«Algarve tem tudo para ser o próximo centro de inovação na Europa»

Florian Möller, 27 anos, consultor sénior da empresa alemã «Turbine Kreuzberg», com sede em Berlim e filiais em Estugarda e Faro.

Era uma loja de pronto-a-vestir de uma das primeiras marcas portuguesas do sector, no coração da cidade de Faro. Hoje, os computadores dominam o espaço arejado e confortável, onde uma equipa de 11 pessoas, a maioria talentos locais, desenvolvem projetos informáticos ao serviço da empresa alemã «Turbine Kreuzberg» (ex-«VOTUM»).

Florian Möller, 27 anos, começou há mais de quatro anos, quando era ainda estudante. Hoje é consultor senior da empresa e não esconde o entusiasmo de estar em Faro. Porquê? A possibilidade de trabalhar pontualmente em destinos aprazíveis, como o Algarve, é uma tendência muito querida à chamada geração Y (millennials). As novas empresas ligadas à inovação sabem disso. «Um dos nossos colegas visitou a cidade e gostou, viu nela potencial e, na verdade, o tipo de trabalho que realizamos (digital) permite-nos superar fronteiras físicas. As pessoas em Faro são muito acolhedoras e tolerantes, a cidade tem um aeroporto excelente, com ligações a quase toda a Europa e, claro, há o clima e as praias. Achámos que poderíamos abrir aqui uma filial. Entretanto, surgiu a oportunidade de criar uma equipa local e arranjámos este espaço. Para nós, é bom estarmos aqui, temos um bom ambiente de trabalho», conta ao «barlavento».

«Trabalhamos num tipo de negócio emergente. Só este ano, o crescimento da empresa rondou os 40 por cento, com um volume de negócios superior a cinco milhões de euros». A filial no Algarve, com morada fiscal portuguesa, cria atratividade e já ajudou a empresa a atingir objetivos. «Na verdade, muitos dos nossos colegas em Berlim pedem para experimentar trabalhar aqui; alguns já cá estiveram, inseridos em projetos de trabalho, outros apenas de férias, e ficam instalados no nosso apartamento, em pleno centro da cidade», informa.

Este intercâmbio é bilateral, pois os programadores algarvios contratados pela empresa alemã também têm a possibilidade de visitar a sede, trabalhar e receber formações em Berlim. Outro aspeto diferenciador é que esta empresa encara as congéneres como potenciais parceiras.

«O mercado regional não é o nosso objetivo principal. Fazemos sobretudo grandes lojas on-line, plataformas de comércio eletrónico, portais complexos e de grande escala para empresas multinacionais», a maioria com sede no norte da Europa, explica Florian Möller.

Em Faro «já fizemos, por exemplo, uma plataforma B2B (Business-to-business, é a denominação do comércio estabelecido entre empresas) para a comercialização de produtos bio alemães. Será um portal em 11 idiomas, de forma a estar acessível à maioria dos países europeus». Questionado sobre o que acha das competências dos colegas portugueses, o coordenador alemão sublinha que estamos a falar de pessoas com um nível muito avançado de conhecimento, por isso os salários auferidos são também acima da média.

«Bom, o que posso dizer é que conseguimos concluir aqui dois grandes projetos, com sucesso, muito antes do prazo previsto. Na minha opinião, tal só poderia ser possível com uma equipa extraordinariamente boa. Creio que os nossos colaboradores portugueses percebem muito bem os valores desta empresa, que valoriza a partilha de conhecimento e o trabalho de equipa. Ou seja, aqui não queremos que haja um indivíduo na liderança, queremos que todos estejam ao mesmo nível, criando um sentimento de auto-responsabilização e de pertença. Assim, conseguimos maximizar e superar a qualidade daquilo que fazemos», sublinha.

Na verdade, «não temos hierarquias. Temos dois fundadores (CEOs) que são a única liderança que se pode sentir na organização, de resto, trabalhamos todos ao mesmo nível, em termos de delegação de competências. Por exemplo, aqui em Faro temos programadores (developers), mas não há ninguém para controlar ou regular seja quem for. É o mesmo em Berlim», compara.

Em 2018, a «Turbine Kreuzberg» quer aumentar a equipa portuguesa. «No próximo ano, queremos ter, pelo menos, 20 pessoas connosco. Parece-me um número realista», considera. Florian Möller acredita que a proximidade e a troca de conhecimento com a Universidade do Algarve também é uma mais-valia.

«Já organizámos uma maratona de programação, no dia 13 de maio (Hackathon Miracle Day) na qual reunimos jovens estudantes. Mostrámos-lhes como se implementa uma loja on-line e todos eles saíram com uma perspetiva realista do desenvolvimento do software. Encorajamos qualquer aluno interessado em aprender sobre estas tecnologias a contactar-nos», aconselha. Por fim, perguntamos a Möller, se no futuro vai trabalhar a tempo inteiro em Faro? «Isso seria um sonho»…

Comércio eletrónico continuará a crescer

A questão que colocamos a Florian Möller, consultor sénior da empresa berlinense «Turbine Kreuzberg» é, se acha que num futuro próximo, as lojas virtuais na Internet e o chamado comércio eletrónico (e-commerce) vão estagnar? «É muito fácil responder a essa questão. A procura que temos tido por parte dos nossos clientes não tem parado de crescer. Todas as semanas pedem-nos novos projetos. Qualquer empresa que ainda não tenha feito nada em termos de digitalização, deverá fazê-lo o quanto antes ou não será suficientemente competitiva no futuro. Creio que este é um caminho irreversível e que continuará a crescer. Na verdade, muitos modelos de negócio tradicionais terão de mudar e evoluir a curto prazo, caso ambicionem continuar a ter um futuro. A Internet será a base de praticamente tudo», prevê.

Faro Dev(elopment) Day convoca cérebros da Internet

«É o tipo de eventos que acontecem maioritariamente nas grandes cidades», diz Florian Möller, sobre o Faro Dev Day, um grande encontro sobre desenvolvimento de software, inovação e programação. Está marcado para 14 de outubro, nas instalações da «Turbine Kreuzberg», na Rua Mouzinho de Albuquerque, no coração da capital algarvia. «A entrada é gratuita. Só precisam de adquirir os bilhetes que ainda temos disponíveis, mas quase a esgotar. Teremos vários oradores, alguns da nossa equipa de Faro, que irão fazer algumas apresentações (todas em língua inglesa) e também vamos ter pessoas da cena start-up de Berlim». Um dos destaques vai para o algarvio Ricardo Vice Santos, empreendedor da «Fika.io» que aos 29 anos, se cruza com Chamath Palihapitya (um dos homens fortes de Mark Zuckerberg, fundador do facebook), e consegue, em 25 segundos, um milhão de dólares para investir na sua app, a «Roger», depois de ter passado pela Spotify, em Nova Iorque.

Outro nome forte presente, também do Algarve, é Miguel Coquet, um freelancer que trabalha para a Buzzfeed, nos Estados Unidos da América e mentor das Geek Sessions Faro, que têm sido fundamentais na consolidação e troca de conhecimento da comunidade de programadores Dos vários nomes da prata da casa, destaca-se o jovem talento Jorge Murta, um programador que começou na «Votum» com apenas 21 anos, e já desenvolve código para grandes lojas on-line.

Florian Möller insiste na importância de juntar todos estes recursos. «Achamos que o mercado é tão grande, que todos podemos crescer juntos e ter sucesso, se partilharmos o conhecimento. A ideia pode parecer estranha, mas, na verdade, não somos concorrentes. Em Portugal e nesta região, queremos construir uma base/incubadora para companhias tecnológicas. Se continuarmos a consolidar a comunidade, será mais fácil fazermos mais e melhor», conclui. O programa está disponível em http://www.devday.pt/

«Votum» passa a ser «Turbine Kreuzberg»

Depois de 20 anos sob o nome «Votum», a empresa decidiu que estava na altura de mudar de nome, embora toda a filosofia de trabalho e objetivos se mantenham invocados. Um brainstorming entre membros da equipa decidiu a nova marca «Turbine Kreuzberg». Florian Möller explica o conceito. «Kreuzberg é o nome de um bairro de Berlim, que está a tornar-se numa espécie de Silicon Valley da Europa. No edifício da nossa sede, por exemplo, temos como vizinhos o Google-Campus, que está a funcionar como incubadora de start-ups na área das tecnologias. Todas as empresas ligadas à Internet, tecnologia e inovação estão a concentrar-se neste distrito. Não fabricamos turbinas, mas achámos que seria uma palavra interessante. Basicamente o que fazemos é dinamizar e acelerar o desempenho da “energia” dos nossos clientes. Tal como uma turbina. O novo nome da empresa será apresentado em Faro durante o evento «Dev Day», a 14 de outubro.

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