«Viajantes Solitários» passam por Monchique e Aljezur em março

Espetáculo do Teatro do Vestido já passou por diversos pontos do país. «Lavrar o Mar» trará as histórias dos camionistas ao grande palco da Costa Vicentina e Serra de Monchique.
Estêvão Antunes e Simon Frankel.

Andam na estrada acompanhados, mas, ao mesmo tempo, sozinhos. Entregues aos pensamentos, reflexões e imprevistos de uma vida ao volante, apenas interrompidos por rasgos de camaradagem, quando param à beira de uma qualquer estrada com outros camionistas. Percorrem milhares e milhares de quilómetros, atravessam países, culturas e idiomas. Carregam as saúdes da família e amigos que deixam em casa. A sua bagagem são as histórias reais, que neste caso, dão corpo ao espetáculo «Viajantes Solitários», uma criação do Teatro do Vestido, que será apresentada no âmbito do projeto «Lavrar o Mar», de 1 a 4 de março, em Monchique, e de 7 a 10 de março, em Aljezur.

Não é uma estreia. Nem uma apresentação inédita. Mas enquadra-se no espírito de descentralização da cultura em salas de espetáculo improváveis, que o «Lavrar o Mar» tem vindo a impulsionar. «Este espetáculo parte de um desafio que o Teatro Viriato (Viseu), com quem nós trabalhamos e do qual sou artista residente, fez ao Teatro do Vestido, juntamente com o seu mecenas, a empresa de transporte de longo curso Patinter. Acharam que poderia ser interessante fazer uma peça de teatro sobre camionistas», disse ao «barlavento» Joana Craveiro, autora do texto.

De uma observação, de que a vida de camionista dava uma peça, à concretização do espetáculo, que estreou em 2015 e já esteve em cena em diversos pontos do país, foi um passo. «A partir desse repto fomos ao encontro de diversos camionistas para recolher as suas histórias. Este é um texto original meu, com direção minha, mas criado a partir desses relatos», acrescentou ainda.

Também os atores Estêvão Antunes e Simon Frankel participaram nessas entrevistas. «Falámos com largas dezenas de profissionais e tivemos pena de não conseguirmos falar com mulheres camionistas, porque também as há. No entanto, infelizmente, no período em que nós estávamos em criação, elas estavam em viagem. Conversámos com o pessoal da Patinter, e também de outras empresas congéneres, e ainda com pessoas que trabalharam no tempo em que não havia GPS», contou Estêvão Antunes.

Foi a partir destes testemunhos na primeira pessoa, transcritos, compilados e reescritos por Joana Craveiro, que «Viajantes Solitários» ganhou forma.

Para a autora do texto, escrever esta peça não foi mais difícil do que qualquer outro projeto. «Temos sempre que tomar decisões e opções. A grande beleza de trabalhar com estas histórias, contadas na oralidade, é precisamente construir a dramaturgia. Claro que ficaram algumas de fora, mas rapidamente fui criando uma estrutura de suporte aos temas que os camionistas partilham e falam, que são recorrentes», explicou Joana Craveiro.

Uma delas é a solidão. «É um grande chapéu. Todos os camionistas falam sobre isso. Até porque é a coisa mais difícil com a qual têm de lidar na profissão. Por isso, quando param, juntam-se aos outros colegas portugueses e ficam na conversa», evidenciou Estêvão Antunes.

Ainda assim, o ator revela que, no passado, havia uma camaradagem diferente, entre os motoristas de transporte de longo curso. Sem a ajuda do GPS, «precisam muito uns dos outros. Hoje, dizem que há alguma falta de entreajuda. As pessoas mais antigas é que falam nisso. Hoje, o trabalho é um pouco mais individualista», disse. «E houve situações que nunca pensámos que um camionista nos contasse, que, ao fim e ao cabo, nada têm nada a ver com camiões», confidencia Estêvão Antunes.

No entanto, a solidariedade entre pares ainda não está extinta, de todo. «Quando os camionistas, da mesma empresa ou não, se encontram naqueles parques, enquanto descansam, criam relações entre si, fazem refeições juntos», sublinhou o ator. Não deixam, porém, de percorrer milhares de quilómetros sozinhos.

Estêvão Antunes não é alheio ao facto de haver um preconceito em relação a esta classe profissional, sendo este, aliás, um aspeto que os camionistas dizem sentir. «Nas entrevistas que fizemos, muitos diziam que as pessoas os viam como os feios, porcos e maus da estrada, mas não é assim. Também os há, claro. Mas há sobretudo uma grande diversidade», relata Estêvão Antunes. «Não há um camionista igual, assim como não há duas pessoas iguais… neste ou noutro trabalho qualquer», sublinhou.

No final de cada sessão, o ator sente-se satisfeito por contribuir para desmistificar essa imagem negativa. «Das críticas que temos recebido, as pessoas elogiam a veracidade. Sobretudo, quem tem familiares neste ofício. Dizem que é mesmo assim como nós contamos. Alguns chegam a perguntar se nós somos mesmo atores ou somos camionistas ou se somos atores, o que é maravilhoso. Quem não tem ligação à profissão, fica admirado», frisou.

Neste rol há outras curiosidades que são desconhecidas do cidadão comum. «Um dos camionistas contou-me que a Bélgica é um dos países mais inseguros, bem como as zonas fronteiriças. Disse que tentava sempre organizar a viagem de forma a atravessar a Bélgica sem parar», revelou Estêvão Antunes. O ator foca ainda a falta de acompanhamento destes profissionais, a nível psicológico. «Muitos, independentemente da carga [ser valiosa ou não] sofrem assaltos. É algo que os atormenta para o resto da vida. Um camionista de longo curso não tem qualquer tipo de apoio. É-lhes apontada uma arma à cabeça e, no dia a seguir, na semana seguinte, ninguém fala com eles. Acumulam este tipo de episódios traumáticos. Pode acontecer uma vez, como pode acontecer cinco, seis ou sete», revelou.

Os profissionais de longo curso, em alguns casos nem sabem o que levam. «Na legislação, quando transportam matérias muito valiosas, não sabem o que é», reforçou o ator em conversa com o «barlavento». Depois há histórias macabras, insólitas e até difíceis de acreditar. Mas essas ficam para quem for assistir ao espetáculo…

É que «Viajantes Solitários» estaciona na antiga serração de Monchique, entre 1 e 4 de março, e no Espaço Multiusos de Aljezur, entre 7 e 10 de março. As sessões são sempre às 21 horas, com 80 minutos de duração, para maiores de 12 anos.

Em jeito de conclusão, Joana Craveiro, diretora artística do coletivo Teatro do Vestido, que fundou em 2001, considera que o «Lavrar o Mar» é um projeto muito diferenciador, e por isso, está contente com a colaboração. «Este espetáculo insere-se perfeitamente», pois além de abordar um tema inédito nas artes de palco, quebra estereótipos e é apresentado num cenário pouco convencional. A peça é passada dentro de um camião TIR, onde só há dois atores e um músico (Bruno Pinto) e uma lotação de 30 lugares.

«Viajantes Solitários» é falado apenas em português e as entradas custam sete euros, podendo os bilhetes já ser adquiridos na plataforma online BOL (https://lavraromar.bol.pt/).

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