Albufeira aclamou o seu campeão europeu de andebol em cadeira de rodas

Quis o destino que, aos 19 anos, Rui Rodrigues ficasse paraplégico num acidente, quando se deslocava para servir militarmente a nação. Aos 37 anos, o atleta cumpriu o desígnio que o transportava nesse malogrado dia - serviu o país e levou Portugal à glória.

O Salão Nobre dos Paços do Concelho de Albufeira quase encheu hoje, 5 de dezembro, para receber e homenagear Rui Rodrigues, atleta natural de Albufeira e integrante do plantel da seleção nacional que venceu o Campeonato da Europa de andebol em cadeira de rodas.

A cerimónia contou com a presença de José Carlos Rolo, presidente da autarquia albufeirense, de Paulo Freitas, presidente da Assembleia Municipal de Albufeira, de João Estrela, presidente da Associação de Andebol do Algarve (AAA), de Joaquim Escada, representante da Federação Portuguesa de Andebol (FPA), de José Carlos Araújo, presidente da Casa do Povo de Messines e de Rui Rodrigues, o homenageado desta tarde.

A alegria era contagiante entre os presentes, o orgulho no filho da terra era imensurável, e os aplausos e gritos de alegria foram bem audíveis quando o vídeo introdutório, com incidências da competição, foi mostrado no ecrã da sala.

A carga emocional no Salão Nobre foi elevada, e o auge foi atingido quando Paulo Freitas, presidente da Assembleia Municipal de Albufeira, contou um pouco da história deste «campeão que não anda, roda».

Com as glândulas lacrimais perto atingirem a ativação, Paulo Freitas revelou conhecer o atleta desde «muito novo», revelando que o albufeirense «perdeu a mobilidade num acidente, quando ia para a tropa, com apenas 19 anos. Revoltou-se, vi-o num buraco mas teve uma família fantástica, amigos fantásticos, conheceu uma mulher fantástica e hoje é um homem feliz, tem um filho feliz, tem emprego, e é um verdadeiro campeão também fora do campo». «O Rui é um orgulho enorme para Albufeira», enalteceu Paulo Freitas.

O presidente da autarquia albufeirense, José Carlos Rolo, mostrou satisfação com a resposta dada ao convite para a homenagem – «o Rui merece esta sala bem composta». Agradeceu à Casa do Povo de Messines, clube onde o atleta desenvolve atividade, «pelo que tem feito pelo desporto adaptado no Algarve». Apesar do momento ser de festa, o autarca não se furtou a tecer algumas críticas – «a sociedade ainda teima em não reconhecer estes atletas, e além disso quase todos os eventos de desporto adaptado acontecem em Lisboa, o que dificulta a progressão do Algarve nesse campo». Mas este título permite «pensar noutros vôos, o Rui Rodrigues tem de ser um incentivo para que se dê o salto e se comece a promover ainda mais o desporto adaptado junto de todos», reiterou o autarca.

João Estrela, presidente da AAA enalteceu o «enorme trabalho, difícil mas recompensador» revelando que o adversário mais próximo para os praticantes algarvios está em Setúbal, o que torna «imprescindível o apoio que tem sido dado pela Associação de Municípios do Algarve (AMAL) no transporte e na alimentação dos nossos atletas».

Já o representante da FPA, Joaquim Escada, confidenciou entre sorrisos que, na sua opinião, o jogo da final «foi canja, porque os jogadores conseguiram fazer tudo o que sabem». O organismo que rege o andebol, um dos esteios do projeto inclusivo Andebol4All, revelou que o objetivo é fazer desta uma «modalidade paralímpica».

Um dos momentos mais altos da tarde estava reservado para o discurso de José Carlos Araújo. O presidente da Casa do Povo de Messines não se coibiu de apelar às autarquias que «pensem em adquirir um autocarro, que dividido entre todas representa um investimento curto mas de enorme valia para os atletas das modalidades adaptadas no Algarve». «Hoje estamos felizes, mas nestes 5 anos de projeto temos tido muitas lágrimas e muitas angústias», revelou o dirigente da instituição messinense.

Prosseguiu, revelando que alguns atletas «desistem do projeto quando são pegados ao colo para ser colocados numa carrinha não adaptada ao seu transporte, é incómodo para eles, e refugiam-se depois na solidão, no seu quarto, na sua infelicidade». José Carlos Araújo acredita que «o Rui tem o poder de mudar este paradigma se lhe derem condições para isso, ele sabe o que dizer, sabe as angústias que estas pessoas sentem, sabe motivar para a vida».

«Tu, Rui, és um orgulho enorme para mim, és um grande homem do Algarve e do país, e no que depender da Casa do Povo de Messines todos os teus sonhos serão exequíveis», rematou, de forma emocionada, o presidente da instituição algarvia na direção do seu atleta, arrancando um aplauso de pé a todos os presentes.

Mas a tarde era dedicada a Rui Rodrigues, e o seu discurso era, naturalmente, o momento mais aguardado. Começando por referir que «ser atleta de desporto adaptado não é fácil», e revelando que nasceu «praticamente a fazer desporto e mesmo depois de ficar paraplégico ganhei força para continuar», o campeão europeu elogiou «a Casa do Povo de Messines, a AMAL e o Sporting Clube de Portugal por olharem com respeito para nós, acreditando no nosso valor».

O atleta deixou expresso o desejo de que «esta conquista seja o ponto de viragem no desporto adaptado, e que o desporto para todos seja cada vez mais uma realidade».

O andebolista revelou que esteve sempre «rodeado pelos melhores, entre amigos e família». «Estudei, trabalho, sou casado, tenho um filho, posso dizer que sou um homem realizado», atira.

Engrandecendo o ato do Sporting Clube de Portugal em «apoiar um clube de desporto adaptado no Algarve», Rui Rodrigues acredita estar a dar a cara por muitos anónimos que têm talento mas não têm quem aposte neles. «Existem mais ruis por aí», concluindo depois de forma contundente – «podemos não ser muitos, mas já mostrámos que somos bons». E foram. Portugal é Campeão Europeu de andebol em cadeira de rodas, e Rui Rodrigues é um orgulho para a cidade de Albufeira.

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