National Geographic destaca recém-descoberta estela da escrita do sudoeste

Peça está em exposição no Museu Municipal de Loulé, a partir de 27 de julho.

A descoberta publicada, nesta sexta-feira, na edição portuguesa da revista National Geographic, revela que no início deste verão foi encontrada uma nova estela com escrita do Sudoeste no concelho de Loulé.

As estelas com escrita do Sudoeste têm mais de 2500 anos e aparecem durante a Idade do Ferro. Elas são um dos maiores tesouros da arqueologia europeia, havendo apenas cerca de cem exemplares e a maioria foi encontrada em Portugal (perto de 90 %). Esta escrita é um símbolo privilegiado da herança histórica do Algarve e Baixo Alentejo, pois ela é, afinal, a mais antiga manifestação de escrita da Península Ibérica e ainda hoje está por decifrar.

Recolhida por Jorge Narciso há cerca de 8 anos perto da Cortelha, uma aldeia da freguesia de Salir no Concelho de Loulé, era uma pedra que estava num poço com as letras viradas para baixo. A estela (bloco de pedra que se fixava no solo) da Cortelha foi identificada pelo olhar atento do fotógrafo Jorge Graça que reconheceu a escrita do Sudoeste na pedra que estava a ser utilizada no cortejo do Grupo Etnográfico da Serra do Caldeirão como pedra da lavadeira.

Segundo o arqueólogo Amílcar Guerra da Uniarq – Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a leitura do texto é clara, com todos os traços bem gravados, e revela alguns signos raros e outros inéditos.

O fragmento de estela com 48×37 centímetros apresenta sete a oito signos gravados reconhece-se o E, o R e os A. Esta escrita que se concentra no Sudoeste Peninsular, daí o seu nome, adaptou o alfabeto fenício e depois criou uma escrita própria ajustada à língua das populações que aqui viviam.

Para além deste contributo para a investigação linguística da escrita, a importância desta estela com escrita do Sudoeste é de ter sido encontrada numa área onde até hoje ainda não tinham sido encontrados vestígios arqueológicos da Idade do Ferro, revelando assim o enorme potencial que a Serra entre o Algarve e Baixo Alentejo tem para investigar este tema. No âmbito da investigação realizada pelo Projecto ESTELA, os arqueólogos Samuel Melro e Pedro Barros referem que eram conhecidos dois conjuntos no Concelho de Loulé, um na área do Ameixial onde foi encontrada há 10 anos a última estela e outro na zona Benafim/ Salir.

A estela da Cortelha doada por Jorge Narciso ao Museu Municipal de Loulé, num exemplo extraordinário de cidadania livre e responsável, pode ser vista entre o dia 27 de julho e o final de setembro. As restantes estelas com escrita do Sudoeste do Concelho de Loulé também podem ainda ser observadas na premiada exposição de arqueologia «Loulé: Territórios. Memórias. Identidades» patente até ao final do ano no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, bem como no Museu da Escrita do Sudoeste em Almodôvar dedicado ao tema.

A autarquia de Loulé tem vindo a promover e apoiar um conjunto de ações para valorização deste Património Cultural no interior do Concelho, como são as iniciativas do festival de caminhadas do Walking Festival Ameixial que escolheu esta escrita como sua identidade e fator diferenciador; ou a candidatura para a valorização dos sítios arqueológicos da escrita do Sudoeste do Ameixial; ou mesmo a recente homenagem a José Rosa Madeira que doou a vários Museus um importante conjunto de estelas com escrita do Sudoeste.

Ou, integrada nas atividades do Ano Europeu do Património sob o tema «Partilhar Memórias», a futura realização de uma homenagem aos guardiões da identidade de Loulé, os louletanos singulares e doadores beneméritos, sem os quais o Museu Municipal e a história local, regional e mesmo nacional hoje não seria a mesma.

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