Afinal «praça vermelha» em Lagoa foi escolha da população

Cor do pavimento está a gerar polémica, mas foi uma escolha dos residentes, justifica a Câmara Municipal. O projeto foi aprovado há quase três anos, em reunião sobre a requalificação do espaço público junto ao Mercado.

O pavimento da rua não é «vermelho» como tem sido dito e repetido nas redes sociais, mas cor de tijolo. E em bom rigor, este foi o tom escolhido pelos cidadãos que, há quase três anos, se deslocaram ao Convento de São José para uma reunião, na qual a Câmara Municipal de Lagoa apresentou propostas para a requalificação do espaço público junto ao Mercado Municipal.

A Rua Coronel Figueiredo, entre as ruas 25 de Abril e Joaquim Eugénio Júdice, ganhou um pigmento diferente do tradicional, na semana passada, quando a autarquia começou a pintar o pavimento, o que tem gerado muitas críticas.

Segundo fonte da Câmara Municipal de Lagoa, «o executivo anterior tinha um plano para esta zona, que foi reprovado pela população quando tentaram fazê-lo. Nem havia justificação técnica para aquele projeto, porque nem sequer existia um levantamento topográfico. Ficou congelado. Este executivo prometeu reformulá-lo». Quando o novo executivo, liderado pelo socialista Francisco Martins, tomou posse não esqueceu o compromisso assumido.

«Esta é a única rua que atravessa, desde nascente a poente, a cidade. Era uma artéria de antigo comércio tradicional que estava a desaparecer. Havia necessidade de o revitalizar, atraindo pessoas, portanto, o objetivo do projeto é criar mobilidade», esclareceu a mesma fonte ao «barlavento».

Elaborado o plano da intervenção, este foi sujeito à apreciação da comunidade. «Havia variadíssimas propostas dos autores para o pavimento, como em lajetas, em betão armado colorido ou não, em pavé, em cores como cinzento, o betuminoso escuro. E havia também um que chamou a atenção de todos, em cor de tijolo, tendo sido esse o escolhido pelos presentes nessa reunião», garantiu a mesma fonte. Ou seja, não há qualquer justificação técnica para aquela aplicação colorida de pavimento a não ser a preferência dos lagoenses.

«É um betuminoso normal, como o de uma estrada, que depois é revestido. O melhor produto disponível no mercado é aquele que nós lá colocámos», assegurou a mesma fonte. As cores base são a tonalidade do tijolo (avermelhado), o azul, o cinza e o amarelo.

O colorido da rua já fez correr muitas opiniões nas redes sociais. A obra está quase terminada e abrirá ao trânsito dentro de uma semana, adiantou ao «barlavento» a Câmara Municipal de Lagoa.

«O que falta é dar a segunda demão ao revestimento e fazer a pintura da demarcação dos estacionamentos», sendo que esta segunda pintura deve demorar dois dias, avançou. «Já poderia estar acabado se não fosse a chuvada da semana passada. Este material é impermeável, mas não se pode dar com chuva senão desaparece. Se não houver percalços com o tempo, mais uma semana» e já será possível circular naquela famosa rua «cor de tijolo».

A cor não é, contudo, o único elemento a marcar aquele espaço púbico. A novidade é que aquela artéria passa a ter apenas um sentido (nascente-poente) e será uma das poucas zonas trinta de Portugal.

«Foi estudada a questão da circulação e houve alguma dificuldade» em criar esta mobilidade para os veículos, até porque havia «pontos problemáticos», em particular nas zonas de cruzamentos, esclareceu. «Tentámos também eliminar locais de possíveis conflitos de trânsito, na medida do possível, mas há sempre zonas em que não dá para fazê-lo. Esses pontos estão identificados para que a autarquia possa colocar lá sinalização adequada», acrescentou.

Zona trinta é para pessoas, bicicletas e, com limites, para os veículos

Há poucas zonas trinta em Portugal. Lagoa estreia-se nesta ideia a partir da próxima semana. No início da Rua Coronel Figueiredo será colocado um sinal que alerta para a obrigação de circular nesta artéria a um limite máximo de 30 quilómetros por hora. Isto porque, o projeto de requalificação pretende devolver a zona à população e turistas. «É um espaço partilhado entre automóveis, bicicletas e peões, em que o peão tem sempre prioridade. O automóvel, pode circular, mas tem sempre que parar» para dar a prioridade a quem circula a pé, justificou fonte da Câmara Municipal de Lagoa.

O único pesado autorizado a passar nesta rua será o camião municipal da recolha dos resíduos urbanos. Para isso e como a rua passa a ter apenas um sentido, foi possível à autarquia reservar uma faixa de 3,5 metros para circulação automóvel, ladeada por bolsas de estacionamento.

«Há, por exemplo, um espaço que tem que ficar livre para as cargas e descargas, quer por causa dos contentores de lixo, quer para os serviços dos correios», disse a mesma fonte.

Para ordenar a nova circulação, foi criada uma sinalética especial a condizer com o pavimento, que pretende dar um toque especial ao projeto.

Serão pintadas pegadas, a cinzento claro, com cinquenta centímetros, em vez das tradicionais passadeiras para peões nos cruzamentos, ainda que seja colocado sempre o sinal do código da estrada vertical.

Há um sinal que foi apresentado por «um designer gráfico que ficará também nos cruzamentos, que são círculos com peixes. Não funciona como rotunda, mas indica uma zona de cruzamento. Vamos também utilizar, nalguns espaços um mobiliário interessante», criando uma espécie de rotunda com três peças de mobiliário. «Vamos criar zonas de estar dentro da cidade, além das próprias esplanadas, onde as pessoas podem ficar», afirmou.

Em frente ao Mercado será colocado mobiliário urbano, assim como perto da Rua São João de Deus, que não vai ter trânsito. Vamos colocar neste espaço um equipamento, que de um lado permite estacionar bicicletas trancando-as num varão. No outro lado, ficará um banco virado para a rua.

Por sua vez, há espaços ao longo desta via que não terão mais nada do que mobiliário urbano. «Vamos ter zonas de esplanada», havendo já um empresário da restauração que pediu autorização para colocá-la em frente, no espaço público.

Serão ainda colocados mais de uma centena de vasos com arbustos coloridos e cheirosos, escolhidos pelo arquiteto responsável pelo projeto. É o caso do Cestrum nocturnum, vulgarmente conhecido por dama-da-noite. É um arbusto que ao início da noite desabrocha e liberta cheiro. Haverá ainda rosmaninho ou alecrim, por exemplo.

Com um novo espaço para mostrar e revitalizar a zona de comércio tradicional, já há programas a serem pensados pela divisão de cultura para a animação. Segundo justificou a autarquia, os próprios comerciantes estão a organizar-se no sentido de fazerem eventos, de modo a atrair pessoas.

Constrangimentos atrasaram a obra

Algumas alterações e dificuldades exteriores à obra, como o entendimento com as empresas de fornecimento de energia ou telecomunicações, atrasaram a intervenção da Câmara Municipal de Lagoa, na Rua Coronel Figueiredo. «A EDP gere a iluminação pública e nós temos que escolher o material de um fornecedor especifico. Já nos deviam ter entregue os postes e as luminárias de iluminação pública. Quando chegarem colocaremos, porque já está tudo montado e preparado para que sejam instalados. Não podíamos encomendar mais cedo, porque enquanto a obra não começar, ninguém pode imputar custos», explicou. Assim, a rua abrirá ao trânsito às escuras. Já o mobiliário está em armazém, bem como os vasos com as plantas. A autarquia promete colocar tudo no mesmo dia, assim que a toda a tinta secar.

Zona do Mercado será mais acessível

Uma das barreiras à mobilidade era a existência de inclinações na rua de quase dez por cento e de passeios com 50 centímetros de largura, com calçada gasta. Pensando na acessibilidade das pessoas, a Câmara Municipal de Lagoa decidiu eliminar grandes rampas e passeios. «As inclinações máximas, com este projeto, são de seis por cento, que é o limite que os projetos de mobilidade urbana indicam», adiantou ao «barlavento» fonte da autarquia.

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