«Algarve deve formar Zona Metropolitana» defende António Rebelo de Sousa

Economista e professor catedrático, António Rebelo de Sousa, 65 anos, é o co-autor do estudo «O Algarve: Análise Sócio-Económica» apresentado no final da semana passada pela editora «Sul, Sol e Sal». Em conversa com o «barlavento» traça um conjunto de conclusões e orientações para a região.

barlavento: Fazia falta um livro como este?
António Rebelo de Sousa:
O meu papel foi rever a matéria reunida por Celina Luís que envolveu um trabalho muito exaustivo. Ajudei sobretudo na apresentação de uma série de propostas e nas conclusões. Penso que faz muita falta. É uma síntese atualizada das principais variáveis macroeconómicas da economia algarvia. Traça um ponto de situação hoje, em termos demográficos e territoriais, de exportações, de importações, de população ativa e de investimento. No entanto, há um aspeto que não se conseguiu, de facto, aprofundar. Não há estatísticas sobre os fluxos de rendimento turísticos. Isto é, a rendibilidade das unidades hoteleiras localizadas no Algarve. Muitos grupos não têm a sede na região. E portanto não fazem a sua conciliação de contas individualizando os números das unidades que possuem no Algarve. Falta também saber que parte do rendimento criado nessas unidades fica no Algarve e é reinvestido na região. É uma incógnita, portanto. Era bom ter acesso a essas informações para depois, de alguma forma, podermos ajuizar sobre o impacto que têm (ou não) no desenvolvimento económico algarvio. É uma falha de informação. Apesar de tudo fica-se com uma ideia da importância de vários sectores, como a indústria transformadora agroalimentar, e a aquacultura. Já aparecem dados, inclusive referências à economia verde e às energias renováveis. Numa segunda parte do livro, analisa-se a sua evolução, tendo em conta as particularidades do Algarve.

Pode dar um exemplo dessas particularidades?
Quando há crises recessivas, que afetam sobretudo o sector do turismo, há uma transferência, uma transumância de mão-de-obra do sector moderno para o mais tradicional. Ou seja, vai diretamente para o sector agrícola. É impressionante. Alguns autores de referência explicam que o processo de desenvolvimento das sociedades faz-se com a transferência dos sectores tradicionais para os modernos. Mas aqui, vemos esse processo invertido. Isso aconteceu durante a crise de 2011-2014. Mas assim que começou a acontecer uma recuperação económica, todo o processo inicial foi retomado. E isso é uma originalidade.

E que mais identificou?
O Algarve é a região com o maior crescimento demográfico e com a percentagem mais elevada de mão-de-obra jovem. É uma potencialidade que poderá ser explorada no futuro, e trazer dinamismo à hotelaria e às atividades laterais. Depois, temos outras particularidades. O Algarve tem uma sociedade profundamente dual. É das regiões mais duais de Portugal, com as maiores maiores desigualdades. Simplificando: entre o litoral e o interior há grandes assimetrias. Há de facto um triângulo dourado, entre Faro, até ao princípio do concelho de Silves, e Portimão, incluindo Loulé. O resto do território tem um grau de desenvolvimento muito inferior. Essa economia e sociedade duais são uma característica muito acentuada do Algarve.

O Algarve olha para o mar enquanto recurso?
Esse é outro aspeto que deveria obrigar a uma reflexão por parte dos algarvios. Tendo à sua frente a possibilidade de desenvolver mini clusters do mar, a verdade é que a região fica muito aquém do potencial que tem. Penso que o Algarve não faz o esforço de inovação científica e tecnológica que deveria. Nota-se, por exemplo, em comparação com o que acontece nas Universidades de Aveiro, do Minho, de Trás-os-Montes e Alto Douro, de Évora e até mesmo em Castelo Branco e na Covilhã, há sinergias com o meio empresarial que não acontecem da mesma maneira no Algarve. Se virmos os trabalhos de investigação que surgem nessas academias, e o ranking que conseguem a nível internacional, há uma grande diferença. E isto tem de ser pensado construtivamente. Para haver um cluster do mar, tem de haver associações empresariais fortes, com grande espírito de solidariedade entre pequenas e médias empresas. Por exemplo, no norte, existe um associativismo pujante no calçado. Apesar de ser um sector muito competitivo, partilha um laboratório e um centro de investigação que trabalha articulado com a Universidade de Aveiro. E isso está na origem do êxito desta industria. Nos têxteis, estão a implementar a mesma coisa.

Então não encontrou um caso de estudo semelhante no Algarve?
Não, não. Apesar de haver todo o potencial para isso acontecer. Penso que isso tem a ver com os recursos humanos, isto é, com a vontade das pessoas. É a única explicação que consigo encontrar. Também, porventura, terá a ver com a chamada capitalização das empresas. Há de facto uma maior capitalização das empresas ligadas aos bens transacionáveis no norte do país, do que no sul, e em particular no Algarve. Mas se olharmos para o sector do turismo, esse empreendedorismo e essa solidariedade entre empresários, na criação de associações com a preocupação de fazer alguma investigação em matéria de marketing, também não existe. Nem no sector mais forte acontece. É um problema que ultrapassa o stock de capital.

Na sua opinião, que modelo de desenvolvimento sugere para a região?
Bem, tem de haver um plano de desenvolvimento regional. Tanto quanto julgo saber, esse trabalho não tem sido feito de uma forma científica, aprofundada. Teria que ser desenhado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) em colaboração com as autarquias e as associações empresariais. Deveria pensar-se, em termos administrativos, na criação de uma Zona Metropolitana do Algarve. Sou a favor de descentralização, que tem a ver com uma conceção de uma regionalização mitigada. Não sou a favor da criação de cinco regiões, com governo e mini parlamento por região, porque somos um país pequeno e isso criaria ainda mais dificuldades nas decisões. Além do plano, outra coisa importante seria um centro de estudos regionais, apoiado pela CCDR, associações patronais e autarquias. Sugiro também a criação de um observatório, digamos, de desenvolvimento regional sustentável, que deveria ser criado a partir da Universidade do Algarve, com o apoio das associações empresariais.

Todas estas ideias dão uma sensação de Déjà vu. Parece que este diagnóstico há muito que está feito…
É possível que muito daquilo que é dito neste livro, corresponda, porventura, a ideias que outros já tiveram no passado. Mas a verdade é que não têm sabido ou não têm querido concretizá-las. E isso tem sido muito prejudicial para o Algarve. Há aqui um outro problema muito sério que tem a ver com as infraestruturas. As de saúde e de educação não são más. As de comunicação são boas em termos interregionais, mas dentro da região são claramente deficientes. Também preconizamos que haveria interesse que as empresas se juntassem e criassem uma sociedade de capital de risco para o Algarve

O poder central maltrata o Algarve?
Veja-se a decisão recente de transferir o Infarmed de Lisboa para o Porto. Não teve nada de científico, nem de programado. Foi uma decisão tomada por razões estritamente de ordem política. Todos o reconhecerão, até os meus correligionários mais incondicionais apoiantes do governo. Foi preciso capacidade de pressionamento político, e o Porto conseguiu-o. O Algarve de facto, às vezes conhece algumas dificuldades. Se virmos bem, e os seus leitores poderão argumentar, a região tem poucos deputados. Eleitoralmente, representa pouco. Mas isso não explica totalmente a reduzida influência que o Algarve tem ao nível central. Por exemplo, a Madeira conseguiu em várias fases da vida política nacional ter bastante mais influência, comparativamente. Os responsáveis dos partidos que lidavam com o governo regional, tinham um cuidado especial nessa relação, temos de reconhecer. E a Madeira, em termos de expressão política eleitoral é mais fraca que o Algarve. Então o que é que falha? Faltam lideranças políticas capazes de exercer mais influência junto da administração central. Isso parece-me óbvio. Se perguntarmos: no Algarve, qual foi o último grande líder autárquico com grande influência e considerado uma referência nacional? Se calhar, em relação a outras regiões do país é mais fácil encontrar uma resposta. Isto não é nenhuma crítica direta à classe política algarvia, mas são questões que merecem ser suscitadas
e analisadas.

Em jeito de conclusão, quer deixar um conselho aos algarvios?
Eu acredito no futuro do Algarve. Acho que a região tem grandes possibilidades. O problema é surgirem em momento próprio os líderes necessários para se conseguir inverter a atual situação e para se conseguir que o Algarve passe a ter um protagonismo diferente, na cena política nacional. É uma questão que o tempo ditará. Acho que as condições de partida existem – bom clima, boa posição geoestratégica, recursos naturais. Dito isto, o principal conselho que posso deixar, sem desprimor, é que tem de haver um grande sentido de empreendedorismo e de entreajuda. Empresários e responsáveis políticos algarvios deveriam pensar em cooperar mais entre si. As Câmaras, em vez de defenderem os seus interesses específicos, muitas vezes em detrimento dos concelhos vizinhos, deveriam trabalhar mais em rede. E é importante que a região aposte mais no associativismo. Porque, quando há força de vontade, não digo que se façam milagres, mas fazem-se meios-milagres.

Faltam políticas de crescimento a «dois tempos»

Para o economista e professor catedrático, António Rebelo de Sousa, «outro problema grave é que a taxa natural de desemprego, tem vindo a aumentar nas economias industrializadas. Os governos têm dado prioridade às empresas de bens transacionáveis ligados à exportações, e não aos sectores da economia doméstica, às obras públicas e ao pequeno comércio. E de facto, o sector dos bens transacionáveis é o que mais interessa em termos do PIB, mas só por si, não resolve o problema do desemprego. Pelo contrário, nalguns casos até libertam mão-de-obra. O Algarve sofre com isto», diagnostica. «Defendo que é preciso canalizar alguns recursos para os sectores de bens não transacionáveis. É preciso um modelo de crescimento a duas velocidades, com investimento em pequenas e médias empresas, mais de tipo familiar, com combinações produtivas de trabalho mais intensivo, pois contribuem para que haja menos assimetrias a nível regional. Preconizo esse tipo de políticas a nível regional e nacional», disse ao «barlavento». Apesar do estudo «não tomar posição» sobre as portagens na A22, os autores de «O Algarve: Análise Sócio-Económica» reconhecem que «existem dificuldades de comunicação ferroviária e rodoviária intrarregional e que esse é um problema que tem de ser equacionado».

Futuro está no turismo de saúde e de terceira idade

António Rebelo de Sousa sugere que no âmbito de um plano de desenvolvimento regional para o Algarve «deveria ser considerada a importância no futuro do turismo de saúde e de terceira idade. Penso que no futuro, serão setores-chave, sobretudo no que toca à saúde, em que há necessidades infindas por satisfazer. Uma oferta de tipo polivalente é muito difícil de equacionar, teria que ser especializada. Isto tem que ser pensado com antecedência», sugere.

Como adquirir o livro?

O livro «O Algarve: Análise Sócio-Económica» de Celina Luís e António Rebelo de Sousa foi apresentado na sexta-feira, dia 26 de janeiro, em Faro, ao abrigo do ciclo de conversas «O Algarve, Portugal e o Futuro» organizado pela editora «Sul, Sol e Sal». O debate contou com a presença dos autores e de André Jordan, Guilherme d’ Oliveira Martins (que assina o prefácio), João Cravinho e Vítor Neto. A edição, de 140 páginas, faz um retrato atual do Algarve, com as estatísticas mais atualizadas sobre o território, demografia, contributo para a riqueza nacional, e dinâmica interna, apontando uma perspetiva de desenvolvimento sustentável de médio prazo. Custa 15 euros e pode ser pedido à cobrança, através do e-mail [email protected]

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