Silves, Tânger, Camões e a história ainda desconhecida de Portimão

Segundo o investigador e genealogista Nuno Campos Inácio, a primeira edição de «Os Lusíadas» sobreviveu ao desastre de Alcácer Quibir, trazida nos despojos de D. Martinho Castelo Branco, terceiro Conde de Vila Nova de Portimão, e patrono do poeta Luís Vaz de Camões. Esta é uma das relevações inéditas no novo livro «História do Condado de Vila Nova de Portimão (1465-1698)».

barlavento: Portimão tem sido um objeto de estudo muito frequente na sua obra. Ainda assim, vai apresentar um novo livro. Porquê a insistência?
Nuno Campos Inácio:
Uma coisa é proceder ao estudo, outra coisa é publicar para memória futura o resultado desse estudo. Não se trata, assim, de uma insistência, mas tão só a divulgação pública de um resultado. A obra que agora apresento corresponde, na verdade, a dois capítulos de uma grande obra que coligi, que conta com mais de 1800 páginas, abrangendo desde o período pré-histórico até à sua elevação a cidade em 1924.

Que aconteceu de relevante entre o período de 1465 – 1698, focado neste novo livro?
Em 1463 Portimão obteve a sua independência territorial e político-administrativa face à cidade de Silves. Podemos assim dizer, que tudo foi relevante. Em 1465, Portimão foi feito senhorio, e entregue ao Almirante de Portugal Rui Afonso de Melo. A influência e o poder que detinha junto da Corte, terá sido fundamental para gerir a favor de Portimão a forte conflituosidade que a sua emancipação face a Silves provocou. Com a morte do Almirante, o Senhorio passou para a família Castelo Branco, sendo erigido a Condado com D. Martinho de Castelo Branco. Em termos de obras, foi durante este período que foram construídos edifícios como a Igreja Matriz, o Convento de São Francisco, o mais recente pano de muralhas, a Igreja do Colégio e a Fortaleza de Santa Catarina.

Diz ter consultado «mais de um milhar de documentos originais e, na esmagadora maioria, completamente inéditos. De que se trata?
São documentos de chancelarias régias, e vários da Torre do Tombo, do arquivo da Igreja Matriz e de arquivos internacionais. São inéditos enquanto bibliografia publicada. Acredito que muitos (ou todos) dos que escreveram e publicaram sobre história portimonense não tiveram acesso a grande parte da informação documental que será divulgada nesta obra.

Porque motivo é que alteram «drasticamente a noção que a população tem sobre as origens de Portimão?
Há a ideia generalizada de que Portimão é uma localidade recente, cuja origem remonta a 1463. O documento mais antigo a referir Portimão até agora data do século XI identificando-a como uma alcaria (aldeia). Do século XII datam dois documentos que se referem igualmente a Portimão, mencionando um deles o seu castelo, que surge referido em poemas recentemente descobertos numa biblioteca marroquina. O outro documento desse século é taxativo ao identificar Portimão como sendo o «porto de Silves». Deste modo, em termos documentais, é possível recuar as origens de Portimão, pelo menos, ao século XI. São apresentados também vários documentos dos séculos XIV e XV relativos a Portimão, todos anteriores à fundação de São Lourenço da Barrosa. Encontrei outros factos históricos alterados. Por exemplo, em 1463, Portimão já possuía uma fortificação; a Igreja Matriz de Portimão foi construída por iniciativa popular e não dos Castelo Branco; São Lourenço da Barrosa e Portimão são duas localidades distintas; neste período existiu uma ponte no rio; o bispado do Algarve antes de ter sido transferido de Silves para Faro esteve informalmente sediado em Portimão.

Esta história desconhecida cruza-se também com a dos concelhos vizinhos?
É impossível fazer uma obra sobre história de Portimão nesta época, sem referir a sua ligação umbilical à cidade de Silves. Curiosamente (ou não), sendo Portimão uma cidade portuária, nesta época acabamos por abordar mais a sua ligação com cidades como Ceuta e Tânger do que com os concelhos vizinhos. Ainda assim há documentos relativos a Lagoa, Monchique e Lagos, por exemplo.

Que mais sobre o novo livro?
É um ensaio histórico e monográfico. Está dividido por capítulos, apresentando a biografia de cada um dos Senhores e Condes de Vila Nova de Portimão. No capítulo seguinte, conta o que aconteceu nesta localidade durante o período de gestão de cada um deles. Permite fazer uma ligação direta entre o progresso da vila e o poder que cada um dos seus administradores detinha. Quanto maior era o prestígio do seu Senhor, maior era o progresso verificado. Um pouco como ainda acontece hoje…

Há alguma descoberta curiosa que possa avançar?
Todas as biografias que consultei afirmam que o Almirante Rui Afonso de Melo faleceu em Portimão no dia 25 de fevereiro de 1467, quando tentava apaziguar uma luta travada entre franceses e ingleses. Na verdade, nessa data, o Almirante já estava falecido há mais de seis meses, uma vez que morreu no dia 16 de julho de 1466. Pode parecer uma mera questão de pormenor, mas muda muita coisa do ponto de vista histórico. Se não foi o Almirante que morreu a apaziguar o conflito, quem terá sido? Outro dado curioso é a ligação de Luís Vaz de Camões com D. Martinho Castelo Branco (neto do 1º Conde seu homónimo), de quem foi amigo e patrocinador, tendo o seu exemplar de «Os Lusíadas» sido descarregado em Portimão, no regresso da Batalha de Alcácer Quibir.

Este livro conclui a sua investigação sobre Portimão, ou ainda há mais a dizer em próximos trabalhos?
Como já disse esta obra corresponde a dois capítulos de uma outra muito maior, que irá sendo publicada abrangendo os diversos períodos históricos. A forma como está organizada permite que a sua divulgação seja feita de forma autónoma. No dia 8 de dezembro deverei apresentar a obra que estou a concluir sobre os 550 Anos da Igreja Matriz de Portimão, em resposta a um desafio que me foi lançado pelo Padre Mário de Sousa. No entanto, relativamente a Portimão, a obra mais significativa será a passagem da informação do portal de genealogia para o formato de livro. Será iniciada antes de setembro, com a apresentação do «Dicionário Enciclopédico das Famílias de Barão de São Miguel», do concelho de Vila do Bispo, uma obra com 960 páginas. Espero ainda apresentar o Guia de Albufeira, um guia turístico que integra a nossa marca editorial «Algarve Discovery»

Porque é a «Memória Monográfica de Portimão» de 1911 referida no prefácio?
A interpretação que faço a essa referência é a de que o autor do prefácio pretende salientar que foram necessários 100 anos para que voltasse a ser publicada uma obra de carácter histórico e monográfico relativo a Portimão. Neste período foram publicadas mais obras sobre Portimão, mas nenhum aprofunda esta época histórica, dedicando-se a períodos mais atuais.

Editora «Arandis» é aposta ganha

Questionado sobre o atualidade da chancela que fundou e dirige, Nuno Campos Inácio sublinha que «a Arandis editora conseguiu, em menos de cinco anos, consolidar-se como a maior editora regional algarvia, com 161 edições em quatro anos de existência, mantendo a atividade em franco crescimento. É um trabalho conjunto dos três sócios, Sérgio Brito, Fernando Lobo e eu. Neste momento, no prelo, temos mais de uma dúzia de títulos, a apresentar final do ano».

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