, no final, regista no sistema o que fez. Gere as tarefas diárias e os espaços passam a ter um histórico de intervenções, o que permite identificar um problema recorrente», detalhou.

O programa está em funcionamento e em continuo desenvolvimento, estando a ser preparado para as aplicações móveis.

Monitorizar é essencial

Ao implementar Contratos de Desempenho Energético, a Âmago tem que garantir que as poupanças são reais, por isso torna-se fundamental, a monitorização das medidas e sistemas de eficiência energética. «Analisamos os consumos diários ou, às vezes, de hora a hora. Tudo para que não haja anomalias. Se houver uma fuga de água ou um consumo anormal somos alertados por email e SMS. Sempre que algum dos valores foge demasiado ao normal, o sistema avisa», detalhou o responsável pela Âmago.

João Raposo consegue ver num computador como está a funcionar o sistema em determinado local em tempo real. Tomando como exemplo o Pestana Viking, em Armação de Pêra, ou o Pestana Dom João II, em Alvor, o empresário mostrou ao «barlavento», no escritório em Portimão, que basta carregar num botão para ligar a climatização dum local. É a Gestão Técnica Centralizada.

«Os hotéis grandes costumam ter um sistema central de arrefecimento. Por exemplo, a água sai a sete graus e volta a doze. A razão das elevadas poupanças que estamos a ter no Pestana Viking é que estas temperaturas oscilam. O ar condicionado ao fazer frio no interior, deita fora calor para o exterior. Mas podemos aproveitar esse calor, por exemplo, para produzir água quente sanitária, explicou.
O hotel tem quatro depósitos com capacidade individual de cinco mil litros de água e consegue aquecê-la de forma quase gratuita. «As caldeiras a gasóleo, no verão, estão paradas. Antes trabalhavam 12 horas por dia, agora estão ligadas vinte minutos. E é uma redução de custos brutal», justificou.

Esta gestão de energia passou por um período de muita afinação e de avaliação das necessidades do hotel e este é um tipo de trabalho que nem todas as empresas «da nossa especialidade sabem fazer ou têm segurança suficiente» para fazê-lo.

Foi também essencial mudar alguns comportamentos para chegar à eficiência desejada, sem que a qualidade dos serviços aos clientes seja alterada. «Nos edifícios há horas em que a energia é mais cara. Tipicamente é das 9h00 ao 12h30. As bombas das piscinas, por exemplo, no verão têm que trabalhar o dia todo, mas no inverno podem ser desligadas nessas horas. Houve um dia que alguém começou a usar energia naquele contador, fomos alertados pelo sistema e fomos ver o que se passava. Eram os mergulhadores que usavam a máquina para encher as garrafas de mergulho. Explicamos que se não houvesse inconveniente deveriam fazer aquela tarefa à tarde, por causa dos custos de energia.

Portimonenses concorrem com os grandes da energia

«Somos a única empresa no Algarve completamente dedicada à eficiência energética. Podíamos fazer outro tipo de projetos ligados à engenharia, mas não queremos. Neste momento, efetuamos três serviços diferenciados. Há mais empresas no país, mas a nível de serviços de energia, nestes moldes, apenas há 41 empresas registadas na Direção Geral de Energia», referiu o empresário. Concorrem lado a lado com grandes insígnias como a EDP e a Galp. «Somos pequenos, muito competitivos, conseguimos obter mais poupanças que os outros e conseguimos atingir as poupanças a que nos propomos. E essa é a nossa grande diferença», afirmou satisfeito o fundador da empresa.

Empresa algarvia chega além fronteiras

O Pestana Hotel Group é o cliente da empresa portimonense com maior volume de edifícios a requisitar os serviços de eficiência energética. No entanto, a Âmago tem, nos nove anos de história, conquistado diversos projetos. Na cidade onde está sediada, o grupo de técnicos trabalhou na requalificação do edifício Mabor, perto da zona ribeirinha, para o qual efetuou os projetos térmicos em parceria com outra empresa da área da engenharia civil e arquitetura. Nesse caso, foi necessário a equipa aproveitar o imóvel existente para implementar as medidas de eficiência energética. «Fez-se quase tudo, desde mudar os envidraçados à colocação de sistemas solares», revelou João Raposo, responsável pela Âmago.

No mesmo concelho, o empresário efetuou o Certificado Energético do Pestana Algarve Race Hotel & Resort, junto ao Autódromo Internacional do Algarve, bem como «alguns trabalhos com a cadeia do Hotel Júpiter, que tem unidades em Lisboa e Portimão». No resto do país, como Lisboa, Viseu, Bragança, Ilha da Madeira ou São Tomé e Príncipe, contam criação de medidas de Eficiência Energética. São grupos hoteleiros na grande capital, edifícios de escritórios, escolas privadas, supermercados e hipermercados. «Há outras cadeias que ainda não estão muito sensíveis a este assunto, pois trabalham com margens mais apertadas, mas, por exemplo, o grupo Sonae tem um sistema especial feito pela própria marca», explicou. Já as entidades públicas, como as Câmaras Municipais, acabam por se deparar com limitações legais que tornam complicado atuar nestes modelos de contratos de desempenho energético. No horizonte estão na calha projetos no sul de Espanha.

Investir para poupar em casa

A maioria das dicas de poupança de energia na utilização doméstica já são conhecidas pela maioria das pessoas, mas nunca será demais voltar a enumerar algumas. João Raposo, fundador da Âmago, contou que os contratos que a empresa desenvolve são mais adaptados a outros sectores como a hotelaria e serviços ou edifícios de grande dimensão do que aos particulares. «Conseguimos contratos de desempenho energético de cinco anos, até porque mais do que isso torna o peso dos juros mais elevado. E a nível doméstico, é difícil obter prazos semelhantes, pois depende muito do uso que as pessoas dão aos equipamentos e, como são quantidades de energia muito baixas, não justifica para nós enquanto empresa». Apesar de não ser uma medida para particulares, o empresário incentiva as pessoas a fazerem investimentos em soluções de eficiência energética do próprio bolso, pois «a cinco ou seis anos vai compensar». «Em habitação, o solar-térmico ou mesmo o fotovoltaico, se houver condições, ainda que seja só 1500 watts, compensa.

O auto-consumo, neste caso, tem que ser muito cuidado, porque, regra geral, não estamos em casa durante o dia», alertou. Ou seja, há que verificar primeiro qual o consumo habitual dos equipamentos que estão sempre ligados (frigorífico, arca congeladora). «Às vezes, basta ter 200 ou 300 watts, que é um painel ou dois, e já equilibra. Mais pode ser um desperdício, pois depois não se consegue vender à EDP ou, se conseguir (acima dos 1500 watts é possível), é a tarifas muito baixas de quatro ou cinco cêntimos», avisou. No entanto, se a habitação for maior, com bombas de piscina e sistema de rega, um investimento maior em energia fotovoltaica compensará. Outros exemplos são a utilização de lâmpadas Light Emitting Diode (LED) nas divisões onde a luz está ligada por maiores períodos (cozinha ou sala de estar), a colocação de redutores de caudal nas torneiras, a troca de equipamentos com mais de dez anos.

«Fiz as contas na minha casa e vi que se trocasse o frigorífico poupava cem euros por ano. Um novo, se for 700 euros, está pago em sete anos. E se for estimado, dura muito tempo. Na minha opinião, frigoríficos com dez anos, hoje já compensa trocar», concluiu.

Certificação energética só está no terreno há oito anos

A reviravolta nesta área começou em 2006, quando foi criada a legislação acerca da certificação energética. No entanto, só após três anos é que esta começou a ser implementada na prática nos edifícios. Entretanto, em agosto de 2013, a legislação seria revista, entrando em vigor em janeiro do ano seguinte. Esta temática já conta, hoje, com um decreto de lei, revisto quatro vezes, quase uma dezena de portarias, doze despachos e quatro ou cinco erratas, explicou o empresário João Raposo.

E quando a questão é a poupança de custos na energia, o assunto toca na situação das ajudas estatais, incentivos e subsídios. «Existe o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR), a nível da União Europeia» com fundos a que as empresas, Estado e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) se podem candidatar. Uma medida que contou com atrasos na implementação, pois «a União Europeia sentiu necessidade de corrigir alguns aspetos a nível da legislação energética por não estarem de acordo com o espírito da Diretiva Europeia. Por isso, houve quatro alterações», afirmou.

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