Algarve tem um «turismo de afetos»

São fiéis às «Caraíbas da Europa» e vêm para descansar. Num universo de 4205 turistas inquiridos em 2016, 98 por cento estão satisfeitos com o destino. Desidério Silva diz que é preciso trabalhar mais para o Algarve ser sustentável todo o ano

De 1993 até hoje muita coisa mudou, segundo o novo estudo «O perfil do turista que visita o Algarve», apresentado na quinta-feira, 6 de abril, na Região de Turismo do Algarve (RTA), em Faro. O documento foi realizado pela Universidade do Algarve, sob a coordenação científica e técnica dos professores Antónia Correia e Paulo Águas.

A principal conclusão é que «há uma afinidade e um apego muito grande ao destino. 87 por cento dos nossos turistas repetem o Algarve. O nível de afetividade começa a emergir na primeira visita e vai-se intensificando nas seguintes», explicou a investigadora Antónia Correia aos jornalistas. Isto porque, «consideram as férias no Algarve quase como terapêuticas».

A investigadora ficou surpreendida, pois estimava «uma satisfação global na ordem dos 60 por cento». Além disso «não estava à espera que a região ainda fosse capaz de surpreender aqueles que nos visitam com regularidade», sublinhou. No entanto, admitiu que «é preciso continuar a inovar. O facto de estarmos numa situação muito boa não deve ser apanágio para relaxarmos. É sinal que temos de trabalhar ainda mais para mantermos a excelência». E também para conquistar e fidelizar novos turistas, já que apenas 13 por cento dos inquiridos vieram pela primeira vez.

Para Desidério Silva, presidente da RTA, esta é «uma base de trabalho que não assenta em perceções, não assenta em pensamentos casuais, nem na ideia de um ou outro técnico que teoricamente é muito forte, mas que, na prática, não conhece» a realidade. «O nosso objetivo deve ser atingir a satisfação plena de quem nos visita. O que foi dito nestes inquéritos permite-nos fazer correções ao nosso plano de marketing», «com uma aposta mais forte na gastronomia, no posicionamento cultural, no saber receber cada vez melhor. Não podemos ficar satisfeitos enquanto o Algarve não atingir a sustentabilidade, que passa por uma taxa de ocupação anual que ultrapasse os 70 a 75 por cento». Para isso, defende «uma oferta genuína, não maquilhada, em que a tradição e as raízes desta terra possam sobressair», disse.

Na sua intervenção, o presidente da RTA chamou a atenção às entidades públicas «que têm a capacidade de intervir no território», referindo-se aos constrangimentos na mobilidade. «O turista continua a dizer que no Algarve sente-se bem, que é bem recebido, mas quer experiências diferentes: golfe, caminhadas, bicicletas, praia, animação noturna. É preciso continuar a apostar nessa diversidade», disse ainda aos jornalistas. Durante a apresentação, um dos pontos criticados foi a falta de referência ao chamado turismo acessível. Ou seja, dirigido a pessoas portadoras de deficiência. «De facto, não temos nenhuma pergunta [no inquérito] que nos permita dar resposta» a esse segmento, admitiu Paulo Águas, frisando que, ainda assim, seria uma amostra muito pequena no âmbito deste estudo. Desidério Silva, esclareceu que «é um assunto sensível no qual estamos a trabalhar. Deve ser uma prioridade da região, pois mexe com milhares de pessoas, e é um esforço que tem de ser feito por públicos e privados».

O turismo em números
98 por cento dos turistas dão nota positiva à região. A praia, o clima, a gastronomia e as pessoas motivam a satisfação, que é transversal aos vários perfis de turista, sejam eles tradicionais ou residenciais, alojados em qualquer dos concelhos, dentro ou fora da época alta. A amostra total abrangeu 4205 inquéritos, realizados em dois períodos de 2016: de julho a agosto (época alta), e mais tarde, de setembro a outubro.

Foram inquiridos dois tipos de turista: o tradicional (que utiliza as formas de alojamento tradicionais) e o residencial (que se aloja em casa própria, de familiares e amigos, ou em arrendamentos). 90 por cento garantem que vão recomendar o Algarve e são os que viajam em julho/agosto que maior afinidade têm. Os turistas residenciais ficam, em média, 12,6 dias, e a maioria já conhecia a região (87%), o local que visitam pelo menos uma vez por ano (49%), partilhando as suas férias nas redes sociais (48%).

Além da casa própria, utilizam também o arrendamento (47%) que é reservado sobretudo online (61%), no Booking.com (23%) ou no AirBnb (28%), com o alojamento local a ganhar consistência e quota de mercado. Os turistas tradicionais, alojam-se em hotéis (53%) ou resorts (34%) por 8,9 dias. Uma procura estrangeira (79%) justifica a deslocação por via área (68%). Também estes turistas são habituais na região (74%), ainda que com uma cadência de visita menor (39% fazem-no uma vez por ano e 33% ocasionalmente).

O turismo tradicional é sobretudo proveniente de Portugal (21%), Reino Unido (25%) e Alemanha (11%), enquanto o turismo residencial alberga nacionais (42%), britânicos (19%) e franceses (8%). Em termos económicos, cada visitante gasta em média 136 euros por dia, gerando uma receita estimada de 1400 euros por turista. A região registou um fluxo de dormidas superior a 18,1 milhões em 2016 (face a 16,6 milhões em 2015). Albufeira (42%), Loulé (12%) e Portimão (12%) são os municípios preferidos pelos turistas tradicionais.

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