Teatro Lethes sob o signo da «Memória» em 2017

Palco aberto, visitas encenadas para a infância, concertos, teatro, dança, debates e a publicação de um jornal, sob o signo da «memória», marcam a agenda do Teatro Lethes, a cargo da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve.
Luís Vicente, Alexandra Gonçalves, Dália Paulo, Rogério Bacalhau e Desidério Silva.

Uma fantástica vista da rua para o palco, com os camarotes iluminados a brilhar na penumbra e um saxofonista a dar as boas-vindas, surpreenderam todos aqueles que fizeram questão de marcar presença na apresentação do programa da Teatro Lethes, em Faro, no sábado, 7 de janeiro.

Já com a plateia instalada e cheia, Luís Vicente pediu um minuto de silêncio «em honra de um dos fundadores da nossa democracia, Mário Soares». Prometendo ser breve, mas acabando por dissertar cerca de 50 minutos, o diretor artístico fez uma resenha de muito do que decorrerá em palco e fora dele. Em relação a produções próprias, a aposta da ACTA passará apenas por uma novidade.

Chama-se «Um espetáculo» e terá como interpretes Bruno Martins e Glória Fernandes, dupla de atores da casa, com encenação de Elisabete Martins. Estreia na última semana de março. Outra grande aposta é o ciclo de música «Euterpe», que se insere no âmbito do programa «365 Algarve».

A atual equipa da ACTA.

A decorrer durante quatro semanas sempre à quinta, sexta-feira e sábado, já a partir de 16 de fevereiro com um concerto das Moçoilas, começará sempre às 20h30, «uma hora mais cedo que o habitual, para conquistar outro tipo de público», justificou Luís Vicente. Nestes dias haverá também visitas acompanhadas ao coração do Lethes, durante a manhã.

«A linha orientadora da programação deste ano é a convocação da memória, que parece que é uma coisa descartável» nos dias de hoje, segundo Luís Vicente. Um exemplo pragmático serão os encontros/ debates com os históricos antifascistas José Mário Branco (18 de março) e Camilo Mortágua (10 de junho).

Além disto, o diretor artístico destacou o concerto «Nos Cantos da Memória», a 6 de maio, com Francisco Naia e Ricardo Fonseca a proporem uma viagem pela música tradicional e popular portuguesa do século XII ao XIX.

Ainda sob o signo da «memória», a ACTA apresentará uma co-produção com o Teatro dos Aloés, «A história do cerco de Lisboa» de José Saramago, de 7 a 12 de novembro. Convidado a subir ao palco,

Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, admitiu ter ficado «com água na boca». «A apresentação da programação do Lethes com uma pontualidade que se saúda é um momento que congrega a atenção dos agentes culturais e do público em Faro.

Alexandra Gonçalves, Dália Paulo, Rogério Bacalhau e Desidério Silva.

Na nossa cidade sentimos esse efeito» de expetativa. «Começar em 2013, o primeiro ano em que a ACTA esteve aqui a dar os primeiros passos, com cerca de 5 mil espetadores e quatro anos depois ter quase 10 mil, não é fácil. Espero que este ano ultrapassemos os 10 mil e, se não o fizermos, de certeza absoluta que seremos todos a perder, porque a programação é excelente», considerou o autarca.

«Cada vez é maior a relevância da cultura para a avaliação da qualidade de vida das populações e para a atratividade global das cidades. Faro não é exceção. Aqui a valorização, reutilização e a animação do património histórico e cultural alavancam o sucesso da estratégia económica defendida. Uma estratégia que parte, em grande medida, de uma mudança de paradigma. Da passagem de uma cidade de serviços em que as burocracias eram o core business para passarmos a ser um concelho vivo e dinâmico sob o ponto de vista empresarial, das indústrias criativas e do turismo», disse.

Também presente Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve, deixou alguns recados de âmbito mais político. «Este ano tivemos 17 milhões de dormidas. Se em função disso o Estado arrecadar mais receita, então, também deveria investir mais», sobretudo nas «necessidades fundamentais» da região. «O Algarve é cada vez mais um destino de referência. Conseguimos criar aqui uma marca de confiança. Houve um esforço muito grande por parte dos empresários e de todos aqueles que têm a capacidade de contribuir para que esta região seja escolhida por milhões de turistas. Não podemos dizer que todos aqui vêm devido às questões do norte de África. Vêm porque ao longo dos anos houve condições para criar um território de confiança», lembrou. Mas não basta «apenas a simpatia, uma cama perfeita e uma paisagem. Tem que haver mobilidade, tem que haver acessibilidades e um conjunto de infraestruturas. Essas cabem muitas vezes ao governo central que não as tem feito, e que não tem dado resposta».

Grupo de dança Oriental e Fusão Akhawat Al Raks.

Em relação ao «365 Algarve» é «um processo que o Algarve tem querido e que gostaria que tivesse começado mais cedo. Vem ajudar a dar resposta àquilo que têm sido as nossas fragilidades», ou seja, a sazonalidade. Nos períodos de época baixa «os agentes culturais da região têm margem para crescer». Desidério Silva disse que é preciso «dar o salto para os turistas. Temos de ter visibilidade, notoriedade e ser uma região onde a cultura também faz parte do nosso quotidiano. A ACTA está nesse patamar».

A apresentação abriu com os «Micro Contos» de Fernando Guerreiro.

Dália Paulo, comissária do «365 Algarve», lembrou que «não se faz cultura para o turista, senão não é cultura, e estamos a criar uma Disneylandia. Este programa é para todos os que estão no Algarve, algarvios de coração e de nascimento. Só assim é que será importante. Este programa não nasce de uma atitude arrogante, nasce de uma atitude humilde de querer trabalhar com quem já pensou a região», voltou a sublinhar, dedicando à equipa da ACTA e aos voluntários do Teatro Lethes uma frase: «o talento desenvolve-se pelo amor que pomos no que fazemos. Talvez até a essência da arte seja o amor pelo que se faz». Alexandra Gonçalves, delegada regional de Cultura do Algarve lembrou que «onde não há memória, também não há futuro. A nossa memória coletiva remete-nos para um passado fracionado, nostálgico. É fundamental convocar e construir novas memórias».

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