Alvor preserva a memória dos salvamentos marítimos

Estação Salva-Vidas será renovada para acolher um núcleo museulógico. O projeto ronda os 272 mil euros.

À beira da Ria de Alvor, ao lado da azáfama do dia a dia, das gaivotas que perseguem os pescadores sob o olhar curioso dos turistas e dos pescadores reformados que encontram na antiga lota espaço para dar eco às histórias dos tempos de maresia, será criado um Centro de Interpretação alusivo, sobretudo, aos salvamentos marítimos de Alvor.

Esses contadores de histórias, protagonistas de episódios nas águas ali bem perto, encontrarão, a partir de dezembro de 2018, na antiga Estação Salva-Vidas de Alvor um local que homenageia a faina, a Ria de Alvor, a diversidade de atividades da vila, além do heroísmo de muitos homens e mulheres do mar.

Tudo porque, a Câmara Municipal de Portimão assinou um protocolo com o Ministério da Defesa Nacional para a cedência deste imóvel, na sexta-feira, dia 27 de fevereiro, e já tem um projeto para a criação do Centro Interpretativo candidatado ao Programa Operacional Regional do Algarve (CRESC Algarve). Custará 272 mil euros e promete não deixar morrer estas memórias, tirando partido da interatividade e das novas tecnologias para levar o visitante a viajar até meados do século passado.

Todo o espaço da antiga Estação do Instituto de Socorro a Náufragos (ISN) será aproveitado, ficando logo junto à entrada um painel que introduz à exposição e uma maqueta, conforme revelou Isabel Soares, chefe de divisão do Museu de Portimão. A proposta mostra ainda que seguir-se–á uma vitrina interativa «com documentação da embarcação, o registo de ocorrências, num módulo interativo onde os visitantes podem consultar» esses documentos, explicou. Haverá ainda um módulo com o resumo histórico, cronologia e recriação do salvamento, enquanto ao fundo do edifício ficará um arquivo interativo sobre as artes de pesca, quotidiano dos pescadores e a biodiversidade da Ria Formosa, estando ainda reservado um espaço sobre a comunidade piscatória de Alvor. Terá ainda «um módulo interativo em 3D, no qual será possível desmontar o barco e ver, ao pormenor, cada peça da embarcação, bem como uma maqueta táctil, onde as pessoas com dificuldades visuais podem conhecer à escala» o barco, disse ainda.

No primeiro piso, será aproveitada uma pequena mezzanine para criar um auditório, onde serão «visionados filmes ligados à pesca, aos salvamentos, alguns com os pescadores a contar as histórias na primeira pessoa», afirmou.

Ao centro da sala, no piso térreo, ficará o maior tesouro. Será colocada a embarcação que durante 50 anos, entre 1933 e 1983 transportou tantos homens na tarefa de vigiar e ajudar a salvar os homens que se faziam ao mar. «Um dos objetivos é fazer uma representação virtual da tripulação dentro do barco, com uma projeção dupla», apoiada pelos «movimentos e som», esclareceu Isabel Soares.

A outra novidade é que será possível retirar a embarcação, do tipo dinamarquês, levá-la para a Ria de Alvor e promover dois ou três passeios comentados por ano. A intenção é ainda que o espaço seja acessível a todos, residentes, turistas, pessoas com mobilidade reduzida, dificuldades visuais e auditivas, sublinhou Isabel Soares. Cada painel terá também um código para que, com um smartphone ou tablet, o visitante possa levar a informação do Centro Interpretativo para casa. Poderá também ser um imóvel que servirá as escolas como espaço de formação e sensibilização sobre esta temática.

Os mais jovens ficarão a saber, portanto, que estas pessoas que vigiavam o mar ganhavam 17$50 ou 20$00 e passavam o dia inteiro no mar, sem comer, tal como foi possível ver num vídeo com testemunhos realizado pela Casa Manuel Teixeira Gomes exibido na cerimónia. Ou histórias como a do barco que estava a afundar, mas mesmo assim foi possível resgatar os homens em perigo.
«O que pretendemos é valorizar este espaço e transformá-lo num centro de interpretação, não só da história deste edifício», mas também de todas as outras atividades marítimas ligadas ao legado desta vila e da diversidade natural que existe nesta importante zona húmida. O núcleo destacará «os salvamentos em contexto de pesca», resumiu.

Mas para acolher o núcleo, será necessária uma forte intervenção, que deverá começar no início de 2018. Segundo António Pereira, técnico superior de História do Museu de Portimão, o projeto foi elaborado de modo a preservar «as características e a identidade do edifício».

Assim, será reabilitada a estrutura em madeira dos telhados, incluindo a cobertura em telha tipo marselha e beirados, recuperadas as carpintarias interiores e exteriores o portão principal, reabilitadas as instalações sanitárias e espaços de apoio.

O técnico enumerou ainda como intervenções a limpeza e recuperação das paredes interiores e exteriores, incluindo motivos em alto relevo e lettering, e as cantarias em reboco. O edifício será pintado, instalada uma nova rede de eletricidade e telecomunicações, bem como os elementos do projeto de segurança. Será beneficiada a embarcação salva-vidas e arranjados os carris que vão permitir retirar o barco para a água.

No entanto, o local terá paredes em gesso cartonado, criando uma caixa de ar entre a estrutura original e o núcleo expositivo. «Caso seja necessário remover o núcleo, o imóvel fica intacto», justificou.

No final da apresentação, Isilda Gomes, presidente da Câmara Municipal de Portimão afirmou que «as pessoas de Portimão e de Alvor, bem como os turistas, merecem ter este espaço visitável, merecem que se garanta a continuidade da história e da memória». Para a edil, um país que não consegue preservar ambos, não tem futuro, pois é com base neles que «nós podemos de forma mais fácil e assertiva construir um futuro sustentável». Dignifica ainda a profissão, por isso outra das intenções da autarca é requalificar também a antiga lota, conforme anunciou durante a cerimónia.

A verdade é que, na visão da autarca, também o turista já não procura só o sol e praia, sendo necessário criar polos de atratividade. «O nosso turista quer mais, quer cultura, quer história, quer visitar espaços de memória e é isso que nós hoje estamos a fazer».

Marcos Perestrello, secretário de Estado da Defesa Nacional, aproveitou para agradecer a Isilda Gomes o esforço em preservar essa memória. «Estes vídeos a que aqui assistimos demonstram o que era, o que ainda é hoje, ainda que com outros meios, as dificuldades da vida no mar e das comunidades ligadas à pesca. Estas foram sendo combatidas ao longo dos anos pelo envolvimento das comunidades nas próprias missões de salvamento. Hoje o sistema está mais eficiente, mais profissionalizado, mas temos que ter a consciência de como aqui chegamos», destacou.

Por isso, aproveitou também a oportunidade para sublinhar que tem havido um esforço, nos últimos 18 meses, em modernizar e capacitar a Autoridade Marítima Nacional no que toca ao salvamento em mar. «Equipa-mo-la com novas embarcações, abrimos concurso para admissão de pessoal para o ISN, modernizamos as estações salva-vidas em funcionamento», enumerou.

O secretário de Estado anunciou também que ainda este ano, no caso do Algarve, e no que toca à temática dos salvamentos, serão instalados em Vila Real de Santo António e Sagres duas novas «unidades do sistema costa segura, vocacionado para a vigilância do espaço sob jurisdição da Autoridade Marítima Nacional, com a preocupação sobretudo da pesca, da vigilância dos mares para fins de socorro e de preservação do meio marinho», que permite também a monitorização segura, avançou Marcos Perestrello.

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